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Autor Tópico: A Quaresma - Preparação para a Páscoa  (Lida 1063 vezes)
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« em: 20 de Fevereiro de 2007, 21:58 »

A Quaresma - Preparação para a Páscoa


Sentido, génese e evolução histórica

A vinte anos da promulgação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II, depois de nos anos anteriores termos abordado a celebração do mistério pascal, primeiro no Tríduo sagrado e depois no Tempo pascal, vamos este ano debruçar-nos sobre a sua preparação no tempo designado pelo nome de Quaresma.

Foi a preocupação por uma participação, cada vez mais consciente e profunda, dos cristãos no mistério pascal de Jesus Cristo que levou o Concílio a propor a renovação de toda a liturgia da Igreja e concretamente do ano litúrgico:

«Reveja-se o ano litúrgico de tal modo que, conservando-se ou reintegrando-se os costumes tradicionais dos tempos litúrgicos, se mantenha o seu carácter original para alimentar devidamente a piedade dos fiéis com a celebração dos mistérios da Redenção Cristã, sobretudo do mistério pascal» (SC 107).

Em relação à Quaresma a mesma Constituição apresenta-a conta o tempo de preparação para a Páscoa e estabelece que se ponham mais em realce os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, ou seja, a sua índole baptismal e penitencial (cf n. 109-110).

Todos sabemos que a Páscoa é a grande festa dos cristãos. Ela é mesmo a festa, a única festa presente em todas as festas Cristãs. Celebramos esta festa da Páscoa de modo especial no Dia do Senhor, ou Domingo, e celebramo-la também, de uma forma ainda mais solene e prolongada, uma vez por ano, no Tríduo Pascal. E assim como existe um período de prolongamento desta festa anual pelo espaço de cinquenta dias, o tempo pascal, existe também um tempo de preparação. Mas enquanto o tempo pascal se estendeu, logo desde o princípio, por um período de cinquenta dias, o Pentecostes, o tempo de preparação foi-se constituindo progressivamente.

São estas etapas progressivas que vamos procurar descobrir agora, dando o início a estes dias de reflexão e estudo em ordem a uma melhor preparação e vivência do mistério pascal.


I - ORIGEM E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA QUARESMA

1. O sentido da Quaresma

A Páscoa, que teve desde o princípio uma irradiação tão luminosa para diante fazendo dos cinquenta dias de Pentecostes uma única festa pascal, fez sentir também o seu influxo sobre o tempo que a precede.

Já no século II os cristãos se preparavam para a festa da Páscoa com um jejum de dois dias, a sexta e o sábado que precedem a Vigília. Mas em breve se veio a estabelecer um tempo de preparação antes do Tríduo, cuja duração variou conforme as épocas e as Igrejas. Disto nos ocuparemos mais adiante.

A natureza deste tempo é comandada pelo seu termo: a Páscoa, a celebração da Paixão e ressurreição do Senhor. A Quaresma, se tem um sentido, e precisamente o de preparar-nos para uma inteligência da Páscoa integral a fim de nos dispôr também a revivê-la integralmente. Como descobrir este sentido da Quaresma?

Em primeiro lugar, vivendo com verdade as propostas que a Igreja nos faz ao longo deste tempo. É preciso notar que o que deu à Páscoa a sua plena significação foi a verdade restituída aos ritos e às orações da Vigília pascal. Que poderiam significar textos e cerimónias que supunham e recordavam uma Vigília nocturna, quando eram reproduzidos numa missa matinal ordinária? Esta reforma tão simples mas tão fundamental é evidentemente a primeira que se impõe para que a Quaresma seja verdadeiramente a preparação eficaz para a Páscoa, segundo os princípios da renovação conciliar.

Já no plano histórico e litúrgico se experimentou precisamente a necessidade de uma caminhada, de uma ascensão preparatória que permita acercar-se de Jerusalém. De facto, não é possível abordar sem preparação o Tríduo pascal e os mistérios que ele propõe.

A instituição da Quaresma está concebida como uma marcha para esse mistério de libertação e de renovação. É um tempo para nos desligarmos do homem velho, um tempo de renovação sobretudo mediante aos sacramentos. Por isso, as características particulares deste tempo litúrgico, para além das assembleias eucarísticas, relacionam-se principalmente com dois elementos: a preparação dos catecúmenos para o baptismo e a preparação dos penitentes para a reconciliação. Aos catecúmenos a Igreja propõe-lhes a entrada, mediante o baptismo, numa criação nova; aos já baptizados, uma revisão de vida, um passo em frente na divinização que lhes foi outorgada em princípio mas que deverá ser restaurada e actuada de uma forma sempre mais consciente e profunda.

Período de esforço ascético para seguir a Cristo na sua morte ao pecado, tempo apto para escutar a palavra de Deus recebida na Liturgia, para reunir o povo a fim de o dispôr e conduzir às celebrações pascais, tudo isto é a Quaresma, tudo isto é a preparação da Páscoa.


2. A duração da Quaresma: do jejum pascal aos 40 dias

O jejum preparatório para a Páscoa não foi, na sua origem, de mais de um ou dois dias, limitado à sexta e ao sábado antes da Vigília. Este jejum rigoroso e absoluto, ainda que paradoxalmente festivo, terminava com a Eucaristia da noite pascal, passando-se assim da tristeza à alegria, do jejum à festa.

Porém, desde muito cedo, este jejum pascal na expectativa da Ressurreição, foi precedido de um jejum um poupo menos rigoroso dos primeiros dias da semana, como testemunha a Didascalia dos Apóstolos, no século III:

Desde a segunda-feira, durante os dias da Páscoa, vós jejuareis e não comereis senão pão, sal e água, à hora nona, até à quinta-feira (1).

No princípio do século IV, no Oriente, aparecem os primeiros acenos de um período pré-pascal, destinado a uma preparação espiritual para o grande mistério. S. Atanásio entre 330 e 347), nas suas Cartas Pascais, e S. Cirilo de Jerusalém, na Procatequese e nas Catequeses Mistagógicas, falam deste tempo como de coisa conhecida. O mesmo se diga de Eusébio no seu De solemnitate paschali (4, 5). Mas já antes, o 1.° Concílio de Niceia fala da «quadragésima paschae» como se fosse uma coisa natural e conhecida de todos, ou seja, como um período de preparação de quarenta dias.

Para o Ocidente, os testemunhos directos são só do fim do século IV. Entre eles está o de Etéria, para a Espanha e a Gália Meridional, o de S. Ambrósio para Milão e o de S. Agostinho para a Africa Setentrional.

Parece que em Roma a evolução tenha sido mais lenta. Até ao princípio do século IV, o tempo de preparação para a Páscoa consistiria na observação do jejum de toda a semana que precede a noite santa. Par meados do século IV – talvez sob o influxo de S. Atanásio de Alexandria, exilado e residente algum tempo em Roma, – aparece um jejum de três semanas, acrescentado ao da semana santa.

O jejum para a Páscoa começava, portanto, com a actual terceira semana da Quaresma e compreendia ao todo quatro semanas. O primeiro destes domingos chamava-se «in trigesima» (a trinta dias da Páscoa); o terceiro chamava-se «in mediana» (a meio) pois faltavam quinze dias para a Páscoa.

Mas o desequilíbrio entre o prolongamento das solenidades pascais e a sua preparação era ainda notório. Além disso, esta preparação Pascal não podia apelar, como a oriental, para os exemplos de Moisés, de Elias e, sobretudo, de Cristo, isto é, aos quarenta dias do deserto.

Independentemente do jejum Pascal, um jejum de quarenta dias apareceu no Egipto desde o fim do século III ou princípio do século IV. Segundo parece, não tinha tanto em vista preparar a Páscoa como celebrar o jejum do Senhor no deserto, nas semanas que seguíram ao seu baptismo. Mas bem cedo terá tomado a forma de uma preparação penitencial para a celebração da morte e da ressurreição do Senhor.

O desenvolvimento penitencial tinha introduzido o costume de inscrever os pecadores na penitência pública num período fixo do ano litúrgico, quarenta dias antes da Páscoa. Pedro de Alexandria (c. 306) relaciona já os quarenta dias de jejum de Cristo no deserto com outros tantos dias de penitência a fazer pelos pecadores.

Assim se chega à instituição da «quadragesima» que vem a cair no 6.° domingo antes da Páscoa, o domingo «in quadragesima». Assim se explica também que os penitentes, admitidos à penitência no princípio da Quaresma, sejam reconciliados em quinta-feira santa, precisamente no quadragésimo dia depois da entrada em penitência.

A instituição da Quaresma, assim compreendida, existe com certeza em Roma em 384. Deve ser mesmo anterior de alguns anos. Ao tempo dos Padres da Igreja, os quarenta dias da Quaresma eram contados desde o primeiro domingo da Quaresma até à quinta-feira «da ceia do Senhor», como se lê nos sermões de S. Leão Magno. O jejum quaresmal distinguia-se assim nitidamente do jejum pascal. Mas, se o jejum era observado cada dia, desde segunda a sábado (aos domingos é proibido jejuar), as assembleias oficiais não se reuniam ainda, no tempo de S. Leão Magno, senão às segundas, quartas e sextas, e não se celebrava nelas a eucaristia. Só no princípio do século VI, as segundas, terças e sábados se tornaram dias de assembleia comportando a eucaristia. Nesta época, o jejum de quarta e sexta-feira antes do primeiro domingo da Quaresma foi ligado ao restante tempo da quaresma para assegurar quarenta dias de jejum efectivo, integrando-lhe o jejum pascal.

Como não se jejuava aos domingos e consequentemente não se podia celebrar um rito penitencial, como era a inscrição dos pecadores na penitência, em dia de domingo, aquele veio a fixar-se na quarta-feira precedente que já era o dia de jejum, como todas as quartas-feiras do ano. E assim, com a inclusão dos quatro dias feriais anteriores ao primeiro domingo da Quaresma, chegou-se à actual quarta-feira de Cinzas como início da Quaresma.
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« Responder #1 em: 20 de Fevereiro de 2007, 21:59 »

II - O SIMBOLISMO DOS QUARENTA DIAS

1. Quaresma e tipologia bíblica

O carácter originário da Quaresma, segundo a força expressiva da própria palavra, é a penitência de toda a comunidade e de cada um ao longo de quarenta dias.

Esta penitência, expressa principalmente na prática do jejum, devia preparar os fiéis para a celebração do mistério redentor, os cetecúmenos para o baptismo, e os penitentes para a reconciliação. Estes elementos, porém, apareceram independentemente no cristianismo antigo e a sua duração, como vimos, foi variável. O jejum preparatório para a Páscoa não foi na sua origem mais do que dois dias. Em tempos do historiador grego, Sócrates, era, em Roma, de três semanas. Noutras partes, o tempo de preparação para o baptismo compreendia um número variável de semanas e sem qualquer referência ao número de quarenta dias. Este tempo, pelo contrário, aparece liturgicamente na Igreja copta como uma comemoração do jejum de Cristo no deserto, em continuação da festa do baptismo do Senhor.

A quaresma deve ter nascido, portanto, da fusão do jejum preparatório para a Páscoa, da preparação dos catecúmenos para o baptismo e do jejum comemorativo da tentação de Cristo.

A preparação para a Páscoa é assim colocada sob o signo de Cristo, que é a sua fonte e modelo. Com Cristo, que jejua no deserto e avança para a Paixão, todos, catecúmenos e baptizados, são convidados a progredir para o mistério da Páscoa.

Isto coloca-nos frente ao facto essencial da presente reflexão: o simbolismo do número de quarenta dias, que é o da nossa Quaresma e que lhe deu o seu nome, há que buscá-lo numa referência precisa a acontecimentos bíblicos e não a qualquer significação simbólica dos números. Para saber qual é, pois, o conteúdo religioso da Quaresma, devemos referir-nos ao conteúdo dos dados bíblicos a que ela faz alusão.

Segundo a lei ordinária da tipologia bíblica, as realidades do Antigo Testamento são, em primeiro lugar, sombra e figura do mistério de Cristo e encontram nele o seu pleno cumprimento. No caso que nos ocupa, os quarenta dias de Cristo no deserto, que são um tempo de jejum e de tentação, encontram-se pois no coração da nossa reflexão. Segundo os próprios evangelhos, a relação do jejum e da tentação de Jesus com os quarenta anos passados por Israel no deserto, para aí ser tentado, e com os quarenta dias de jejum de Moisés e de Elias é certa. E certa é também a relação dos quarenta dias da Quaresma com esses acontecimentos. Encontramo-nos assim, uma vez mais, com as etapas sucessivas da história da salvação: o Antigo Testamento, Cristo e a Igreja. A sombra e figura dos acontecimentos do Antigo Testamento encontram a sua plena realização no mistério de Cristo que, por sua vez, se actualiza nos mistérios da Igreja.

Por outro lado, os sacramentos da Igreja são, por sua vez, figura das realidades escatológicas. Como veremos mais adiante, isto é verdade também a respeito da Quaresma, que é como que a expressão litúrgica e simbólica do carácter de preparação que tem o tempo presente em relação ao mundo futuro.

Na determinação do período de quarenta dias de preparação para a celebração das solenidades pascais é, pois, mais que certo que teve grande peso a tipologia bíblica dos quarenta dias.

Com esta prática os cristãos desejavam imitar Jesus que jejuou quarenta dias no deserto, depois do seu baptismo no Jordão (Mt 4, 2; Lc 4, 1s). Mas os Padres da Igreja viam neste acontecimento uma alusão aos quarenta dias que Moisés jejuou no Monte Sinai (Ex 34, 28) e o profeta Elias, fortalecido pelo pão e a água, caminhou em direcção ao monte de Deus, o Horeb (1 Re 19, Cool, e ainda aos quarenta anos de peregrinação de Israel através do deserto, além de outras alusões: os quarenta dias durante os quais Golias, o gigante filisteu, desafiou Israel, até que David avançou contra ele, o abateu e matou; e os quarenta dias em que Jonas pregou a penitência aos habitantes de Ninive que se cobriram de saco e de cinza.

É em função desta tipologia bíblica que os textos litúrgicos foram escolhidos ou compostos. Eles desenvolvem a ideia dos quarenta dias, consagrados pelo próprio Cristo, Moisés e Elias, assim como pelo povo de Israel caminhando no deserto rumo à terra prometida. Eles insistem no jejum, não no sentido de recomendarem a sua prática: supunha-se como óbvia. Mas procuram orientar o espírito a esse respeito : afastar-se do pecado, amar a Deus e ao próximo, alimentar-se abundantemente da palavra de Deus e da Eucaristia e levar uma vida de oração mais intensa, fazer com que os pobres sejam beneficiados com o que se economiza jejuando.

Esta relação tipológica, expressa na Bíblia e na Liturgia, bem como o sentido do jejum quaresmal vêm igualmente testemunhados nos Padres da Igreja.

Para além dos simbolismos muito discutíveis tomados da doutrina pitagórica dos números, S. Agostinho aparece como testemunha desta doutrina comum. Poderiam citar-se, neste sentido, numerosas passagens dos seus sermões quaresmais. Vejamos simplesmente alguns exemplos:

Moisés, Elias e o próprio Senhor jejuaram quarenta dias, para nos ensinar, mediante o exemplo de Moisés, de Elias e de Jesus Cristo, isto é, mediante a lei, a profecia e o evangelho, que não podemos conformar-nos com o mundo nem apegar-nos a ele, mas crucificar em nós o homem velho. Ora se tal é o nosso dever todos os dias da nossa vida, quanto mais o será durante o tempo da Quaresma, que não e só uma parte da vida mas representa a vida inteira?

A significação da Quaresma encontra-se aqui admiravelmente exposta. É o cumprimento dos quarenta dias de jejum de Moisés, de Elias e de Jesus e, ao mesmo tempo, o símbolo da inteira vida humana, como tempo de penitência.


2. Quaresma e Pentecostes

Este último aspecto é o que vamos considerar agora. Como todos os elementos da liturgia, a Quaresma é, ao mesmo tempo, memorial e profecia. Considerámo-la sob o primeiro aspecto, com os diversos componentes que se nos apresentaram. Devemos considerá-la agora como profecia.

A Quaresma, com efeito, não tem o seu fim em si mesma: ordena-se a outra coisa. Através do sinal litúrgico, designa uma realidade escatológica. Neste sentido, a Quaresma vai ligada à ideia de preparação. A permanência do povo no deserto prepara a entrada na terra prometida.

Mediante os acontecimentos bíblicos, com que estão associados, os quarenta dias prestam-se a designar o tempo da vida humana como preparação para o mundo futuro. Os Padres – e sobretudo S. Agostinho – não se cansam em mostrar que esta significação estava de acordo com a própria significação do número quarenta, como símbolo da totalidade do tempo. Mas uma outra razão interveio para dar aos quarenta dias esta significação. É a de que constituem a preparação para os cinquenta dias do Pentecostes, símbolo e como que anticipação desse mundo futuro.

Numa Carta a Genaro sobre a celebração da Páscoa, S. Agostinho, depois de fazer as habituais considerações sobre a origem do jejum da quaresma, diz o seguinte:

Em que parte do ano se poderia estabelecer mais convenientemente a prática da quaresma senão junto à Paixão? Pois que ela é figura desta vida penosa, e necessária a continência para se manter longe das tentações do mundo. A presente vida é pois simbolizada – segundo penso – pelo número quarenta. Se, depois, ao número quarenta se junta o número dez, tem-se o número cinquenta como recompensa da fadiga e da continência: o tempo pascal.

No Sermão 210, S. Agostinho explica como, frente aos quarenta dias da quaresma, a cinquentena pascal e imagem do mundo futuro:

O número cinquenta é o emblema desse tempo de felicidade que ninguém poderá arrebatar-nos. Durante esta vida, não estamos na posse dessa felicidade, mas, depois dos dias consagrados a Paixão do Senhor, nos cinquenta dias que se seguem à sua ressurreição, e em que cessamos de jejuar, celebramos por anticipação esse tempo de gozo, cantando o Aleluia, juntamente com os divinos louvores.

S. Agostinho não se cansa de pôr em relevo o contraste entre estes dois tempos litúrgicos:

Assim como o tempo da quaresma, que precede a festa da Páscoa, é o emblema dos trabalhos e dos sofrimentos desta vida mortal, do mesmo modo os dias de gozo que se seguem são o símbolo da vida futura, em que reinaremos com o Senhor (Sermão 243, Cool. Sabeis que o nosso dever é fazer o bem durante a quaresma, se queremos louvar a Deus durante a cinquentena. Passemos estes quarenta dias, que precedem a Vigília sagrada, no trabalho, no jejum, na abstinência, pois são o emblema da vida presente; pois os dias que se seguem à, ressurreição do Senhor são a figura dos gozos eternos (Sermão 253, 12).
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« Responder #2 em: 20 de Fevereiro de 2007, 22:00 »

III - A ORGANIZAÇÂO DA QUARESMA EM ROMA

No princípio, as celebrações não se faziam senão aos domingos, quartas e sextas-feiras. Estas não tinham, ao princípio, senão uma liturgia da Palavra sem Eucaristia. Progressivamente, a partir do século V, as segundas, terças e sábados começaram a ter também formulários para a celebração que, desde o século VI, inclui a liturgia eucarística. Restavam as quintas-feiras da Quaresma que só começaram a ter formulários no século VIII.

Desta forma, a Quaresma adquiriu uma configuração cada vez mais rica. As suas diversas celebrações, presididas em Roma pelo Papa nas diferentes basílicas em que se reuniam o clero e os fiéis, receberam o nome de «estações». O termo designava, no século II, o jejum das quartas e sextas-feiras ao longo do ano. Mas em breve veio a qualificar as assembleias de oração comunitária. Cada celebração de Quaresma adquiria, assim um carácter bem definido: os formulários e as escolha das leituras eram muitas vezes inspirados pelas particularidades locais da reunião, tendo em conta a dimensão penitencial da vida Cristã e as exigências da catequese baptismal.


1. A semana da Paixão ou Semana Santa

Não se pode dizer ao certo se a Igreja de Roma observou primitivamente uma única semana de jejum antes da Páscoa, como o fazia, no século III, a Igreja de Alexandria. Em todo o caso, a Semana Santa foi antigamente a verdadeira semana da Paixão. No século V já se lê a narração da Paixão no domingo, quarta e sexta feira. A terça-feira, fez-se a partir do século VIII. Mas ao princípio as assembleias de quarta e sexta-feira santa não comportavam a celebração eucarística.

a) O domingo da Paixão e dos Ramos

No domingo em que se entra na semana pascal, chamada a grande semana ou semana maior, celebrava-se em Jerusalém, no fim do século IV, a entrada triunfal de Jesus na Cidade santa, refazendo o percurso seguído pelo Senhor e os seus discípulos. Todo o povo se reunia a meio da tarde à volta do bispo no Monte das Oliveiras na basílica da Eleona, depois subia-se ao Imbomon. Pelas cinco horas da tarde, lia-se o relato evangélico e descia-se da colina para entrar na Cidade. A procissão dirigia-se a Anástasis, onde tinha lugar o lucernário. De Jerusalém a procissão espalhou-se a todo o Oriente, em que o domingo de abertura da grande semana se torna o domingo dos Ramos.

Em Roma, ao contrário, no tempo de S. Leão o Magno, o VI domingo da Quaresma era o domingo da Paixão. Aí se lia a Paixão segundo S. Mateus. O papa comentava a primeira parte do relato, deixando para a quarta-feira seguinte a explicação da segunda parte.

Este mesmo domingo era em Espanha e na Gália o domingo da entrega do símbolo aos futuros baptizados, a «Traditio symboli», que era acompanhada da unção dos ouvidos, o «effeta» . Nesta celebração lia-se como evangelho Jo 12, 1-25, que refere a unção de Betânia e a entrada de Jesus em Jerusalém. Nos séculos VII - VIII, constata-se, que a piedade popular se liga mais a segunda parte do relato do que a primeira. Vem-se à Igreja com palmas e ramos, que se agitam clamando Hossana. Roma faz um eco discreto a esta aclamação, intitulando este dia: Dominica in palmas de passione Domini (Ge V, n. 329).

b) A reconciliação dos penitentes em quinta-feira santa

A reconciliação dos penitentes, que já tinha lugar em Roma na quinta-feira santa no fim do século IV, é longamente descrita no Sacramentário gelasiano do século VII. Este contém dois rituais sucessivos para a reconciliação dos penitentes. No primeiro, que pertence à liturgia papal, um diácono dirige ao bispo uma longa súplica em que pede com insistência que admita os pecadores penitentes à reconciliação, nestes dias em que a Igreja vai gerar novos filhos pelo baptismo. Não é a reconciliação um novo baptismo? «Lavam as Águas e lavam as lágrimas» . O bispo diz a seguir uma oração em que pede a Deus que restabeleça o penitente na comunhão da Igreja.

O rito da reconciliação dos penitentes na quinta-feira santa perpetuou-se muito para além do desaparecimento da penitência antiga e deixou traços em certas regiões até meados do século XIX sob a forma de «absolvição» dada em quinta-feira santa depois da recitação dos salmos penitenciais. Mas avisavam-se os fiéis de que não deviam entender esta absolvição como sacramental, mas únicamente como «uma oração e uma bênção muito salutar que o pastor faz sobre o povo».

c) A confecção do santo crisma e a bênção dos óleos

Segundo o primeiro Concílio de Toledo (400), o bispo podia confeccionar o crisma em qualquer tempo. Mas estabeleceu-se o uso de o fazer em quinta-feira santa, no decurso da última missa celebrada antes da Noite santa, em que ele devia ser utilizado na unção pos-baptismal e na confirmação. Numa homilia de S. Eloi, bispo de Noyon (+ 660), 1ê-se que «neste dia (quinta-feira santa) no mundo inteiro se consagra o crisma». Em Roma, o papa fazia-o na única missa celebrada em Latrão em memória da Ceia. Na manhã os presbíteros ligados às igrejas titulares celebravam uma missa particular para benzer o óleo dos catecúmenos e o dos doentes. Quando o Sacramentário gelasiano chegou aos países francos (século VIII), um compilador introduziu no texto da missa presbiteral o da confecção do crisma. Originou-se assim uma missa crismal, que Roma só veio a adoptar em 1955.


2. As três semanas antes da Páscoa

No decurso do século IV, aparece um período de três semanas de preparação para a Páscoa. Estas três semanas foram contadas a partir da Ressurreição ate ao domingo Laetare.

A liturgia romana das três semanas antes da Páscoa singularizava-se pelo facto de se lerem exclusivamente passagens do evangelho de S. João, reservando mesmo a leitura deste evangelho para este período da Quaresma. Alguns exegetas consideram mesmo que este evangelho foi escrito com vista a uma catequese baptismal. Utiliza-se amplamente durante a Quaresma, sobretudo a partir do terceiro domingo. A tradição romana nunca perdeu este uso e a actual reforma conservou-o ciosamente.

Neste período da Quaresma realizavam-se também os três escrutínios baptismais. Cinquenta anos depois de S. Leão Magno, o diácono romano João expõe longamente os ritos do catecumenado em resposta a uma carta que lhe tinha dirigido um alto funcionário da corte de Ravena para lhe perguntar, entre outras coisas, porque havia em Roma três escrutínios. Estes escrutínios eram celebrados no III, IV e V domingos da Quaresma, coma testemunha ainda o Sacramentário gelasiano. Aí se liam os três evangelhos da Samaritana, do Cego de nascença e de Lázaro, segundo o uso das outras Igrejas do Ocidente.


3. As primeiras três semanas da Quaresma

O primeiro domingo da Quaresma abre, no tempo de S. Leão, a preparação para a celebração do paschale sacramentum. Lê-se nesse dia o apelo de S. Paulo: «Eis agora o tempo favorável» e o relato evangélico do jejum e da tentação de Jesus no deserto. O pastor convida os fiéis para um serviço mais diligente do Senhor. Lembra que «sobre toda a face da terra milhares e milhares de homens se preparam para a sua regeneração em Cristo». Ao mesmo tempo, o demónio vê aqueles que tinham caído lavarem-se nas lágrimas da penitência e serem admitidos ao remédio da reconciliação.

No segundo domingo da Quaresma, S. Leão comenta a transfiguração de Jesus, que põe em cena os três protagonistas do jejum de quarenta dias, Cristo, Moisés e Elias.

Antes do fim do século V, a quarta e a sexta-feira que precedem o primeiro domingo da Quaresma, eram consideradas como uma espécie de embolismo da Quaresma. Quando, nessa quarta-feira, os penitentes começaram a ser admitidos a penitência, fazia-se-lhes a imposição das cinzas e do cilício. Após o desaparecimento da penitência pública, esta cerimónia subsistiu e todos os cristãos se sujeitavam a ela. O Ordo 22 do fim do século VIII faz a sua descrição. Todo o povo se reunia em Santa Anastásia, junto do Palatino. O papa abria a celebração, depois subia em procissão sobre o Aventino para a primeira missa quaresmal em Santa Sabina. No decurso da procissão cantava-se a antífona Immutemur habitu in cinere et cilicio. Na Renânia, no século X, quis-se dar uma expressão sensível ao texto litúrgico que, em Roma, era tomado no sentido espiritual, instituindo o rito da imposição das cinzas. No século XII o ritual renano passou para o Pontifical romano mas, nesta altura, o rito era ainda exterior à liturgia papal propriamente dita. Só no século XIII o papa se submeteu ele próprio a este rito penitencial.
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« Responder #3 em: 20 de Fevereiro de 2007, 22:01 »

VI - REORGANIZAÇÕES E ALTERA ÇÕES

Quando, progressivamente a preparação para o baptismo diminuiu em importância e se desligou da liturgia quaresmal, esta teve fatalmente de adoptar outro aspecto. De facto, a selecção de leituras e cânticos foi menos apropriada. A preocupação baptismal que tinha caracterizada a Quaresma não tinha mais razão de ser. O Sacramentário gelasiano, nas fórmulas das suas celebrações de escrutínios, deixa ver claramente que se trata já, a maior parte das vezes, de baptismo de crianças. Quando esta situação se generalizou, os três escrutínios dominicais transladaram-se para a semana e arrastaram consigo as respectivas orações e leituras. Os domingos, deixados assim vazios, receberam parcialmente as leituras evangélicas dos dias feriais ocupados agora pelos antigos escrutínios dominicais.

A Quaresma converteu-se, sobretudo, num tempo em que os cristãos já baptizados revêm a própria condição da sua existência na vida da Igreja. Fechou-se a perspectiva aberta sobre a penitência e o catecumenado, e a Quaresma adquiriu a fisionomia que conservou até à reforma do Vaticano II. A progressiva supressão dos ritos do catecumenado não a orientavam ja particularmente para uma teologia baptismal.

Mesmo assim, a Quaresma continuou sendo o tempo forte da vida da Igreja para as comunidades cristãs: o mais rico em conteúdos bíblicos e o mais fielmente mantido na tradição da Igreja. Juntamente com a semana Pascal era o único período que conservava a sua quotidiana liturgia da Palavra com formulários normalmente mantidos desde a mais venerável tradição.

Entretanto, o divórcio que, a partir da idade Média, se estabeleceu entre a vida sócio-religiosa e a liturgia reduziu a Quaresma a um fenómeno puramente ritual, alheio a amplos sectores das comunidades Cristãs, cuja piedade «passionista» discorria por caminhos de devocionalismo extra-litúrgico.

1. Quinquagésima - Septuagésima

Mas nem por isso a Quaresma tradicional conseguiu manter-se livre de certas aderências liturgicas que os tempos lhe foram impondo. A mais sensível foi o acrescento progressivo de três semanas que, com os nomes de Quinquagésima, Sexagésima e Septuagésima, foram adiantando a preparação para a celebração da Quaresma.

A antecipação do jejum quaresmal não é uma prática especificamente romana. Encontra-se no Oriente, mas também nas diversas regiões do Ocidente. É uma prática de ascese monástica, que se estendeu rapidamente no povo e depressa foi seguida de uma extensão de ordem litúrgica. No princípio do século VI, o jejum preparatório para a Páscoa foi ampliado para sete semanas. O domingo que inicia as sete semanas recebeu o nome de Quinquagésima. É efectivamente o quinquagésimo dia, se contarmos os dias destas sete semanas a partir da Páscoa. Assim se chegava, no tempo de preparação, à equivalência do prolongamento da festa pascal. A Quinquagésima é testemunhada em Roma por volta de 520. É a época em que ela aparece também na Provença e em Turim.

Pouco depois, o IV Concílio de Orleães (541) menciona a Sexagésima, atestada também na Provença e em Turim nos mesmos anos. Pode pensar-se na sua presença em Roma pela mesma época, porque bem cedo devia aí aparecer a Septuagésima (fim do século VI ou princípio do século VII).

O conjunto das três semanas, preparatórias da Quaresma devia impôr-se a todo o Ocidente com a difusão dos livros litúrgicos romanos no decurso do século VIII. Este prólogo quaresmal ficou definitivamente institucionalizado desde o tempo de S. Gregório Magno, que lhe deu um especial relevo litúrgico e fixou a maior parte dos seus textos.

É provável que o destaque conferido a estes domingos esteja ligado ao facto de as suas liturgias se realizarem nas famosas igrejas dos santos patronos de Roma: Lourenço, Pedro e Paulo. É possível também que o costume litúrgico das Igrejas de Bisâncio e de Jerusalém, de começarem a Quaresma ja no oitavo domingo anterior à Páscoa, tenha concorrido para a introdução de semelhante pré-Quaresma, porque naquelas Igrejas, além do domingo, também não se jejuava aos sábados.

Entretanto, não se exigia um jejum propriamente dito na pré-Quaresma romana. Apenas a liturgia se caracterizava, em época posterior, pela cor roxa dos paramentos e pela supressão do Aleluia, do Glória e do Te Deum, como na Quaresma.

2. A Paixão

A última parte da Quaresma sofreu também modificações medievais não originárias. O chamado «tempo da Paixão» chegou a adquirir um especial relevo litúrgico que rompia, em certo sentido, a unidade da Quaresma primitiva. Por outro lado, a semana maior ou o começo da celebração dramatizada e religiosamente espectacular da «semana santa» fez desaparecer definitivamente a unidade litúrgica da Quaresma.

Não eram muitas as comunidades conscientes de que a instituição quaresmal está fundamentalmente orientada para a celebração do mistério pascal. A piedade quaresmal ou penitencial parecia esgotar-se na liturgia de Sexta-feira santa e no «cumprimento do preceito pascal», vinculado tradicionalmente à Quinta-feira santa. A piedade extra-liturgica «extenuava» religiosa e pastoralmente os espíritos em vez de os levar a saborear e viver em profundidade o mistério pascal.
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« Responder #4 em: 20 de Fevereiro de 2007, 22:04 »

VII - A REFORMA CONCILIAR

As duas instituições que marcaram substancialmente este período da Quaresma, a saber, a penitência eclesiástica e a preparação dos candidatos para o baptismo, foram desaparecendo pouco a pouco nos países de Cristandade. Por este motivo, muitos elementos da liturgia quaresmal tornaram-se quase incompreensíveis para os séculos posteriores. Foi por conhecer o sentido original da Quaresma e a sua riqueza litúrgica e pastoral, que o concílio Vaticano II fixou as linhas fundamentais para a futura reforma.

Assim, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia estabelece, em relação à Quaresma, que se ponha mais em realce a dúplice índole baptismal e penitencial.
Ponham-se em maior realce, tanto na liturgia coma na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal que pretende, sobretudo através da recordação do baptismo ou sua preparação e por meio da penitência, preparar os fiéis para a celebração do mistério pascal, ouvindo com mais frequência a palavra de Deus e entregando-se à oração com mais insistência. Par isso:

a) utilizem-se com mais abundância os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal e retomem-se, se parecer oportuno, elementos da antiga tradição;

b) o mesmo se diga dos elementos penitenciais… ; não se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitencial, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores (n. 109).

A penitência quaresmal deve ser também externa e social e não só interna e individual. Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis (n. 110).

Na preocupação de toda a reforma litúrgica está o retorno à autenticidade pascal já desde o período de intensa preparação que é a Quaresma.

O tempo da Quaresma ordena-se à preparação da celebração da Páscoa: a liturgia quaresmal dispõe, de facto, quer os catecúmenos, pelos diversos degraus da iniciação cristã, quer os fiéis, pela recordação do baptismo e pela penitência, para a celebração do mistério pascal (AL e CAL, n. 27).

A Quaresma Cristã não teria sentido algum sem a Páscoa. E do mesmo modo seria impossível viver coerentemente a Páscoa sem a exercitação e a vivência profunda da Quaresma litúrgica. A «nova vida» pascal não se improvisa com a celebração da grande Vigília da Ressurreição.


1. Duração do tempo da Quaresma

a) Desde a quarta-feira de cinzas

A índole originária da Quaresma, segundo o sentido da própria palavra, está posta na penitência de toda a comunidade e de cada um ao longo de quarenta dias.

«O tempo da Quaresma decorre desde a quarta-feira de cinzas até à Missa da Ceia do Senhor «exclusive» (AL e CAL, n. 28).
No tempo dos Padres da Igreja, os quarenta dias da Quaresma contavam-se desde o primeiro domingo da Quaresma até à quinta-feira da Ceia do Senhor. Contudo o uso de começar o jejum quaresmal desde a quarta feira antes do primeiro domingo da Quaresma e antiquíssimo (sec. VI-VII) e levou a que o rito da imposição das cinzas se fixasse nesse dia, de modo que a quarta-feira de cinzas se tornou mais popular do que muitos outros dias mais solenes. Esta é a razão, diz o Comentário romano, por que pareceu melhor nada inovar nesta matéria para restituir à sagrada «Quaresma» a sua plenitude simbólica.

b) Tempo da Septuagésima e da Paixão

Se o início da Quaresma se conservou na quarta-feira de Cinzas por causa da sua índole popular, a supressão do tempo da Septuagésima, bem como do tempo da Paixão, restituiu à Quaresma a sua primitiva unidade e importância.

O tempo da pré-Quaresma foi abolido pois não tinha caracteristicas próprias e, no Ofício divino, tomava os elementos do tempo comum. Por isso as três semanas que o compunham inserem-se de novo no tempo comum.

Antes da reforma, o quinto domingo da Quaresma dava início ao chamado «tempo da Paixão». Este título queria indicar que a Paixão passava a ocupar preponderantemente o primeiro plano nos textos da liturgia e na piedade dos fiéis. Isto também ocorre agora, de maneira cada vez mais acentuada, com o aproximar-se do Tríduo pascal. Todavia não podemos esquecer que a Páscoa é caracterizada pela passagem do Senhor pela paixão e morte à ressurreição. O Comentário romano justifica o abandono deste título, para preservar a unidade interior da Quaresma.

O tempo da Paixão é retocado de modo a garantir a unidade interior da Quaresma. O domingo que se dizia I da Paixão é agora o V domingo da Quaresma; o domingo seguinte, em que começa a Semana Santa, será o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor.

Ao antigo «I domingo da Paixão» estava ligado o costume de cobrir a cruz e as imagens dos santos com véus. Esta prática remonta, provavelmente, ao costume do chamado véu quaresmal com que se tapava o altar para não ser visto pelo povo. O Comentário romano de 1969 diz o seguinte:

Desde agora não se cobrirão mais a cruz e as imagens, a não ser naquelas regiões em que as Conferências Episcopais julgarem útil a conservação deste costume.

O Missal Romano, aparecido no ano seguinte, parece mais reservado, ao dizer, em rubrica anteposta ao V domingo da Quaresma, que se pode conservar este costume, a juízo das Conferências Episcopais.

c) A Semana Santa

Com o nome de Semana Santa são designados os últimos dias da Quaresma bem como o início do Tríduo pascal.

A Semana Santa, que se ordena a recordar a Paixão do Senhor, tem início com a procissão que faz memória da entrada messiânica de Cristo em Jerusalém e com a Missa em que se lê a Paixão segundo um dos evangelhos sinópticos. A leitura da Paixão segundo S. João reserva-se para a sexta-feita da Paixão do Senhor.

Onde as condições dos lugares não permitam que a procissão dos ramos percorra as ruas da cidade, a comemoração da entrada de Cristo em Jerusalém pode celebrar-se com um rito mais simples. Mas esta memória deve celebrar-se em todas as Missas, ao menos com o cântico de entrada.

Na terça e na quarta-feira da Semana Santa não se faz mais a leitura da Paixão do Senhor. O Evangelho da Missa destes dias feriais é tomado dos últimos acontecimentos da vida do Senhor na última semana antes da Paixão.

A quinta-feira da Semana Santa continua sendo o dia próprio para a bênção dos santos óleos.

Na quinta-feira da Semana Santa, de manhã, o Bispo, concelebrando a Missa com o seu presbitério, benze, os santos óleos e consagra o crisma».

A quinta-feira e a sexta-feira da Semana Santa dissociam-se claramente da Quaresma – a partir da liturgia eucarística da Ceia do Senhor – para ligar explicitamente estes dias ao «acontecimento Pascal» celebrado no Tríduo sagrado. O jejum quaresmal termina na quinta-feira, enquanto na sexta-feira da Paixão começa o jejum Pascal que, se possível, deve extender-se ao sábado.
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« Responder #5 em: 20 de Fevereiro de 2007, 22:05 »

2. A liturgia da Quaresma

a) Índole penitencial e baptismal da Quaresma

Na liturgia romana nunca faltaram textos penitenciais e leituras que apresentassem os principais elementos de uma catequese pré-baptismal. Contudo, estes textos, já bem cedo, passaram das Missas dominicais para as Missas feriais, e alguns deles, principalmente orações pelos catecúmenos, foram abolidos. Como o Concílio decretou que se pusesse em maior realce a índole baptismal e penitencial do tempo da Quaresma, a atenção dos responsáveis pela reforma voltou-se para estes textos.

Quanto às leituras: as leituras para as Missas dos domingos foram escolhidas com a intenção de propor aos fiéis os convites dos profetas à penitência bem como a síntese de todo o mistério da salvação; serão também apresentados os principais textos do Evangelho que, nos primeiros séculos, eram lidos aos catecúmenos para os preparar para o baptismo. Estas leituras, porém, dirigem-se a todos os fiéis, pois, durante a Quaresma, toda a Igreja, juntamente com os baptizandos, comemora o mistério da sua iniciação cristã.

Quanto às orações: a reforma das orações pelos catecúmenos não teve qualquer dificuldade; porém a revisão das preces penitenciais exige que se adaptem às circunstâncias hodiernas, segundo o espírito da Constituição Apostólica Paenitemini (1966).

A reforma da Quaresma não diz respeito somente à liturgia da Missa. Diz respeito também à liturgia das Horas e, de modo particular, aos sacramentos da Iniciação Cristã e da Penitência. A propósito da Quaresma como tempo de preparação para o baptismo, o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos diz o seguinte:

Durante este tempo, os catecúmenos são objecto de uma preparação interior mais intensa. Esta tem mais em vista o recolhimento espiritual do que a catequese e ordena-se à purificação do coração e da mente, através do exame de consciência e da penitência, e à sua iluminação por meio do conhecimento mais aprofundado de Cristo Salvador. Tudo isto se faz por meio de vários ritos, sobretudo pelos «escrutínios e pelas tradições».

1) Os escrutínios, que devem ser celebrados solenemente ao domingo, têm em vista o duplo fim acima referido, a saber: pôr a descoberto o que no coração dos eleitos possa haver de fraqueza, enfermidade ou malícia, para que seja curado, e o que há de bom, válido e santo, a fim de ser fortalecido. Os escrutínios destinam-se à libertação do pecado e do demónio e ao fortalecimento em Cristo que é o caminho, a verdade e a vida dos eleitos.

2) «As tradições», pelas quais a Igreja entrega aos eleitos os antiquíssimos documentos da fé e da oração – o Símbolo e a Oração dominical –, tem como fim a sua iluminação, No Símbolo, os olhos dos eleitos são inundados de fé e de alegria. Na Oração dominical, reconhecem, em toda a sua profundeza, o novo espírito de filhos, pelo qual chamam a Deus seu Pai, sobretudo na assembleia eucarística (n. 25).

O tempo da purificação e da iluminação dos catecúmenos coincide habitualmente com, a Quaresma, porque esta, tanto na liturgia como na catequese litúrgica, por meio da recordação ou da preparação do Baptismo e pela Penitência, renova a comunidade dos fiéis, juntamente com os catecúmenos, e dispõe-nos para a celebração do mistério pascal (n. 21).

Também o Ritual da Penitência se refere à Quaresma como o tempo mais propício para a celebração do Sacramento da Penitência e outras celebrações penitenciais:

O tempo da Quaresma é o mais apropriado para a celebração do Sacramento da Penitência, porque já na Quarta-feira de Cinzas se fez ouvir diante do Povo de Deus este solene convite: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». É bom, portanto, que se façam, por diversas vezes, ao longo da Quaresma, celebrações penitenciais, para oferecer a todos os fiéis ocasião de se reconciliarem com Deus e com os irmãos e de celebrarem o mistério pascal, no tríduo santíssimo, de coração renovado (n. 13).

Quanto ao Ofício divino, procurou-se sintonizar mais coerentemente a liturgia das Horas com a liturgia sacramentária ou eucarística, mediante uma melhor reestruturação, quer das orações e antífonas, quer das leituras bíblicas e patrísticas.

b) Os domingos da Quaresma

Este empenho de renovação concentrou-se de forma particular nos domingos da Quaresma porque é neles que se reúne a maior parte das comunidades para as celebrações litúrgicas. Estes domingos conferem à liturgia da Quaresma o seu cunho específico, cada um deles com a sua feição própria e inconfundível, apesar dos elementos comuns a todos. Isto se fez sobretudo mediante os respectivos evangelhos e com o apoio das demais leituras, orações e cânticos.

Quanto aos esquemas dominicais de leituras, os domingos I e II mantêm nos três ciclos a sua temática tradicional, da Tentação e da Transfiguração do Senhor, biblicamente enriquecida agora com leituras veterotestamentárias.

Os três domingos seguintes foram refeitos de novo, voltando à primitiva tradição catecumenal, nos seus textos e na sua vinculação original aos solenes escrutínios pré-baptismais. Desta forma, a distribuição das leituras no ciclo A volta a ser a típica destes três domingos: o evangelho da Samaritana para o terceiro domingo, do Cego de nascença para o quarto e da ressurreição de Lázaro para o quinto. Como estes evangelhos são da máxima importância, em relação à iniciação Cristã, podem usar-se também nos anos B e C, principalmente onde houver catecúmenos.

Contudo, os anos B e C apresentam também outros textos: no ano B, os textos de S. João sobre a futura glorificação de Cristo pela Cruz e Ressurreição; no ano C, os textos de S. Lucas sobre a penitência e a conversão.

É, portanto, a situação real de cada comunidade eclesial que deverá determinar a escolha do esquema dominical e a orientação pastoral da acção litúrgica, tendo em conta que o ciclo A é sempre assumível para substituir qualquer dos outros dois ciclos.

As leituras do Antigo Testamento referem-se à história da salvação, um dos grandes temas próprios da catequese quaresmal. Em cada ano se encontra uma série de textos que apresentam os principais acontecimentos daquela história desde o início até à promessa da nova aliança e da nova Páscoa.

As leituras do Apóstolo foram escolhidas de modo a manifestar a relação do Evangelho e do Antigo Testamento e, tanto quanto possível, a conseguir uma melhor conexão.

c) O domingo de Ramos

O sexto domingo da Quaresma, ou Domingo de Ramos e da Paixão – de acordo com o título completo que lhe dá o Missal romano – ocupa um lugar de destaque no conjunto dos quarenta dias. Pelo título já se vê que dois aspectos fundamentais se fundem na liturgia deste domingo: a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém e a comemoração da Paixão.

Sabemos, pelo relato da peregrina Etéria, que os cristãos de Jerusalém, no começo do século V, se reuniam no monte das Oliveiras, às primeiras horas da tarde, para uma longa liturgia da Palavra; em seguida, ao cair da tarde, dirigiam-se à cidade de Jerusalém, levando ramos de palmeira ou de oliveira nas mãos. Este costume logo foi apreciado e imitado por outras Igrejas do Oriente. Quanto a sua difusão no Ocidente, já por volta do ano 600 encontramos o nome de «Domingo de Ramos» na Espanha e na Gália, mas não ainda a procissão. É necessário esperar pelo princípio do século IX para encontrar testemunhos firmes da procissão dos Ramos – no Ocidente com o hino Gloria laus.

Para a procissão no «Domingo de Ramos e da Paixão» , a reforma litúrgica escolheu textos que se referem à entrada solene do Senhor em Jerusalém, extraídos dos três evangelhos sinópticos. Na Missa lê-se a narração da Paixão do Senhor segundo cada um dos evangelhos sinópticos, repartidos igualmente pelos três ciclos de leituras.

d) Quinta-feira Santa

A manhã de quinta-feira da Semana Santa distingue-se pela «Missa do Crisma», isto é, pela celebração na qual «o bispo, rodeado pelo seu presbitério, benze os santos óleos e consagra o crisma».

A consagração do crisma e do óleo dos catecúmenos faz parte do património da tradição. Ela é mencionada já na Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, no início do século III.

A prática da consagração dos santos óleos, no Ocidente, foi motivada pela administração do baptismo e do crisma na noite de Páscoa, sacramentos nos quais se usa o óleo dos catecúmenos e o do crisma.

Neste dia se realizava também a reintegração (reconciliação) dos penitentes públicos, a fim de poderem participar de novo na celebração da Páscoa, juntamente com toda a comunidade cristã.

Em algumas regiões, havia três missas: para a consagração dos óleos, para a reconciliação dos penitentes e para comemorar a Ceia do Senhor. Mais tarde, porém, estes três propósitos realizavam-se numa única missa. Até à reforma da Semana Santa, esta única missa era celebrada de manhã.

Segundo a tradição, a missa do crisma é prevista, em geral, para a parte da manhã, como prescreve o novo Ordo de 1970 para a consagração dos óleos. Se houver dificuldades especiais para o clero e o povo, a consagração pode ser antecipada para outro dia, próximo da Páscoa.

O bispo benze os santos óleos na missa concelebrada com o seu presbitério, normalmente na igreja catedral. Segundo o referido Ordo, esta missa mostra-nos, justamente, que só o bispo possui a plenitude do sacerdócio e é «dele que decorre e depende, em certo modo, a vida dos fiéis em Cristo». Como está dito na introdução à celebração desta missa, ela deve ser o sinal da unidade do presbitério e da comunhão dos presbíteros com o seu bispo. Convém, portanto, que todos os presbíteros, tanto quanto possível, participem da mesma, vindos das várias regiões da diocese.

A esta missa do crisma junta-se, agora, a renovação das promessas sacerdotais. Faz-se, a seguir à homilia na qual «o bispo exorta os seus presbíteros a serem fiéis ao seu ministério e os convida a renovarem publicamente os compromissos sacerdotais».

e) Os dias feriais da Quaresma

A liturgia ferial contribui – com o seu ciclo único – a dar unidade de conteúdo aos três ciclos dominicais, enquanto nos apresenta todo o processo da história da salvação. Especialmente as leituras veterotestamentárias, tão típicas deste tempo, estão ordenadas a uma educação penitencial que nos leva à nova aliança em Cristo.

1) A Quarta-feira de Cinzas

Conforme às suas origens, o rito da bênção e da imposição das cinzas tinha lugar, até 1970, antes do princípio da missa. No novo Missal quis-se que ele tivesse lugar no termo de uma liturgia da Palavra, quer esta seja ou não seguida da Eucaristia. Trata-se, portanto, de uma celebração penitencial.

Depois da sua entrada em uso, a imposição das cinzas fazia-se com a fórmula do Génesis: «Lembra-te que és pó» (Gen 3, 19). Podem, dizer-se agora, no seu lugar, as palavras do Senhor: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15). O apelo à conversão substitui-se à consideração do carácter mortal do homem.

2) Os outros dias feriais

Não é só a Quarta-feira de Cinzas e os domingos que são marcados pelos dois grandes temas da conversão e do baptismo. Também os outros dias feriais se inserem, por esta forma, no tema global da Quaresma, ou seja, na preparação para a Páscoa. Podemos mesmo dizer que os temas propriamente catequéticos ou de iniciação pré-baptismal e penitencial se encontram especialmente no desenrolar da liturgia ferial.

As leituras foram escolhidias tendo em conta a sua mútua relação e os elementos próprios da catequese quaresmal, adaptados ao sentido espiritual deste tempo. Assim, desde a segunda-feira da quarta semana, faz-se a leitura semi-contínua de S. João, em que os textos destes evangelhos correspondem mais plenamente às características da Quaresma, como interiorização do mistério de Cristo na consciência do crente.

Como os evangelhos da Samaritana, do Cego de nascença e ressurreição de Lázaro se lêem, de novo, aos domingos, mas só no ciclo A (e «ad libitum» nos outros anos), providenciou-se para que os mesmo posssam ler-se nos dias feriais. Assim, no início da terceira, quarta e quinta semanas, foram inseridas «Missas ad libitum» com aqueles textos. Estas Missas podem utilizar-se em qualquer dia ferial de qualquer semana, em vez das leituras do dia.

Nos primeiros dias da Semana Santa, as leituras referem-se ao mistério da Paixão. Na Missa do Crisma, em Quinta-feira Santa, as leituras sublinham o múnus messiânico de Cristo e a sua continuação na Igreja pelos sacramentos.

Do ponto de vista litúrgico, dissociam-se claramente da Quaresma Quinta e a Sexta-feira Santas – a partir da liturgia eucarística vespertina da Ceia do Senhor – para se ligarem explicitamente ao «acontecimento pascal» celebrado no Tríduo pascal.

Por outro lado, uma disciplina de austeridade na celebração do Santoral, coincidente com o período quaresmal, reduz as solenidades ou memórias ao mínimo, para deixar em primeiro plano o ritmo específico da liturgia quaresmal quotidiana.

Desde o início da Quaresma até à Vigília Pascal, não se diz Aleluia, sendo substituido por outra aclamação antes do Evangelho. Também não se diz o «Glória a Deus nas alturas» e o « Te Deum». Os paramentos são de cor roxa. No domingo «Lactare» (IV da Quaresma), pode usar-se paramento cor-de-rosa e usa-se a cor vermelha no domingo dos Ramos e da Paixão bem como na Sexta-feira Santa e nas celebrações da Paixão do Senhor.


CONCLUSÃO

Vamos concluir estas páginas de reflexão sobre a evolução histórica da Quaresma, pondo-nos a seguinte questão: estes quarenta dias que preparam para a celebração da Páscoa, centro de todo o mistério Cristão, representam ainda um tempo forte da vida Cristã e da acção pastoral para as nossas comunidades?

É certo que o fenómeno da secularização e do indiferentismo religioso atacou a fundo a austeridade e a seriedade deste anual empenho Cristão. Será possível dar a este tempo o seu original valor, numa civilização tão dispersiva e refractária a compromissos religiosos coerentes e continuados?

A resposta da Igreja, sobretudo através da liturgia quaresmal, é positiva, porque ela põe em acção toda uma estrutura celebrativa e kerigmática que, se bem utilizada, pode captar as aspirações genuinas das almas desejosas de conversão. Parece, pois, possível programar um itinerário de etapas que, seguindo as indicações rituais, ponham em acção uma «pedagogia de iniciação», isto é, de introdução vital no mistério de Cristo.

Esta hipótese pastoral pretende verificar esta possibilidade logo desde o momento em que a oração de Quarta-feira de Cinzas nos sugere «iniciar com este jejum o caminho da verdadeira conversão». Receber com fé as cinzas na Liturgia penitencial da comunidade significa, portanto, inscrever-se na escola de conversão que a Igreja nos propõe no tempo quaresmal. Mas para que a Quaresma não fique letra morta mas seja verdadeiramente a preparação eficaz da Páscoa, tal como a Igreja a quis restaurar nos nossos dias, é necessário que ela seja vivida com verdade e autenticidade.

Começando pela Quarta-feira de Cinzas, o ofício quaresmal não soará hoje aos nossos ouvidos como uma farsa? Quem está, disposto ao jejum, à abstinência, à penitência, no antigo sentido da palavra que implica uma mudança radical da vida quotidiana? Se ninguém pensa já em jejuar, nem sequer em praticar a abstinência, e nada se muda na maneira habitual de viver, então tudo assumirá um aspecto de comédia que priva de seriedade na sua base a totalidade da Quaresma. Como se pode pedir a Deus que abençõe o jejum dos seus servidores quando não se tem a menor intenção de jejuar?

Para podermos voltar a tomar a Quaresma a sério, para podermos voltar a encontrar nela um verdadeiro caminho para a Páscoa, é necessário que o nosso primeiro esforço se encaminhe nesta direcção.

Se a Igreja nos deixa agora mais liberdade para fixarmos nós próprios as formas e os limites da nossa ascese quaresmal, isso não significa um adeus irrevogável às formas de penitência; constitui antes uma ocasião providencial de nos libertarmos da confusão moderna entre espiritualidade e casuística. Não é preciso apertar o cinto durante a Quaresma para evitar o pecado mortal Interrogação Tanto melhor, se isso nos ajuda a descobrir que suprimir de vez em quando o supérfluo, e mesmo algo do necessário, é um excelente e muito simples meio de libertar o espírito para Deus. A Igreja propõe-nos somente uma única vigília em todo o ano, e sem carácter obrigatório? É verdade. Mas nós que velamos com tanta facilidade quando queremos ir ao cinema, escutar a rádio, ver a televisão, ou acabar de ler um romance, não seremos capazes, sem que se nos obrigue, de suprimir um pouco do nosso sono para meditar e rezar, para participar numa velada bíblica?

Parece que a restauração da Quaresma deveria ser a restauração da vasta meditação escriturística, apoiada sobre uma ascese generosa, segundo as escolas de S. Leão e de S. Agostinho, que a pregação, as Vigílias de oração e reflexão comunitárias e a meditação pessoal de cada um deveriam alimentar e desenvolver.

Sobre esta base as próprias «estações» da liturgia romana voltariam a adquirir o seu sentido, e o aspecto essencialmente baptismal da sua catequese bíblica revestir-se-ia de todas as cristãlizações resplandecentes, sem as quais passa despercebido.

Mas isto exigiria, por sua vez, outro esforço de autenticidade. Estas missas quaresmais e estas celebrações da Palavra supõem uma Igreja missionária, ocupada activamente em preparar o testemunho que vai dar da Ressurreição, agregando novos membros de Cristo, voltando a fazer da celebração pascal uma verdadeira festa da iniciação dos neófitos.

A reforma dos livros está feita. Procuremos passá-la à vida de cada um de nós e das nossas comunidades.



(Luís Ribeiro, Boletim de Pastoral Litúrgica, n.º 37-40 - 1985)
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