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Autor Tópico: À PROCURA DA PALAVRA  (Lida 1227 vezes)
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« em: 11 de Janeiro de 2008, 16:12 »

À PROCURA DA PALAVRA: BAPTISMO DO SENHOR - Ano A

"Este é o meu Filho muito amado."
Mt 3, 17

Encontro e comunhão

"O maior problema que encontro nos pais de hoje é a falta de alegria com que desempenham o seu papel. Alegria verdadeira. Uma coisa é fingir que se gosta muito dos filhos, outra é ter realmente prazer em ser mãe, em ser pai. Gostar profundamente." As palavras interpeladoras são de Cecília Galvão, psicóloga, que, num "diálogo a três" com Pedro Oom, pediatra, e Patrícia Bandeira, educadora, reflectiram sobre educação na revista Pública de 6 de Janeiro passado. Gostava que todos os pais e educadores pudessem ler e reflectir esta admirável conversa cheia de coragem em trazer para debate muitas questões sentidas e sofridas no campo tão fundamental da relação entre pais e filhos. "A maior parte dos pais não tem noção nenhuma dos valores que quer realmente transmitir aos filhos", diz Pedro Oom.

Bento XVI interpelou-nos, através das palavras aos Bispos Portugueses, sobre o modo como testemunhamos e nos ajudamos a fazer encontro com o acontecimento, a pessoa de Jesus Cristo. Apenas desse encontro pode surgir a vida nova que é a comunhão com Deus e com os outros. Não andaremos nós, cristãos e Igreja, um pouco como os "pais" reflectidos na conversa anterior? Mais ausentes do que presentes, mais cheios de palavras do que de exemplos, mais "facilitadores de tudo" do que capazes de dizer "sim, sim, não, não", mais preocupados com as muitas actividades do que com a qualidade do tempo em que estamos juntos... e por aí adiante! Perdoem-me a ginástica de pensamento mas encontrei na referida conversa muitos pontos de reflexão com consequências eclesiais. Nesta aprendizagem de sermos irmãos não nos referimos também a "pais e mães" na fé? O encontro com Jesus Cristo não acontece porque O sentimos "mergulhar" na nossa vida e queremos "mergulhar" também na sua? E quem nos fez experimentar isso senão aqueles que amando-O, nos amaram com alegria?
No fundo, é o Pai que nos convida a rever na sua relação com o Filho a nossa presença no mundo. A intimidade e a confiança pedem tempo vivido em comum. Ao descer ao Jordão, Jesus recusa a corte e o Templo como lugar de encontro com Deus. Esse encontro e a comunhão que ele gera irão amadurecendo ao longo de três anos, e até ao fim dos tempos. Queremos viver a alegria da companhia de Jesus e de uns dos outros? Para isso, como dizia Patrícia Bandeira, é preciso confiança e para ela ser possível, "tem de haver verdade nos sentimentos, verdade na partilha, verdade nos valores".

P. Vítor Gonçalves
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« Responder #1 em: 18 de Janeiro de 2008, 11:11 »

À PROCURA DA PALAVRA: DOMINGO II COMUM - Ano A

"Eis o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo."

Jo 1, 29

Mergulhar ou andar nas margens?

Voltamos à beira do Jordão como voltamos, tantas vezes ao longo da vida, a esse acontecimento primeiro do ser cristão, que é rio e fonte que nunca seca: o Baptismo. A maioria ao colo de pais ou padrinhos fomos mergulhados num dinamismo de crescimento e transformação que quer "mexer" connosco a vida toda. Jesus faz-nos passar de espectadores a actores, de isolados a fraternos, de acomodados a comprometidos, de desistentes a corajosos. Se não é para mudar a vida, é melhor na mergulhar nela! E pode ser tão pobre e seco quando se reduz a um rito "obrigatório", pretexto para "ser como os outros" e fazer-se uma festa, com fotografias e padrinhos a preceito, como a inscrição num clube sem garantia nenhuma de torcer por ele!

Nesta semana da unidade dos cristãos, nascida há 100 anos pela ousadia de Paul Wattson, padre anglicano de Graymoor, Nova Iorque, os discípulos de Cristo vamos lembrar o mistério de fragilidade que é acreditarmos no mesmo Deus e querermos viver o amor de Jesus, apesar das divisões e indiferenças que criámos. Há cem anos que, pelo menos, rezamos juntos e uns pelos outros, e volta a ser esse o convite para este ano: "Orai sem cessar" (1 Tes 5, 17). Quando rezamos mergulhamos juntos no mesmo abraço do Pai a Jesus, entramos no diálogo de filhos e de irmãos que o Baptismo iniciou, privilegiamos a vitalidade do Espírito que circula em nós. Aí as diferenças podem tornar-se riquezas, como as cores do Arco íris-íris que estavam na gota de água só aparecem quando o sol a atravessa. Ou como a beleza da sinfonia, feita de cada nota musical dos mais variados instrumentos. O pior é quando todos ou alguns queremos substituir o maestro que é Jesus; lá se vai a sinfonia e o que fica é uma grande cacofonia!
A riqueza da iniciação cristã é essencial para aprendermos a unidade. Se ser cristão fosse "aprender a ser filho como Jesus", viver em comunhão com o Pai e com os outros, assumir a morte e ressurreição como transformação feliz da vida, a unidade estava garantida. Porque ela acaba quando nos tornamos o centro, ou fazemos da nossa comunidade/igreja um "clube" de mais perfeitos, ou imaginamos ser "donos" de Deus e excluímos quem discorda, ou tornamos os sacramentos ritos estéreis e obrigatórios. Será que já mergulhámos mesmo nesta água que nos vivifica ou vamos estrategicamente "controlando" as margens?

P. Vítor Gonçalves
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« Responder #2 em: 25 de Janeiro de 2008, 17:00 »

“Orai continuamente.” (1Ts 5,17) - Janeiro 2008

Este ano a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos” comemora o seu centenário. O “Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos” foi celebrado pela primeira vez de 18 a 25 de janeiro1 de 1908. Sessenta anos mais tarde, em 1968, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foi preparada em conjunto pela Comissão Fé e Constituição (do Conselho Mundial de Igrejas) e pelo Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (da Igreja Católica). Assim, desde então, todos os anos, cristãos católicos e de diversas outras Igrejas se reúnem para preparar um pequeno livro com sugestões para a celebração da Semana de Oração.

A Palavra escolhida este ano, por um amplo grupo ecumênico dos Estados Unidos, vem da Primeira Carta de são Paulo aos cristãos de Tessalônica, na Grécia. Era uma comunidade pequena, jovem, e Paulo sentia a necessidade de que a unidade entre seus membros fosse cada vez mais firme. Por isso, convidava-os a “conservar a paz”, a ser pacientes para com todos, a não retribuir o mal com o mal, mas a procurar sempre o bem entre eles e para com todos, e também a “orar continuamente”, como que salientando que a vida de unidade na comunidade cristã só é possível quando existe uma vida de oração. O próprio Jesus orou ao Pai pela unidade dos seus: “Que todos sejam um”2.

“Orai continuamente.”

Por que “orar continuamente”? Porque a oração é essencial para a pessoa enquanto ser humano. Fomos criados segundo a imagem de Deus, como interlocutores, como um “tu” de Deus, capazes de estar numa relação de comunhão com Ele. Portanto, a relação de amizade, o diálogo espontâneo, simples e verdadeiro com Ele – isso é oração – é realidade constitutiva do nosso ser, que tornar possível sermos pessoas autênticas, na plena dignidade de filhos e filhas de Deus.

Tendo sido criados como um “tu” de Deus, podemos viver em constante relação com Ele, com o coração cheio de amor derramado pelo Espírito Santo e com aquela confiança que se tem diante do próprio Pai: aquela confiança que nos leva a falar freqüentemente com Ele, a expor-lhe todas as nossas coisas, as nossas preocupações, os nossos projetos; confiança que nos faz esperar com impaciência o momento dedicado à oração – entrecortada durante o dia por outros compromissos de trabalho, de família –, para nos colocarmos em contato profundo com Aquele que nos ama.

Precisamos “orar sempre”, não somente pelas nossas necessidades, mas também para colaborarmos na edificação do Corpo de Cristo e para contribuirmos com a plena e visível comunhão na Igreja de Cristo. Este é um mistério que podemos de certo modo intuir quando pensamos nos vasos comunicantes: ao acrescentarmos água num deles, o nível do líquido sobe em todos eles. O mesmo acontece quando alguém ora. A oração é uma elevação da alma a Deus para adorá-lo e agradecer-lhe. Analogamente, quando uma pessoa se eleva, elevam-se também as outras.

“Orai continuamente.”

Como podemos “orar continuamente”, sobretudo quando nos encontramos no corre-corre da vida de cada dia?
“Orar continuamente” não significa multiplicar os atos de oração, mas orientar a alma e a vida para Deus, viver cumprindo a sua vontade: estudar, trabalhar, sofrer, repousar e até morrer por Ele. A tal ponto que não mais conseguimos viver no dia-a-dia sem termos antes nos colocado de acordo com Ele.
Então, a nossa vida se transforma numa ação sagrada, e o nosso dia se torna uma oração.
Pode nos ajudar o fato de oferecer a Deus cada ação realizada, dizendo: “Por ti, Jesus!”; ou então, nas dificuldades: “O que importa? Amar-te importa!”. Assim, transformaremos tudo num ato de amor.
E a oração será contínua, porque contínuo será o amor.

Chiara Lubich

1) No Hemisfério Norte, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é celebrada de 18 a 25 de janeiro. No Brasil é celebrada entre a Ascensão e Pentecostes (neste ano será de 4 a 11 de maio); 2) Jo 17,21.
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"Muitos homens querem ser doutores,
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« Responder #3 em: 25 de Janeiro de 2008, 17:15 »

À PROCURA DA PALAVRA: DOMINGO III COMUM - Ano A

"Arrependei-vos,
porque o Reino de Deus está próximo."

Mt 4, 17

Começar a mudar

É pela "estrada do mar", a "Galileia dos gentios", uma terra de fronteira e de passagem, habitada por israelitas que não são de raça pura, desprezados pelos judeus de Jerusalém pela pouca instrução e "pouca fé", que Jesus começa a sua missão. É aos excluídos e marginados que começa a mostrar a sua luz. E a sua pregação não é meiga nem consoladora, gritando contra as injustiças dos poderosos ou fazendo campanha à custa das misérias do povo. Propõe a conversão de todos e cada um. Ricos ou pobres, crentes ou indiferentes. "Metanoia" (conversão) em grego não significa "mudar um bocadinho", mas fazer uma reviravolta interna que tem consequências em todos os campos da acção humana. Uma mudança por causa do Reino, porque não se pode ficar na mesma quando alguém se encontra com Jesus!

Não se trata de "mudar" como uma moda, num mundo que se cansa facilmente das imagens quando fica nas aparências. Nem de "mudar" para ganhar eleições ou apresentar estatísticas que não são reais porque não se mexeu no essencial. Nem ainda "mudar" como operação de cosmética, remendo que só adia o rasgão. A conversão é um trabalho que dói porque o hábito e a rotina acomodam e aprisionam. É um trabalho que exige humildade para arrependimento dos erros sem melindres, discernimento para avaliar sem preconceitos, e coragem para acreditar que é possível ser e fazer melhor. A dor que causa é princípio de cura, porque só a verdade liberta! E essa tarefa ninguém a pode fazer "em vez de nós". No fundo, é tomar as rédeas da vida nas próprias mãos, libertando-nos da preguiça de julgar que são sempre "eles" ( e cada um de nós tem uma série de "eles" que servem de desculpa para nada fazermos!) os únicos culpados do estado a que isto chegou! Pois é, Jesus não é nada meigo, porque compromete cada um na sua própria mudança. E sem essa conversão, a vida é só "meia-vida", e o cristão é só um "cristão a meias"Excalmação
Escutar as palavras de S. Paulo aos Coríntios é espantarmo-nos com a sua actualidade. Tantos pretextos para divisões que só revelam ambições de poder e domínio sobre os outros! O anúncio do Evangelho é proposta de conversão. Querer mudar é já o princípio, mas é pouco ficar como uma "boa intenção". "Caminhando se faz caminho", dizia o poeta castelhano António Machado, e é essa a escola de Jesus. O que é que posso começar a mudar?

P. Vítor Gonçalves
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