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Autor Tópico: CARDEAL D. EUSÉBIO - A HOSPITALIDADE  (Lida 654 vezes)
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« em: 04 de Dezembro de 2007, 23:35 »

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

04 de Dezembro de 2007

 
A HOSPITALIDADE


 

Todos somos peregrinos nesta vida. Hoje, estamos aqui. Amanhã, assumiremos nosso destino eterno. Porém, enquanto não chegamos à morada definitiva, reflitamos sobre o acolhimento e a hospitalidade, essenciais à nossa caminhada. Pois, ser peregrino, viandante, significa nem sempre saber quando se chega ou como se vai ser recebido. Significa sentir-se deslocado em terra estranha, sobretudo quando não se domina o idioma local. Como está escrito na célebre Carta a Diogneto, texto do século II: “Os cristãos habitam na própria pátria, mas como estrangeiros, participam de tudo como cidadãos, e tudo suportam como forasteiros, qualquer terra estrangeira é sua pátria e qualquer pátria é terra estrangeira”.

Na Sagrada Escritura, a Antiga Aliança prescreve a norma de receber bem os estrangeiros e peregrinos: “Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É repartir seu alimento com o esfaimado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante” (Is 58,6a.7). Porém, quando o próprio Messias veio a nascer, em Belém de Judá, ninguém o recebeu.

O profeta havia conclamado: “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça!” (Is 45,8). Mas esta palavra contrasta, fortemente, com o lamento do Evangelho: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).

São João refere-se ao povo escolhido, mas também a todos nós. Após tão longa espera, os homens negaram ao próprio Salvador até o mais corriqueiro acolhimento: não encontrou abrigo para nascer, foi rejeitado pelos que não compreenderam sua mensagem e acabou, praticamente, enxotado de certos lugares, como o território dos gerasenos (cf. Mc 5,1-20 e paralelos). Finalmente, foi pregado numa cruz para morrer como malfeitor...

Os nossos Apóstolos, grandes anunciadores da verdade de Jesus, seguiram o Mestre, sorvendo até à última gota do cálice - foram todos flagelados e trucidados. Jesus já os tinha advertido sobre a rejeição: “Se entrardes em alguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: ‘Até o pó que se nos apegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo’” (Lc 10,10-11).

Como deve ser a nossa acolhida para aqueles que necessitam dela? Hoje em dia, torna-se até complicado tratar deste assunto, porque a desconfiança se instalou em nossa sociedade, e parece que ninguém mais quer acolher ninguém. Mas, em condições normais de relacionamento, que jamais devemos descuidar, deve-se seguir certos critérios, para bem exercer a hospitalidade.

Em primeiro lugar, é preciso oferecer alojamento. Nossa casa também é a do hóspede, nossa mesa lhe está franqueada, assim como nossa convivência, porque ele é nosso irmão. Tudo isto deve ser sinal exterior da abertura do coração, capaz de acolher quem se encontra fragilizado, de preencher as expectativas de quem perdeu a confiança nas pessoas. Como seguidores de Cristo, devemos a todos esta oportunidade de sentir-se em casa.

 A caridade não conhece religião, não conhece crença. Recebamos a todos na caridade, que é maior do que qualquer lei, e demos daquilo que tivermos. Mesmo que não seja o melhor, sempre representará muito para o outro, na medida em que significar nossa autêntica partilha. Isto é hospitalidade. Jesus nos diz, ainda hoje: “O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Este é o critério pelo qual seremos julgados, no fim de nossa peregrinação terrestre.

Lázaro, Marta e Maria receberam Jesus e os Apóstolos. E com que carinho! Jesus gostava muito de ir àquela casa, onde vivenciou momentos de profunda amizade. Outra casa que Jesus visitou foi a de Zaqueu. Contrariando a mentalidade excludente do povo, Ele se aproximou daquele coletor de impostos, rico e corrupto, para levá-lo à conversão: “‘Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa’. Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente” (Lc 19,5-6). 

Lembremos, ainda, o caso do fariseu Simão, que convidou Jesus à sua casa com o intuito de pô-lo à prova. Para lá acorreu, também, uma mulher pecadora. Comparando as atitudes de ambos, Jesus nos deixa um perfeito ensinamento sobre a hospitalidade: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés” (Lc 7,44-46).

Na história do filho chamado pródigo, o Evangelho de São Lucas registra um dos mais belos exemplos de acolhimento. O pai recebe o filho de volta, sem recriminações, com a imensa alegria do amor gratuito que perdoa, incondicionalmente, quem está arrependido e quer mudar de vida (cf. Lc 15,11ss). Esta parábola serve de inspiração para o trabalho que se faz na recuperação de dependentes químicos. Aí sobressai a misericórdia de quem é hospitaleiro, porque tem um coração de pastor, capaz de buscar e amparar a ovelha desgarrada e infeliz.

Uma outra grande preocupação é acolher os que estão à procura de emprego. O desempregado se sente excluído, social e moralmente, atingido na sua dignidade de cidadão e de pessoa humana. Evidentemente, não se pode solucionar todos os casos. Mas aqui oriento, de público, que nenhuma de nossas Paróquias (e são quase 300), deixe de dar a devida atenção a esse grave problema. Qualquer obra que vise a proporcionar emprego, contribuindo para o bem comum, caso esteja isenta de métodos e finalidades reprováveis, deverá receber todo o nosso apoio.

O problema dos desabrigados é outra calamidade, sobretudo quando se trata de crianças, vivendo nas ruas de nossas cidades. Trata-se de situações extremamente complexas, inclusive porque a maioria delas tem famílias, das quais se afastaram. A solução não pode vir de uma única instância, mesmo que seja governamental. A Igreja mantém Pastorais de cunho assistencial e formativo, para atendimento suplementar a essas pessoas. Entretanto, a magnitude do problema exige cooperação entre os diversos setores da sociedade. A Igreja vem se empenhando, através da participação ativa em parcerias com o Governo, as Forças Armadas e a sociedade civil, a fim de desenvolver uma atuação pastoral eficaz.

 Precisamos ser Cireneus, para ajudar a carregar a cruz do nosso próximo. Precisamos ser Verônicas, para enxugar o rosto ensangüentado e cheio de lágrimas, dos sofredores que cruzam os nossos caminhos. Temos que oferecer abrigo a quem não tem, mesmo que seja no momento final, como fez José de Arimatéia a Jesus, oferecendo-lhe a própria sepultura.
 
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