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Autor Tópico: Comunicações Sociais  (Lida 730 vezes)
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« em: 30 de Maio de 2007, 18:36 »

A televisão e a educação das crianças

Escola e família podem aproveitar as potencialidades deste meio, sem delegar responsabilidades próprias


É actualmente indiscutível a importância que a televisão, assim como outros ecrãs, assume nas vidas das crianças, condicionando e marcando os seus quotidianos, as suas vivências e a forma como percepcionam, entendem e representam o mundo. Mais discutível é, no entanto, a forma como os mais novos se apropriam daquilo que vêem e retiram do ecrã, como usam essa informação e como os conteúdos mediáticos influenciam os seus modos de ser, de estar e de pensar, as suas atitudes e comportamentos. Uma coisa parece certa: a televisão tem influência na vida das crianças e a sua positividade ou negatividade tem de ser avaliada tomando em consideração um conjunto de factores, como sejam, as condições de recepção, a idade, o sexo, o desenvolvimento sócio-cognitivo, o nível sócio-cultural das famílias, etc.

Desde muito pequenas, as crianças evocam as suas experiências como telespectadoras e recorrem a conhecimentos e informações em boa parte atribuíveis à televisão. Quando as ruas e as avenidas em que vivemos são, muitas vezes, espaços inabitáveis e perigosos para as crianças; quando elas têm de ficar em casa a tomar conta e a cuidar dos irmãos mais novos, a realizar tarefas domésticas ou, simplesmente, à espera que os pais regressem do trabalho; quando as comunidades locais não oferecem espaços e tempo de lazer, a televisão é, para muitas, uma ponte de comunicação com o mundo ao qual acedem através do pequeno ecrã. Muitos quotidianos infantis são habitados pela exclusividade do pequeno ecrã, embora, muitas vezes, esta situação resulte de vazios sociais em termos de oferta de actividades e da privação de oportunidades.

Ora, será a pensar em todas as crianças, mas em particular nas que estão privadas, por vários motivos, de acesso a actividades lúdicas e culturais e que têm apenas a televisão como horizonte, que é importante existir, por parte dos programadores, uma preocupação grande em oferecer a esta audiência especial uma programação de qualidade, diversificada em termos de conteúdos, formatos e géneros. Uma programação que aposte em programas que façam a mediação do mundo, que apresentem e expliquem diferentes realidades e que permitam a aprendizagem e o divertimento.

É claro que esta tarefa de mediação cabe também à família, às instituições educativas e à própria igreja. Compete a estas instituições mediar o mundo às crianças, o que elas experienciam directa e presencialmente e aquele que lhes chega mediatizado.

Julgo que é através deste processo de mediação que podemos tirar melhor partido da televisão para a educação e aprendizagem das crianças, para o desenvolvimento de valores positivos que orientem o crescimento saudável das crianças, como sejam, a atenção e o respeito pelo outro e pelo mundo, a valorização de si próprio, a consideração da diferença, a tolerância, a promoção de uma cultura da paz, entre outros.

Se a criança não for entregue ao televisor, como muitas vezes acontece, se os pais não delegarem na televisão, e em outros media, o papel de educação dos seus filhos, se houver uma efectiva preocupação por acompanhar, conhecer e explicar os conteúdos televisivos e de regular o que se vê, quando e quanto, de (re)agir face à falta de qualidade de muitas programações e de muitos programas, será possível ajudar as crianças a construírem uma relação mais criteriosa com o(s) ecrã(s).

Parece-me que não há lugar, hoje, para uma visão apocalíptica que culpa a televisão de todos os males, nem para uma atitude idealizadora que os aceita sem os questionar. Nem a indiferença e a incompreensão, nem a veneração total. O importante é ajudar as crianças a desenvolverem atitudes críticas, ensinar-lhes a questionar o que vêem e ouvem para que aprendam a serem selectivas nas suas práticas televisivas. O importante é dar-lhes oportunidades para partilharem os seus pontos de vista, para os confrontarem com os dos outros, para partilharem sentimentos e ideias, para comunicarem uma experiência que as gratifica emocional, social e afectiva-mente, e para esclarecerem dúvidas que o seu conhecimento ainda não permita compreender. Por último, o importante é estar consciente que (felizmente) é principalmente à família e à escola a quem a educação das crianças compete e que a televisão pode ser usada por ambas nessa importante tarefa. O que não retira à TV o papel que exerce nessa educação nem exclui a necessidade e a importância de programas educativos dirigidos especificamente ao público infantil.

Sara Pereira, Universidade do Minho
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« Responder #1 em: 30 de Maio de 2007, 18:41 »

Oferta mediática deve respeitar os mais novos

Mensagem do Papa para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais condena promoção da violência


 Bento XVI manifesta a sua preocupação com o aumento de programas e produtos infantis que promovem a violência e comportamentos anti-sociais junto dos mais novos. Na sua mensagem para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa pediu que os Media sejam capazes de respeitar "padrões éticos" e ajudem na educação das crianças.

"Qualquer tendência a realizar programas e produtos - inclusive desenhos animados e videojogos - que, em nome do entretenimento, exaltam a violência e apresentam comportamentos anti-sociais ou a banalização da sexualidade humana constitui uma perversão, e é ainda mais repugnante quando tais programas são destinados às crianças e aos adolescentes", refere o documento.

O Papa deixa mesmo uma pergunta: "como é que se poderia explicar este "entretenimento" aos numerosos jovens inocentes que, efectivamente, são vítimas da violência, da exploração e do abuso?".

A Mensagem admite que as pessoas que trabalham neste campo enfrentam pressões psicológicas e dilemas éticos e "por vezes vêem a concorrência comercial impelir os comunicadores para níveis mais baixos".

Neste sentido, Bento XVI apela aos Media a assumirem um compromisso "na formação efectiva e nos padrões éticos", atitude que considera uma urgência, sentida "não só pelos pais e professores, mas também por todos aqueles que têm um sentido de responsabilidade cívica".

"A aspiração sincera dos pais e professores de educar as crianças pelos caminhos da beleza, da verdade e da bondade somente pode ser sustentada pela indústria dos meios de comunicação social, na medida em que ela promover a dignidade humana fundamental, o valor genuíno do matrimónio e da vida familiar, e as conquistas e as finalidades positivas da humanidade", assinala a Mensagem.

Bento XVI sublinha que muitos têm a impressão que a influência formativa dos meios de comunicação social "concorre com a da escola, da Igreja e talvez mesmo do lar". Por isso, defende que "formar-se no uso apropriado dos meios de comunicação social é essencial para o desenvolvimento cultural, moral e espiritual das crianças".

"Educar as crianças a serem judiciosas no uso dos mass media é uma responsabilidade que cabe aos pais, à Igreja e à escola". O papel dos pais é de importância primordial: "Eles têm o direito e o dever de assegurar o uso prudente dos meios de comunicação social".

Como exemplos positivos, o Papa elenca os "clássicos infantis da literatura, das belas-artes e da música edificante". "Enquanto a literatura popular terá sempre o seu espaço na cultura, a tentação do sensacionalismo não deveria ser passivamente aceite nos lugares de ensino", alerta.

Em conclusão, Bento XVI assume que "a própria Igreja, à luz da mensagem de salvação que lhe foi confiada, é também uma mestra de humanidade e valoriza a oportunidade de oferecer assistência aos pais, aos educadores, aos comunicadores e aos jovens".

O Dia Mundial das Comunicações Sociais foi a única celebração mundial decidida pelo Concílio Vaticano II, sendo celebrada na maioria dos países no Domingo que antecede a Solenidade de Pentecostes (20 de Maio de 2007). A mensagem para este dia é publicada no dia 24 de Janeiro por se celebrar a memória litúrgica de São Francisco de Sales, padroeiro das comunicações sociais.
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« Responder #2 em: 30 de Maio de 2007, 18:46 »

Igreja e Media: relações entre o sagrado e o profano?

Pontes de diálogo devem ajudar a superar pontos de conflito mútuo entre o discurso religioso e a agenda jornalística


A Igreja católica é um dos temas de eleição para os media. Mas o contrário não sucede. E isso pode tornar-se complicado na gestão de uma relação diária que algumas vezes parece mais um conflito. O desconhecimento mútuo que ainda existe, apesar do meritório trabalho da Agência Ecclesia, tem dificultado o diálogo e as parcerias.

A superficialidade e a rapidez dos media não se compadece com a complexidade do discurso religioso. E a solução não pode ser a adaptação dos media àquilo que a Igreja considera ser importante. Porque os media são aquilo que o público quer - essa massa enorme de gente que também inclui muitos católicos.

Aqui está, na minha opinião, um dos principais pontos de conflito. A dinâmica dos dois discursos não se conjuga. Na dúvida, os jornalistas tendem a desvalorizar o discurso religioso (porque não o percebem ou ele não é claro o suficiente) e a hierarquia tende a olhar para os media como predadores sedentos de sangue. Isso só sucede por falta de comunicação entre os dois lados da barricada.

Aos media faltam especialistas e jornalistas conhecedores de religião como sucede noutras áreas editoriais como a política, a defesa ou a justiça. À Igreja faltam pontes de diálogo. E as suas escolhas de protagonistas não se coadunam com uma estratégia de comunicação com a opinião pública. Em regra, maus comunicadores não podem ser bons dirigentes. E isso também é verdade na Igreja.

A falta de contactos directos e rápidos dos media com os responsáveis religiosos de pelouros essenciais na relação com a sociedade. A ausência de uma estratégia de comunicação articulada por parte da hierarquia junto da opinião pública. A incom-preensão em relação às consequências das frases ditas. A lentidão na resposta em matérias urgentes e actuais. Tudo isto são grãos de areia que emperram as relações da Igreja com os media.

Mas para tudo há solução.

A Igreja tem de se assumir como corpo organizado e actuante nos media. Os jornalistas e as suas instituições são uma mole errática sem uma estratégia definida sobre quase tudo. E isso pode ser aproveitado pela Igreja para fazer o seu caminho pastoral, utilizando os media como aliados e não como adversários. Mas para isso é necessário atacar a raiz em vez de podar apenas as folhas.

A formação eclesiástica deve incluir disciplinas ligadas à comunicação junto dos crentes e dos media. Qualquer pároco é um líder de opinião que deve utilizar os media, laicos ou não, como instrumentos de divulgação da mensagem. Mas para isso, tem de se adaptar, no discurso, aos novos tempos. Porque os tempos também são novos para os crentes. E um padre que não saiba falar para os jornais também não sabe falar para os jovens de hoje.

O número de jornais de inspiração católica deve ser reduzido com uma aposta mais séria na profissionalização. Uma folha de paróquia vale menos do que uma página regular num semanário concelhio ou diocesano. E é nisso que a Igreja deve investir em vez da profusão incoerente de títulos que perde eficácia.

O discurso deve ser menos hermético e mais concreto. Em muitos casos, a descodificação do texto religioso colide com as intenções de quem o proferiu por isso mesmo. A opinião pública, bem como os crentes, não é composta por teólogos. E o erro em comunicação é sempre do emissor e nunca do receptor. Se existe alguma anomalia é porque quem fala não se fez compreender. E isso, lamentavelmente, é frequente no discurso religioso.

Nos jornais e na televisão, os elementos da hierarquia que mais aparecem são sempre os mesmos. No caso dos bispos, a lista reduz-se quase toda a D. Carlos Azevedo e D. Januário Torgal Ferreira. Não porque eles queiram um palanque ou tenham o objectivo pessoal de auto-promoção. Mas porque são os únicos que estão sempre acessíveis e disponíveis para comentar a realidade quotidiana. E não são eles que ditam as perguntas. Somente têm a capacidade de controlar as respostas que dão.

Isso leva-me a outro problema recorrente. Muitas vezes, os elementos da hierarquia não percebem a dinâmica noticiosa. E não têm em conta o peso de algumas frases que proferem, ficando depois desiludidos ou desapontados com o tratamento dos media. Por isso, julgo que deveriam existir acções de formação sobre comunicação para aqueles que são os porta-vozes, aos mais variados níveis, da Igreja.

Para os jornalistas, falta também formação sobre religião. A experiência positiva de formação do Patriarcado a alguns jornalistas de Lisboa deveria ser replicada noutras dioceses. Em cada uma delas, o bispo diocesano ou um seu representante deveria estar acessível para os jornalistas, nomeadamente os de órgãos regionais.

A transmissão da mensagem cristã não se resume aos púlpitos das igrejas. Os media são um novo altar de divulgação em que a Igreja parece querer ter um papel subalterno em vez de ocupar o lugar a que tem direito.

Mas para isso só com estratégia, eficácia e humildade. Porque no campeonato diário da informação não há vitórias em todas as jornadas. E a Igreja tem de estar preparada para alguns jogos difíceis em que até os árbitros podem ser desfavoráveis.

Paulo Agostinho, Jornalista
Registado

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