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Autor Tópico: Ricardo Araújo Pereira -Cronica da revista Visão  (Lida 4007 vezes)
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« em: 27 de Novembro de 2008, 12:53 »

Opinião
Banco Português de Núpcias

É impressão minha ou o caso BPN fica mais enternecedor a cada dia que passa? Tem sido comovente desde o início, mas estes últimos episódios foram mais emocionantes que o fim de Casablanca. À semelhança do que costuma acontecer nas histórias tristes, esta também tem um inválido, como o Tiny Tim, do Dickens. O caso BPN tem, aliás, vários inválidos, e curiosamente são todos ceguinhos: o Banco de Portugal não viu que havia falcatruas, os administradores do banco não repararam que o presidente praticava um tipo de gestão que a lei, ao que parece, proíbe…
E agora estamos no ponto em que entra em cena a injustiça: Oliveira e Costa foi acusado de burla agravada, falsificação de documentos, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Quem o acusa de enriquecimento ilícito só pode desconhecer o seu desarmante altruísmo. Segundo o Correio da Manhã, em Março deste ano, Oliveira e Costa divorciou-se da mulher com quem era casado havia 42 anos, e passou os bens para o nome da senhora. Muito embora o divórcio se tenha realizado por mútuo consentimento, não deixa de ser admirável que um homem premeie a mulher de forma tão generosa na hora da separação. Trata-se do rigoroso oposto do «golpe do baú»: o objectivo não é casar para ficar rico, é divorciar-se para enriquecer o cônjuge. Que um homem tão desprendido dos bens materiais seja acusado daqueles crimes é simplesmente revoltante.

E é em alturas como esta que damos por nós a pensar que, quando os homossexuais tentam fazer pouco da nobre instituição do matrimónio, reivindicando o direito a casar, esquecem que o casamento não é uma brincadeira, nem um contrato sem significado que possa ser alargado às pessoas do mesmo sexo. O casamento é uma união sagrada entre um homem e uma mulher que partilham um projecto de vida comum, e essa união persistirá eternamente a menos que a polícia queira engavetar um dos cônjuges ao fim de 42 anos e levar-lhe a massa que ele acumulou indevidamente. Os homossexuais que não queiram vir corromper o instituto com que o Estado premeia as pessoas que formam o núcleo essencial da sociedade. Era o que faltava, vir essa gente conspurcar uma coisa tão bonita.

Mais do que fazer história no plano jurídico, na medida em que, pela primeira vez, foi preso um banqueiro em Portugal, o caso BPN pode fazer história no plano social: além do casamento por interesse, aparentemente acaba de se instituir o divórcio por interesse. Casar com um homem
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« Responder #1 em: 27 de Novembro de 2008, 12:57 »

O ovo da C+S Cristóvão Colombo

No momento em que escrevo, a ministra da Educação recuou e satisfez a principal reivindicação dos alunos: as faltas justificadas já não dão chumbo. Registo que a ministra escolheu o momento em que escrevo para o fazer. A vantagem de se publicar um texto semanal é, aliás, essa: os cronistas passam frequentemente pela experiência de verem coisas acontecer no momento em que escrevem. É muito raro um cronista admitir que, no momento em que fez uma pausa para petiscar uma bolacha, teve lugar um acontecimento importante. Já no momento em que escreve, costuma passar-se tudo. Foi o que sucedeu desta vez comigo, com a ministra e com as reivindicações dos alunos. Por outro lado, curiosamente também no momento em que escrevo, não há notícia de que qualquer protesto dos professores tenha sido atendido.
Do ponto de vista político, o caso pode ter repercussões importantes. A questão é saber quais. Não contem comigo para isso. Posso dizer-vos, no entanto, qual é a repercussão menos importante que o caso pode ter. É esta: a ministra parece ser mais sensível aos argumentos dos grupos sociais que arremessam ovos. Entre um professor que empunha um cartaz impecavelmente redigido e um aluno cujo discurso se compreende mal mas que tem meia dúzia de ovos e pontaria, a ministra opta por escutar o protesto do segundo. Quem a censura? O cargo de ministra da Educação não parece ser fácil de desempenhar. Na Austrália, onde o acesso a ovos de avestruz é mais amplo, deve ser ainda pior. Mas em Portugal também tem que se lhe diga, e não contesto que o titular da pasta ceda às pressões de vez em quando. Receio apenas que os cidadãos interpretem esta coincidência como um padrão: quem atira ovos obtém melhores resultados.

É verdade que os professores são das classes profissionais menos talhadas para as manifestações públicas. Ao longo da minha vida académica sempre ouvi, da boca dos professores, frases como «Não grites», «Não atires coisas» e «Mas será que eu vou ter de vos separar?». Tendo em conta que as manifestações são, em boa medida (pelo menos, as boas), ajuntamentos de pessoas que gritam e atiram coisas, percebe-se melhor a falta de eficácia dos protestos dos professores. No entanto, o arremesso de ovos não devia ser premiado. Ninguém se empenha especialmente para fazer valer os seus direitos, mas se começar a constar que a cidadania consiste em atirar ovos a ministros, temo que a democracia ganhe um novo encanto. Basta comprar três dúzias de ovos e ir para a porta do Palácio de São Bento em dia de reunião do Conselho de Ministros. Um ovo na testa do Jaime Silva para resolver a questão das pescas. Outro nas costas do Vieira da Silva para melhorar o problema do trabalho precário. E assim, sucessivamente, enquanto as galinhas puserem ovos.
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