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Autor Tópico: Caminhada Quaresmal rumo à Páscoa  (Lida 14224 vezes)
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lea onda-menor
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« Responder #15 em: 01 de Abril de 2007, 19:00 »

Um desafio lançado pelo Pároco
da Paróquia da Nossa Senhora da Conceição (Faro)
para esta quaresma:

DA ILUSÃO À VERDADE

leitura e discussão de um livrito com cerca de cem páginas,
que resulta de um testemunho dado por uma mulher, médica dentista,
numa igreja de Caracas, Venezuela, a 5 de Maio  de 2005
sobre o que lhe que ocorrera dez anos antes (5/05/1995)...



videos com a propria Gloria Polo
 a descrever e explicar esse mesmo testemunho
em espanhol:

http://www.gloriapolo.com/video.html

uma lista de videos (12) que se podem encontrar no You Tube
com um resumo em espanhol...
http://youtube.com/view_play_list?p=E1BC7041F4347FB8
« Última modificação: 01 de Abril de 2007, 19:02 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #16 em: 02 de Abril de 2007, 16:44 »

Já reparou que foram reservados 40 dias para a Quaresma InterrogaçãoExcalmação
Já reparou que a Quaresma é um tempo de preparação InterrogaçãoExcalmação

Por isso, e recorrendo a analogias do Antigo Testamento, a "Quaresma" faz-me lembrar não só os 40 dias em que os espiões vigiaram a terra prometida, como o castigo que tiveram de peregrinar durante 40 anos no deserto devido à sua incredulidade, para se poderem preparar para alcançar essa terra prometida.

Também me lembra o pecado de Judá carregado por Ezequiel, como mandou YHWH
Citação de: Ezequiel 4,6
... ... ... recosta-te sobre o lado direito; e carregarás o pecado da casa de Judá, durante quarenta dias; estabeleço um dia para cada ano.

Também me lembro de muitos outros passos bíblicos que pode examinar aqui.
e aqui.

e os quarenta anos em que reinou cada um dos 3 reis de Israel Unido ( Saul, David e Salomão) e os 120 anos de Moisés divididos em 3 partes iguais de 40 anos e 
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« Última modificação: 02 de Abril de 2007, 16:56 por MPP » Registado

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« Responder #17 em: 02 de Abril de 2007, 17:16 »

Acho oportuno ler a intervenção de Bento XVI na audiência geral, dedicada à Quarta-Feira de Cinzas, que o nosso amigo Felix partilhou connosco aqui, e que fala sobre "Quaresma, 40 dias de conversão ao amor de Cristo"Excalmação

Deixo ainda aqui um texto retirado da Enciclopédia Católica Popular com algumas reflexões sobre a quaresma.

Quaresma


1. Noção e história. É o tempo do Ano Litúrgico preparatório da Páscoa, a grande celebração do mistério da Salvação pela morte e ressurreição de J. C. Na actual disciplina litúrgica, vai da Quarta-Feira de Cinzas até Quin­ta-Feira Santa, excluindo a Missa da Ceia do Senhor, que já pertence ao Trí­duo Pascal. A Q. surgiu no séc. IV, a se­guir à paz de Constantino, quando mul­ti­dões de pagãos quiseram entrar na Igreja. Duas venerandas instituições a ela estão ligadas, a penitência pública e o catecumenado. Daí o seu duplo ca­rácter penitencial e baptismal. Ini­cial­men­te durava 3 semanas, mas depois, em Roma, foi alargada a 6 semanas (40 dias), com início no actual I Domingo da Quaresma (na altura denominado Quadragesima die, entenda-se 40.º dia anterior à Páscoa). O termo Qua­dra­ge­sima (que deu a nossa “Quaresma”) pas­sou depois a designar a duração dos 40 dias evocativos do jejum de J. C. no deserto a preparar-se para a vida pú­blica. Como, tradicionalmente, aos domingos nunca se jejuou, foi neces­sá­rio acres­centar alguns dias para se perfazerem os 40. Daí a antecipação do iní­cio da Q. para a Quarta-Feira de Cinzas.

2. Espiritualidade. A penitência públi­ca ao longo da Quaresma caiu em desu­so, mas ficou no espírito dos fiéis a necessidade de se prepararem ao longo de 40 dias de penitência para as festas pascais. Por sua vez, o catecumenado que, durante séculos, teve na Q. a fase de preparação próxima para os sacramentos da iniciação cristã na Vigília Pascal, também caiu em desuso (excepto nas mis­sões ad gentes), mas foi restaurado pelo Conc. Vat. II, dado o número crescente de baptismos de adultos. Assim, a “eleição” dos catecúmenos para a fase da “iluminação” passou a fazer-se no I Domingo da Quaresma, entrando os “elei­tos” em clima de retiro, marcado nas últimas semanas pelos “escrutínios” com as “tradições” (entregas) do Sím­bolo da Fé (Credo) e da Oração Domi­nical (Pai-Nosso), que eles acabam por fazer seus, proclamando-os (reditio) nos últimos escrutínios. Haja ou não catecúmenos, os fiéis de cada comunidade são convidados a viver a Q. em espírito catecumenal, preparando-se para a “re­no­vação das promessas do Baptismo” na Vigília Pascal. Fazem esta expe­riên­cia recorrendo às tradicionais práticas do jejum, da esmola e da oração, en­ten­dendo-as num sentido amplo de ascese cristã (luta contra as más inclina­ções, seduções mundanas e tentações, e exercício das virtudes cristãs), de caridade fraterna (pela prática das obras de mise­ricórdia) e de intimidade com Deus (escutando a palavra de Deus e dando-se às várias formas de oração).

3. Tem­po pe­ni­tencial. A Q. é um tempo forte de penitência. A atitude espiritual ex­pres­sa por esta palavra, tantas vezes na boca dos profetas e de J. C., é uma atitude complexa e muito rica, suscitada pela consciência do pecado. Começa por ser arrependimento pelo mal praticado e sincera dor do pecado; logicamente leva ao desejo de expiação e de reparação, para repor a justiça lesa­da, e de reconciliação com Deus e com os irmãos ofen­didos; chega final­mente à emenda de vida e mais ainda à conversão cristã, que é muito mais que uma conversão moral, para ser uma passa­gem à fé e à caridade sobre­naturais, com tudo o que implica de mudança de mentalidade, sensibilidade e maneira de amar, que passam a ser as próprias dos que pela graça se tornaram verdadeiros filhos de Deus.

4. Disciplina canónica. Para assegurar expressão comunitá­ria à prática penitencial, sobretudo no tempo da Qua­resma, a Igreja mantém o jejum e a abstinência tradicionais. Embora estas duas práticas digam hoje pouco à sensibilidade dos fiéis, mantêm-se em vigor, com variantes de país para país. Entre nós (Normas da CEP aprovadas na Ass. Plen. de Jul.1984), são dias de jejum para os fiéis dos 18 aos 59 anos (a me­nos de dispensa, por doença ou outra cau­sa) a Quarta-Feira de Cinzas e a ---­ta-Feira Santa (convidando a liturgia a prolongar o jejum deste dia ao longo de Sábado Santo). E são dias de abstinência de carnes, para os fiéis depois dos 14 anos (embora seja bom que a iniciação nesta prática se faça mais cedo), as sextas-feiras do ano (a menos que cesse a obrigação pela coincidência com festa de preceito ou solenidade litúrgica), com possibilidade de substituição por outras práticas de ascese, esmola (ca­ridade) ou piedade, embora seja aconselhado manter a prática tradicional nas sextas-feiras da Quaresma. No que res­peita à esmola, ela deve ser proporcio­nal às posses de cada um e significar ver­dadeira renúncia, podendo revestir-se da forma de “contributo penitencial” (e, como já entrou nos hábitos diocesa­nos, de “renúncia quaresmal”) com destino indicado pelo bispo.

5. Liturgia qua­res­mal. Na hierarquia dos tempos litúrgicos, a Quaresma ocupa o 3.º lugar, depois do Tríduo Pascal e do Tempo da Páscoa, cuja celebração aliás prepara. Os Do­min­gos da Q. têm precedência sobre todas as celebrações. Se num de­les ocorrer uma solenidade, esta é transferida para a segunda-feira seguinte (ou para a se­gun­da-feira da II Semana Pas­cal, se cair na Semana Santa ou na Se­mana da Páscoa). As férias quaresmais têm precedência sobre as memórias obri­­gatórias. As leituras das missas do Ano A, por serem as mais adequadas para a catequese baptismal dos cate­cúmenos, podem utilizar-se mesmo nos Anos B e C. Aconse­lha-se a que se fa­çam, durante a Q., celebrações comuni­tárias da Penitência, com a confissão e a absolvição individuais; e pede-se aos sacerdotes que se dis­po­ni­bilizem para ou­vir os fiéis de confissão. A liturgia qua­resmal proporciona o clima mais ade­quado a este tempo, nomeadamente pelo rito das cinzas logo no início, pelo uso de paramentos roxos e proibição de flores nos altares e do toque de instrumentos musicais que não sejam para sus­ter o canto (com a excepção do IV Domingo, Laetare), pela supressão do Glória in excelsis, do Aleluia e do Te-Deum, por cobrir as cruzes e as imagens no V Domingo, até, respectivamente, à Adoração da Cruz em Sexta-Feira Santa e à Vigília Pascal.
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« Responder #18 em: 04 de Abril de 2007, 17:28 »

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« Responder #19 em: 05 de Abril de 2007, 12:08 »

5.ª Feira Santa



"Tenho ardentemente desejado comer convosco esta páscoa,
antes de padecer"

(Lc 22, 15)

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II (Quinta-feira Santa, 20/04/2000)

1. "Tenho ardentemente desejado , antes de padecer" (Lc 22, 15).

Com estas palavras, Cristo faz conhecer o significado profético da Ceia pascal, que está para celebrar com os discípulos no Cenáculo de Jerusalém.



Com a primeira leitura, tirada do Livro do Êxodo, a Liturgia pôs em evidência o facto de a Páscoa de Jesus se inscrever no contexto daquela da Antiga Aliança. Com ela os Israelitas faziam memória da ceia consumada pelos seus pais, no momento do êxodo do Egipto, e da libertação da escravidão. O texto sagrado prescrevia que um pouco do sangue do cordeiro fosse posto nas duas ombreiras e na verga da porta das casas. E acrescentava como devia ser comido o cordeiro, isto é: "Tereis os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão... apressadamente... Passarei nesta noite através do Egipto e ferirei de morte todos os primogénitos... O sangue servirá de sinal nas casas em que residis. Vendo o sangue, passarei adiante, e não sereis atingidos pelo flagelo destruidor" (Êx 12, 11-13).

O sangue do cordeiro obtém para os filhos e filhas de Israel a libertação da escravidão do Egipto, sob a guia de Moisés. A recordação de um evento tão extraordinário tornou-se ocasião de festa para o povo, que estava grato ao Senhor pela liberdade readquirida, dom divino e empenho humano sempre actual: "Conservareis a recordação desse dia, comemorando-o com uma solenidade em honra do Senhor" (Ibid., 12, 14). É a Páscoa do Senhor! A Páscoa da Antiga Aliança!


2. "Tenho ardentemente desejado comer convosco esta páscoa, antes de padecer" (Lc 22, 15).

No Cenáculo, Cristo, obediente às prescrições da Antiga Aliança, consuma a ceia pascal com os Apóstolos, mas dá a este rito um novo conteúdo. Escutámos São Paulo falar a respeito disto na segunda leitura, tirada da primeira Carta aos Coríntios. Neste texto, considerado a mais antiga descrição  da  Ceia  do  Senhor,  recorda-se que Jesus, "na noite em que foi entregue tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse:  "Isto é o Meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em Minha memória". Do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice e disse: "Este  cálice  é  a  Nova  Aliança  no Meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em Minha memória". Com efeito, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha" (cf. 1 Cor 11, 23-26). Palavras solenes com as quais se transmite para sempre a memória da instituição da Eucaristia. Neste dia, recordamo-las todos os anos, retornando espiritualmente ao Cenáculo. É com particular emoção que as revivo nesta tarde, porque conservo nos olhos e no coração as imagens do Cenáculo[...]

3. "Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte  do  Senhor  até  que  Ele  venha" (1 Cor 11, 26). O Apóstolo exorta-nos a fazer constante memória deste mistério. Ao mesmo tempo, convida-nos a viver cada dia a nossa missão de testemunhas e anunciadores do amor do Crucificado, à espera do seu retorno glorioso. Mas como fazer memória deste evento salvífico? Como viver à espera de que Cristo retorne?

Antes de instituir o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Cristo, inclinado e de joelhos, na atitude do escravo, lava os pés aos discípulos no Cenáculo. Revemo-l'O enquanto realiza este acto, que na cultura hebraica é precisamente dos servos e das pessoas mais humildes da família.

No início Pedro recusa-se, mas o Mestre convence-o, e enfim também ele se deixa lavar os pés juntamente com os outros discípulos. Logo depois, porém, retomando as vestes e tendo-se posto de novo à mesa, Jesus explica o sentido deste seu gesto:

 "Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou. Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros" (Jo 13, 12-14). São palavras que, unindo o mistério eucarístico ao serviço do amor, podem ser consideradas preliminares à instituição do Sacerdócio ministerial.

Com a instituição da Eucaristia, Jesus comunica aos Apóstolos a participação ministerial no seu sacerdócio, o sacerdócio da Aliança nova e eterna, em virtude da qual Ele, e somente Ele, é sempre e em toda a parte artífice e ministro da Eucaristia. Os Apóstolos tornaram-se, por sua vez, ministros deste excelso mistério da fé, destinado a perpetuar-se até ao fim do mundo. Tornaram-se contemporaneamente servidores de todos aqueles que vierem a participar em tão grande dom e mistério.A Eucaristia, o supremo Sacramento da Igreja, está unida ao sacerdócio ministerial, nascido também ele no Cenáculo, como dom do grande amor d'Aquele que, "sabendo que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai (...) que amara os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles" (Jo 13, 1).

A Eucaristia, o sacerdócio e o novo mandamento do amor!
É este o memorial vivo que contemplamos na Quinta-Feira Santa.


MEDITAÇÃO DO SANTO PADRE NO ENCONTRO COM OS JOVENS (1997)

Queridos Jovens
1. Acabámos de escutar o Evangelho do lava-pés. Mediante este gesto de amor, na noite de Quinta-Feira Santa, o Senhor ajuda-nos a compreender o sentido da Paixão e da Ressurreição. O tempo que juntos viveremos está relacionado com a Semana Santa e, em particular, com os três dias que nos recordam o mistério da paixão, da morte e da ressurreição de Cristo. Isto está relacionado também com o processo de iniciação cristã e do catecumenato, ou seja, da preparação dos adultos para o baptismo, que na Igreja primitiva possuía um valor fundamental.

A liturgia da Quaresma assinala as etapas da preparação dos catecúmenos para o Baptismo, celebrado durante a Vigília pascal. No decurso dos próximos dias, acompanhemos Cristo nas últimas etapas da Sua vida terrestre e contemplemos os grandiosos aspectos do mistério pascal, para afirmarmos a fé do nosso Baptismo; manifestemos todo o nosso amor ao Senhor, como Pedro o fez, dizendo- Lhe por três vezes à margem do lago, depois da Ressurreição: «Tu sabes que Te amo!» (cf. Jo 21, 4-23).

Na Quinta-Feira Santa, mediante a instituição da Eucaristia e do sacerdócio, bem como através do lava-pés, Jesus demonstrou claramente aos Apóstolos congregados o sentido da sua Paixão e da sua Morte. Também os introduziu no mistério da nova Páscoa e da Ressurreição. No dia da Sua condenação e da sua Crucifixão por amor dos homens, entregou a própria vida ao Pai, para a salvação do mundo. Na manhã de Páscoa, as santas mulheres e em seguida Pedro e João, encontraram o túmulo vazio. O Senhor ressuscitado apareceu a Maria Madalena, aos discípulos de Emaús e aos Apóstolos. A morte não teve a última palavra. Jesus saiu vitorioso do túmulo. Depois de se terem retirado no Cenáculo, os Apóstolos receberam o Espírito Santo, que lhes concedeu a força de serem missionários da Boa Nova.

2. O lava-pés, manifestação do amor perfeito, constitui o sinal de reconhecimento dos discípulos. «Vós deveis fazer a mesma coisa que Eu fiz» (Jo 13, 15). Jesus, Mestre e Senhor, deixa o Seu lugar à mesa para tomar o do servo. Inverte as funções, manifestando a novidade radical da vida cristã. Demonstra humildemente que amar com palavras e actos consiste antes de mais em servir os próprios irmãos. Quem não aceita esta condição, não pode ser discípulo. Pelo contrário, quem serve recebe a promessa da salvação eterna.

Desde o nosso Baptismo, renascemos para a vida nova. A existência cristã exige que progridamos ao longo do caminho do amor. A lei de Cristo é a lei do amor. Transformando o mundo à maneira de um fermento, essa desarma os violentos e cede o lugar deles aos mais fracos e aos pequeninos, chamados a anunciar o Evangelho.

Mediante a recepção do Espírito, o discípulo de Cristo é impelido a pôr-se ao serviço dos seus irmãos na Igreja, na família, na vida profissional, nas numerosas associações e na vida pública, a nível tanto nacional como internacional. Este processo é, de alguma forma, a continuação do baptismo e da confirmação. Servir é o caminho da felicidade e da santidade: assim, a nossa vida torna-se um caminho de amor rumo a Deus e aos nossos irmãos.

Ao lavar os pés aos discípulos, Jesus antecipa a humilhação da morte na Cruz, mediante a qual há-de servir o mundo de maneira absoluta. Ele demonstra que o Seu triunfo e a Sua glória passam através do sacrifício e do serviço: este é o caminho de todo o cristão. Não há maior amor que dar livremente a própria vida pelos amigos (cf. Jo 15, 13), pois o amor salva o mundo, constrói a sociedade e prepara a eternidade. Assim, sereis os profetas de um mundo novo. O amor e o serviço sejam as regras primordiais da vossa vida! No sacrifício de vós mesmos, havereis de descobrir o que recebestes e, por vossa vez, recebereis a dádiva de Deus.

3. Estimados jovens, como membros da Igreja, compete-vos dar continuidade ao gesto do Senhor: o lava-pés prefigura todas as obras de amor e de misericórdia que os discípulos de Cristo realizarão ao longo de toda a história, para fazer com que aumente a comunhão entre os homens.

Hoje, também vós sois chamados a comprometer-vos neste sentido: aceitando seguir Cristo, vós anunciais que o caminho do amor perfeito passa através do dom total e constante de vós mesmos. Quando os homens sofrem, quando são humilhados pela miséria ou pela injustiça e são espezinhados nos seus direitos, apressai-vos em servi-los; a Igreja convida todos os seus filhos a empenharem-se a fim de que cada pessoa possa, antes de tudo, viver e ser reconhecida na sua dignidade originária de filho de Deus. Cada vez que servimos os nossos irmãos, não nos afastamos de Deus; muito pelo contrário, encontramo-Lo no nosso caminho e servimo-Lo. «Aquilo que fizestes ao mais pequenino dos meus irmãos, foi a Mim mesmo que o fizestes» (cf. Mt 25, 40). Desta forma, damos glória ao Senhor, nosso Criador e Salvador, fazemos crescer o Reino de Deus no mundo e contribuímos para o progresso da humanidade.

A fim de evocar esta missão essencial dos cristãos para com cada homem, particularmente para com os mais pobres, eu quis rezar no Trocadéro, no santuário dos direitos humanos, desde o início da Jornada Mundial da Juventude. Hoje rezemos juntos, de maneira especial pelos jovens que não dispõem da possibilidade nem dos meios para viver dignamente e receber a educação necessária para o seu crescimento humano e espiritual, devido à miséria, à guerra ou à enfermidade. Estejam certos do afecto e do apoio da Igreja!

4. Quem ama não faz cálculos, não busca vantagens. Age secreta e gratuitamente em benefício dos seus irmãos, sabendo que cada homem, quem quer que seja, tem um valor infinito. Em Cristo, não há pessoas inferiores ou superiores. Não existem senão os membros de um único corpo, que querem a felicidade uns dos outros e desejam construir um mundo hospitaleiro para todos. Mediante gestos de solicitude e através da nossa participação activa na vida social, testemunhamos perante o nosso próximo que desejamos ajudá-lo a tornar-se ele mesmo e a dar o melhor de si próprio, para a sua promoção pessoal e para o bem de toda a comunidade humana. A fraternidade exclui a vontade da potência e o serviço elimina a tentação ao poder.

Prezados jovens, trazeis em vós mesmos capacidades extraordinárias de dom, de amor e de solidariedade. O Senhor quer reavivar esta imensa generosidade que anima o vosso coração. Convido- vos a ir beber na fonte da vida que é Cristo, a fim de inventardes todos os dias os meios para servir os vossos irmãos no seio da sociedade em que vos compete assumir as vossas responsabilidades de homens e de fiéis. A humanidade tem necessidade de vós nos campos sociais, científicos e técnicos. Procurai aperfeiçoar incessantemente as vossas qualificações profissionais, a fim de exercerdes a vossa profissão com competência e, ao mesmo tempo, não negligencieis o aprofundamento da vossa fé, que há-de iluminar todas as decisões que tereis de tomar em vista do bem dos irmãos, na vossa vida pessoal e no vosso trabalho. Enquanto quereis ser reconhecidos pelas vossas qualidades profissionais, como não havereis também o desejo de crescer na vida interior, manancial de todo o dinamismo humano?

5. O amor e o serviço dão sentido à nossa vida, tornando-a bela, pois sabemos porque e por quem nos empenhamos. É em nome de Cristo que foi o primeiro a amar-nos e a servir-nos. O que há de mais importante do que estarmos consciente do facto que somos amados Como deixar de responder com júbilo à expectativa do Senhor? O amor é o testemunho por excelência que abre à esperança. O serviço aos irmãos transfigura a existência; manifesta que a esperança e a vida fraterna são mais vigorosas que toda a tentação ao desespero. O amor pode triunfar em todas as circunstâncias.

Desconcertado pelo gesto humilde de Jesus, Pedro diz-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?», «Tu nunca vais lavar-me os pés!» (Jo 13, 6.Cool. Assim como ele, também nós precisamos de algum tempo para compreender o mistério da salvação e às vezes recusamo-nos a percorrer o caminho estreito do amor.

Só quem se deixa amar pode, por sua vez, amar. Pedro permitiu que o Senhor lhe lavasse os pés. Deixou-se amar e só então compreendeu. Queridos jovens, fazei a experiência do amor de Cristo: tomareis consciência daquilo que Ele fez por vós e então havereis de compreender. Somente quem vive em intimidade com o seu Mestre pode imitá-Lo.

 Quem se nutre do Corpo de Cristo encontra a força do gesto fraterno. Assim, entre Cristo e o Seu discípulo entretece-se um relacionamento de proximidade e união, que transforma profundamente o ser, para dele fazer um servo. Estimados jovens, chegais a perguntar-vos como servir a Cristo. No lava-pés, encontrais a via real para alcançar Cristo, imitando-O e descobrindo-O nos vossos irmãos.

6. Mediante o vosso apostolado, propondes aos vossos irmãos o Evangelho da caridade. Lá onde o testemunho da palavra é difícil ou impossível, em um mundo que não o aceita, através da vossa atitude tornais presente Cristo servo, pois a vossa acção está em consonância com o ensinamento d’Aquele a Quem vós anunciais. Trata-se de uma forma eminente de profissão da fé, que foi praticada com humildade e perseverança pelos santos. É um modo de significar que é possível sacrificar tudo à verdade do Evangelho e ao amor dos próprios irmãos, como Cristo o fez. Ao conformarmos a nossa vida com a Sua, vivendo como Ele no amor, adquirimos a verdadeira liberdade para respondermos à nossa vocação. Isto às vezes pode exigir o heroísmo moral, que consiste em empenhar-se com coragem no seguimento de Cristo, com a certeza de que o Mestre nos indica o caminho da felicidade. É somente em nome de Cristo que se pode ir até ao extremo do amor, no dom e no desapego.

Caríssimos jovens, a Igreja tem confiança em vós. Conta convosco para serdes testemunhas do Ressuscitado durante a vossa vida inteira. Agora ireis aos lugares onde se hão-de realizar as diversas vigílias. Festivamente ou em meditação, dirigi o vosso olhar para Cristo, a fim de penetrardes no sentido da mensagem divina e encontrardes a força para a missão que o Senhor vos confia no mundo, quer esta seja num compromisso de leigo, quer na vida consagrada. Vivendo assim a vossa existência quotidiana, com lucidez e esperança, mas sem tristeza nem desencorajamento, partilhando as vossas experiências, haveis de perceber a presença de Deus, que vos acompanha com docilidade.

À luz da vida dos santos e de outras testemunhas do Evangelho, ajudai-vos uns aos outros a confirmar a própria fé e a ser os apóstolos do ano 2000, recordando ao mundo que o Senhor nos convida à Sua alegria e que a verdadeira felicidade consiste em dar-se por amor dos irmãos! Oferecei a vossa contribuição à vida da Igreja, que tem necessidade da vossa juventude e do vosso dinamismo. [...]

11*Doravante já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para ti. Pai santo, Tu que a mim te deste, guarda-os em ti, para serem um só, como Nós somosExcalmação 12 Enquanto estava com eles, Eu guardava-os em ti, em ti que a mim te deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o homem da perdição, cumprindo-se desse modo a Escritura. 13*Mas agora vou para ti e, ainda no mundo, digo isto para que eles tenham em si a plenitude da minha alegria. 14 Entreguei-lhes a tua palavra, e o mundo odiou-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. 15*Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno. 16 De facto, eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.

17*Faz que eles sejam teus inteiramente, por meio da Verdade; a Verdade é a tua palavra. 18 Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo, 19 e por eles totalmente me entrego, para que também eles fiquem a ser teus inteiramente, por meio da Verdade.

20*Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, 21para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste

[...]26* Eu dei-lhes a conhecer quem Tu és e continuarei a dar-te a conhecer, a fim de que o amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também.» (Jo 17)
« Última modificação: 07 de Abril de 2007, 01:24 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #20 em: 06 de Abril de 2007, 00:12 »

«Vigiai e orai,
para não cederdes à tentação o espírito está cheio de ardor mas a carne é fraca»

Saiu então, e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. Quando chegou ao local, disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação». Depois afastou-Se bruscamente deles até à distância de um tiro de pedra, aproximadamente; e, posto de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava. Cheio de angústia, pôs-Se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caiam na terra. Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos, encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: «Por que dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação». ( Lc 22, 39-46)

«Preso pela angústia, orava mais intensamente»


[...]Um eminente exegeta católico, Raymond Rown, que soube conjugar de forma exemplar rigor científico e sensibilidade espiritual no estudo da Bíblia, resume assim o conteúdo do episódio inicial da Paixão:

«Jesus que se separa de seus discípulos, a angústia de sua alma ao rogar que o cálice afastasse dele, a amorosa resposta do Pai que envia um anjo para sustentá-lo, a solidão do Mestre que três vezes encontra seus discípulos dormindo em lugar de orar com ele, o valor expressado na resolução final de ir ao encontro do traidor: tomada dos diversos Evangelhos, esta combinação de dor humana, apoio divino e oferecimento solitário de si contribuiu muito a fazer que os crentes em Jesus o amem, convertendo-se em objeto de arte de meditação».

O núcleo originário em torno ao qual se desenvolveu toda a cena de Getsemani parece ter sido o da oração de Jesus. A lembrança de uma luta de Jesus na oração ante a iminência de sua Paixão funde suas raízes em uma tradição antiqüíssima, da qual dependem tanto Marcos como as outras fontes, e é neste aspecto sobre o qual desejamos refletir na presente meditação.

Os gestos que ele faz são os de uma pessoa que se debate em uma angústia mortal: «cai em terra», levanta-se para ir onde seus discípulos, volta a ajoelhar-se, depois se levanta de novo... sua como gotas de sangue (Lc 22, 44). De seus lábios sai a súplica: «Aba, Pai!; tudo é possível para ti; aparta de mim este cálice» (Mc 14, 36). A «violência» da oração de Jesus na iminência de sua morte destaca-se sobretudo na Carta aos Hebreus, na qual se diz que Cristo, «nos dias de sua vida mortal, ofereceu rogos e súplicas com poderoso clamor e lágrimas ao que podia salvá-lo da morte» (Hb 5, 7).

Jesus está só, ante a perspectiva de uma dor enorme que está a ponto de cair sobre ele. A «hora» esperada e temida do combate final com as forças do mal, da grande prova (peirasmos), chegou. Mas a causa de sua angústia é mais profunda ainda: ele se sente encarregado de todo o mal e das indignidades do mundo. Ele não cometeu este mal, mas é o mesmo, porque o assumiu livremente: «Ele levou nossos pecados em seu corpo» (1 Pedro 2, 24), isto é (segundo o sentido que esta palavra tem na Bíblia), em sua própria pessoa, alma, corpo e coração. Jesus é o homem «feito pecado», diz São Paulo (2 Cor 5, 21).

3. Duas formas distintas de lutar com Deus

Para tirar todo pretexto à heresia ariana, alguns antigos Padres explicaram o episódio do Getsemani em chave pedagógica com a idéia da «concessão» (dispensatio): Jesus não experimentou verdadeiramente angústia e pavor, só quis ensinar-nos como vencer com a oração nossas resistências humanas. No Getsemani, escreve São Hilário de Poitiers, «Cristo não está triste por si e não roga por si, mas por aqueles a quem adverte de que orem com atenção, para que não caia sobre eles o cálice da paixão».

Depois de Calcedônia, já não se sente a necessidade de recorrer a esta explicação. Jesus no Getsemani não reza só para exortar-nos a que o façamos. Porque, sendo verdadeiro homem, «em todo semelhante a nós, menos no pecado», experimenta nossa mesma luta frente ao que repugna à natureza humana.

Mas ainda que o Getsemani explique-se então só com a intenção pedagógica, é certo que tal preocupação estava presente na mente dos evangelistas que nos transmitiram o episódio, e é importante para nós recolhê-la. Não se pode separar, nos Evangelhos, a narração do fato do chamado à imitação. «Cristo sofreu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais suas marcas», diz a Carta de Pedro (1 Ped 2, 21).

A palavra «agonia» dita de Jesus no Getsemani (Lc 22, 44) deve ser entendida no sentido originário de luta, mais que no atual de agonia. Chega o tempo em que a oração transforma-se em combate, fadiga, agonia. Não falo, neste momento, da luta contra as distrações, ou seja, da luta conosco mesmos; falo da luta com Deus. Isto ocorre quando Deus te pede algo que tua natureza não está pronta para dar-lhe e quando a ação de Deus se faz incompreensível e desconcertante.

A Bíblia apresenta outro caso de luta com Deus na oração e é muito instrutivo comparar entre si os dois episódios. Trata-se do combate de Jacó com Deus (Gn 32, 23-33). Também o cenário é muito parecido. O combate de Jacó desenvolve-se de noite, num cenário similar --Ybboq--, e igualmente o de Jesus acontece de noite, ao lado da torrente Cedrón. Jacó afasta de si escravos, esposas e filhos para ficar só, Jesus afasta-se também dos últimos três discípulos para orar.

Mas por que Jacó luta com Deus? Aqui está a grande lição que devemos aprender. «Não te solto --diz-- até que não me tenhas abençoado», ou seja, até que não faças o que te peço. E ainda: «Diga-me teu nome». Está convencido de que, usando o poder que dá a conhecer o nome de Deus, poderá prevalecer sobre seu irmão Labão, que o segue. Deus o abençoa, mas não lhe revela seu nome.

Jacó luta portanto para pregar a Deus a sua vontade, Jesus luta para orar sua vontade humana a Deus. Luta porque «o espírito está pronto, mas a carne é fraca» (Mc 14, 38). Surge espontaneamente perguntar-se: a quem nos parecemos nós, quando oramos em situações de dificuldade? Parecemos com Jacó, o homem do Antigo Testamento, quando, na oração, lutamos para induzir Deus a que mude de decisão, mais que para mudar nós mesmos e aceitar sua vontade; para que nos tire essa cruz, mais que para ser capazes de levá-la com ele. Parecemos a Jesus se, ainda entre os gemidos e a carne que sua sangue, buscamos abandonar-nos à vontade do Pai. Os resultados das duas orações são muito diferentes. A Jacó Deus não lhe dá seu nome, mas a Jesus lhe dará o nome que está sobre todo nome (Flp 2, 11).

Às vezes, perseverando neste tipo de oração, sucede algo estranho que é bom conhecer para não perder uma ocasião preciosa. As partes se invertem: Deus se converte em quem roga e tu naquele a quem se roga. Tu te pões a rezar para pedir algo a Deus e, uma vez em oração, dás-te conta pouco a pouco de que é ele, Deus, quem estende sua mão para ti pedindo-te algo. Foste pedir-lhe que te tirasse aquele espinho da carne, aquela cruz, aquela prova, que te livrasse dessa função, daquela situação, da proximidade daquela pessoa... e eis aqui que Deus te pede precisamente que aceites essa cruz, essa situação, essa função, a essa pessoa.

Uma poesia de Tagore ajuda a entender de que se trata. É um mendigo quem fala e relata sua experiência. Diz mais ou menos assim: Estava pedindo de porta em porta pela rua da cidade, quando desde longe apareceu uma carroça de ouro. Era a do filho do Rei. Pensei: esta é a ocasião de minha vida; e me sentei abrindo bem o saco, esperando que se me desse esmola sem ter que pedir-lhe sequer; mais ainda, que as riquezas chovessem até o solo a meu redor. Mas qual não foi minha surpresa quando, ao chegar junto a mim, a carroça se deteve, o filho do Rei descendeu e estendendo sua mão me disse: «Podes dar-me alguma coisa?». Que gesto o de tua realeza, estender tua mão!... Confuso e duvidoso tomei do saco um grão de arroz, um só, o menor e o dei. Mas que tristeza quando, pela tarde rebuscando em meu saco, encontrei um grão de ouro, só um, o menor. Chorei amargamente por não ter tido o valor de dar tudo.

O caso mais sublime desta inversão das partes é precisamente a oração de Jesus no Getsemani. Ele roga que o Pai afaste dele o cálice, e o Pai lhe pede que o beba para a salvação do mundo. Jesus dá não uma, mas todas as gotas de seu sangue, e o Pai lhe recompensa constituindo-o, também como homem, Senhor, de modo que «uma só gota desse sangue basta para salvar o mundo inteiro» (una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere).

4. «Preso em angústia, orava mais intensamente»

Estas palavras foram escritas pelo evangelista Lucas (22, 44) com uma clara intenção pastoral: mostrar à Igreja de seu tempo, submetida também já a situações de luta e de perseguição, o que ensinou a fazer o mestre em tais apuros.

A vida humana está semeada de muitas pequenas noites de Getsemani. As causas podem ser numerosas e distintas: uma ameaça que se perfila para nossa saúde, uma incompreensão do ambiente, a indiferença de quem temos perto, o temor às conseqüências de algum erro cometido. Mas pode ter causas mais profundas: a perda do sentido de Deus, a consciência do próprio pecado e indignidade, a impressão de ter perdido a fé. Em resumo, o que os santos chamaram «a noite escura do espírito».

Jesus nos ensina o que é o primeiro que há que fazer nestes casos: recorrer a Deus com a oração. Não há que se enganar: é verdade que Jesus no Getsemani busca também a companhia de seus amigos, mas por que a busca? Não para que lhe digam palavras boas ou para que se consolem. Pede que o acompanhem na oração, que rezem com ele: «Com que não haveis podido velar comigo nem sequer uma hora? Velai e orai» (Mt 26, 40).

É importante observar como começa a oração de Jesus no Getsemani, na fonte mais antiga, que é Marcos: «Abbá, Pai!; tudo é possível para ti» (Mc 14, 36). O filósofo Kiekegaard faz ao respeito reflexões iluminadoras. Diz: «A questão decisiva é que para Deus tudo é possível». O homem cai no verdadeiro desespero só quando já não tem ante si possibilidade alguma, nenhuma tarefa, quando, como se diz, não há nada que fazer. «Quando se desvanece, vai a busca de água de Colônia, gotas de Hoffmann; mas quando se desespera, há que dizer: “Achai uma possibilidade, achai uma possibilidade!”. A possibilidade é o único remédio; dai-lhe uma possibilidade e o desesperado recobra as vontades, reanima-se, porque se o homem fica sem possibilidade é como se lhe faltasse o ar. Às vezes inventivo de uma fantasia humana pode bastar para encontrar uma possibilidade; mas ao final, quando se trata de crer, só serve isto: que para Deus tudo é possível».

Esta possibilidade sempre ao alcance da mão para um crente é a oração. «Orar é como respirar». E se já se orou sem êxito? Orar mais! Orar prolixius, com maior insistência. Poder-se-á objetar que, contudo, Jesus não foi escutado, mas a Carta aos Hebreus diz exatamente o contrário: «foi escutado por sua perda». Lucas expressa esta ajuda interior que Jesus recebeu do Pai com o detalhe do anjo: «Então, se lhe apareceu um anjo vindo do céu que o confortava» (Lc 22, 43). Mas trata-se de uma antecipação. A verdadeira grande escuta do Pai foi a ressurreição.

Deus, observava Agostinho, escuta ainda quando... não escuta, isto é, quando não obtemos o que estamos pedindo. Seu atraso em atender é já uma escuta, para poder nos dar mais do que pedimos. Se apesar de tudo seguimos orando é sinal de que nos está dando sua graça. Se Jesus ao final da cena pronuncia seu resoluto: «Levantai-vos! Vamos!» (Mt 26, 46), é porque o Pai lhe deu mais que «doze legiões de anjos» para defendê-lo. «Inspirou-o, diz São Tomás, a vontade de sofrer por nós, infundindo-lhe o amor».

A capacidade de orar é nosso grande recurso. Muitos cristãos, inclusive verdadeiramente comprometidos, experimentam sua importância ante as tentações e a impossibilidade de adaptar-se às altíssimas exigências da moral evangélica e concluem, às vezes, que não podem e que é impossível viver integralmente a vida cristã. Em certo sentido têm razão. É impossível, com efeito, por si só, evitar o pecado; necessita-se da graça; mas também a graça é gratuita e não se pode merecer. O que fazer então: desesperar-se, render-se? Diz o Concílio de Trento: «Deus, dando-te a graça, te manda fazer o que podes e pedir o que não podes».

A diferença entre a lei e a graça consiste precisamente nisto: na lei Deus diz ao homem: «Faz o que te mando!»; na graça, o homem diz a Deus: «Dai-me o que me mandas!». A lei manda, a graça demanda. Uma vez descoberto este segredo, Agostinho, que até então havia lutado inutilmente para ser casto, mudou de método, e mais que lutar com seu corpo começou a lutar com Deus. Disse: «Oh Deus, tu me mandas que seja casto; pois bem, dai-me o que mandas e manda-me o que queiras!». E sabemos que obteve a castidade!

Jesus deu por adiantado a seus discípulos o meio e as palavras para unir-se a ele na prova, o Pai Nosso, não há estado de ânimo que não se reflete no «Pai Nosso» e que não encontre nele a possibilidade de traduzir-se em oração: o gozo, o louvor, a adoração, a ação de graças, o arrependimento. Mas o «Pai Nosso» e sobretudo a oração da hora da prova. Há uma semelhança entre a oração que Jesus deixou a seus discípulos e a que ele mesmo elevou ao Pai no Getsemani. Ele nos deixou, na realidade, sua oração.

A oração de Jesus começa como o Pai Nosso, com o grito: «Abba, Pai!» (Mc 14, 36), ou «Pai meu» (Mt 26, 39); prossegue, como o Pai Nosso, pedindo que se faça sua vontade; pede que passe dele este cálice, como no Pai Nosso pedimos ser «livrados do mal»; diz a seus discípulos que rezem para não cair em tentação e nos faz concluir o Pai Nosso com as palavras: «Não nos deixes cair em tentação».

Que consolo, na hora da prova e da escuridão, saber que o Espírito Santo segue em nós a oração de Jesus no Getsemani, que os «gemidos inenarráveis» com o qual o Espírito intercede por nós, nesses momentos, chegam ao Pai mesclados com os «rogos e súplicas com poderoso clamor e lágrimas» que o Filho lhe elevou ao sobrevir «sua hora»! (Hb 5, 7).

5. Em agonia até o fim do mundo

Devemos recolher um último ensinamento antes de despedir-nos de Jesus do Getsemani. São Leão Magno diz que «a paixão se prolonga até o fim dos séculos». Faz-lhe eco o filósofo Pascal na célebre meditação sobre a agonia de Jesus:

«Cristo estará em agonia até o fim do mundo. Durante este tempo não há que dormir.
Eu pensava em ti em minha agonia: essas gotas de sangue as derramei por ti.
Queres custar-me sempre sangue de minha humanidade, sem que tu derrames uma lágrima?
Eu sou mais amigo teu que tal qual, porque fiz por ti mais que eles, e eles não sofrerão jamais o que sofri por ti, nunca morrerão por ti no momento de tua infidelidade e de tuas crueldades, como fiz eu e estou disposto a fazer em meus eleitos e no Santo Sacramento».

Tudo isto não é um simples modo de falar ou uma constrição psicológica, corresponde misteriosamente à verdade. No Espírito, Jesus está também agora no Getsemani, no pretório, na cruz. E não só em seu corpo místico --em quem sofre, é apressado ou assassinado--, mas, de uma forma que não podemos explicar, também em sua pessoa. Isto é verdade não «apesar de» sua ressurreição, mas precisamente «por causa» da ressurreição que fez ao Crucificado «vivo nos séculos». O Apocalipse nos apresenta o Cordeiro no céu «em pé», ou seja ressuscitado e vivo, mas com os sinais ainda visíveis de sua imolação (Ap 5, 6).

O lugar privilegiado onde podemos encontrar este Jesus «em agonia até o fim do mundo» é a Eucaristia. Jesus a instituiu imediatamente antes de ir ao Horto das Oliveiras para que seus discípulos pudessem, em toda época, fazer-se «contemporâneo» de sua Paixão. Se o Espírito nos inspira o desejo de estar uma hora ao lado de Jesus no Getsemani esta Quaresma, a forma mais simples de levá-lo a cabo é passar, na tarde de quinta-feira, uma hora ante o Santíssimo Sacramento.

Isto não deve, evidentemente, fazer-nos esquecer o outro modo em que Cristo «está em agonia até o fim do mundo», isto é, nos membros de seu corpo místico. E mais, se queremos concretizar nossos sentimentos para com ele, o caminho obrigatório é precisamente fazer a algum deles o que não podemos fazer com ele que está na glória.

A palavra Getsemani se converteu no símbolo de toda dor moral. Jesus ainda não sofreu em sua carne; sua dor é do todo interior, e contudo não sua sangue mais que aqui, quando é seu coração, não ainda sua carne, o que é sufocado. O mundo é muito sensível às dores corporais, comove-se facilmente por elas; muito menos ante as dores morais, das quais às vezes até se burla tomando por hipersensibilidade, auto-sugestão, caprichos.

Deus toma muito a sério a dor do coração e assim deveríamos fazer também nós. Penso em quem vê quebrado o laço mais forte que tinha na vida e se encontra só (mais freqüentemente só); em quem é traído nos afetos, está angustiado ante algo que ameaça sua vida ou a de um ser querido; em quem, injustamente ou com razão (não há muita diferença desde este ponto de vista), vê-se assinalado, de um dia para outro, no escárnio público. Quantos Getsemani escondidos no mundo, talvez sob nosso mesmo teto, na porta do lado, ou na mesa de trabalho do lado! É tarefa nossa identificar alguém nesta Quaresma e fazer-nos próximos a quem se encontra ali.

Que Jesus não tenha que dizer entre estes seus membros: «Espero compaixão, e não há, consoladores, e não encontro nenhum» (Salmo 68, 21), mas que possa, ao contrário, fazer-nos sentir no coração a palavra que recompensa tudo: «A mim o fizeste».[/color]

Fr. Raniero Cantalamessa, 17/03/2006

Estava Ele ainda a falar quando surgiu uma multidão de gente, precedendo-os um dos doze, o chamado Judas, que caminhava à frente, e aproximou-se de Jesus para O beijar. Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?» Vendo aqueles que O cercavam o que ia suceder, perguntaram-lhe: «Senhor, ferimo-los à espada?» E um deles feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio, dizendo: «Já basta, deixai-os». E, tocando na orelha, curou-o. Depois, disse aos que tinham vindo contra Ele, aos príncipes dos sacerdotes, aos oficiais do Templo e aos anciãos: «Vós saístes com espadas e varapaus, como se fôsseis ao encontro dum salteador? Estando Eu todos os dias convosco no Templo, não Me deitastes as mãos; mas esta é a vossa hora e o domínio das trevas». (Lc 22, 47-53)

Porém, a cena do Getsémani movimenta-se: ao quadro precedente, íntimo e silencioso da oração se opõe agora, sob as oliveiras, o estrondo, o tumulto e até mesmo a violência. Jesus se ergue, sempre no centro como um ponto fixo. Ele está consciente do mal que envolve a história humana com o seu sudário de prepotência, de agressão, de brutalidade: «Esta é a vossa hora e o domínio das trevas».  
« Última modificação: 06 de Abril de 2007, 00:36 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #21 em: 06 de Abril de 2007, 00:47 »

6.ª Feira Santa

VIA-SACRA NO COLISEU (2007),
Presidida pelo Santo Padre Bento XV


MEDITAÇÕES DE  Mons. GIANFRANCO RAVASI
Prefeito da Biblioteca-Pinacoteca Ambrosiana  de Milão

 

APRESENTAÇÃO

Era o final de uma manhã de primavera entre os anos 30 e 33 da nossa época. Numa estrada de Jerusalém – que nos séculos sucessivos receberia o nome emblemático de «Via Dolorosa» - acontecia um pequeno cortejo: um condenado à morte, escoltado por uma divisão do exército romano, se encaminhava, trazendo o patibulum, ou seja, o braço transversal da cruz cuja haste principal já estava colocada no alto, entre as pedras de um pequeno promontório rochoso chamado em aramaico Gólgota e em latim Calvário, isto é, «crânio».

Esta era a última etapa de uma história conhecida por todos, em cujo centro se destaca a figura de Jesus Cristo, o homem crucificado e humilhado e o Senhor ressuscitado e glorioso. Uma história iniciada no silêncio profundo da noite precedente, junto das oliveiras de um jardim denominado Getsémani, isto é «lagar para as azeitonas». Uma história que se desenrolou de modo acelerado nos palácios do poder religioso e político e que se concluiu por uma condenação à pena capital. Até mesmo a sepultura, oferecida generosamente por um proprietário chamado José de Arimateia, que não teria concluído a vicissitude daquele condenado, como aconteceu para tantos corpos martirizados no cruel suplício da crucifixão, destinado pelos romanos ao julgamento dos revolucionários e dos escravos.

Teria havido uma etapa posterior, surpreendente e inesperada: aquele condenado, Jesus de Nazaré, revelou de modo fulgurante uma outra sua natureza sob o perfil do seu rosto e do seu corpo de homem, o ser Filho de Deus. A cruz e a sepultura não foram o destino final daquela história, mas sim a luz da sua ressurreição e da sua glória. Como cantaria poucos anos depois o apóstolo Paulo, aquele que se despojou do seu poder, tornando-se impotente e fraco como os homens e humilhando-se até à morte infame por crucifixão, foi exaltado pelo Pai divino que o tinha constituído Senhor da terra e do céu, da história e da eternidade (cf. Carta aos Filipenses 2, 6-11).

Durante séculos os cristãos desejaram percorrer novamente as etapas dessa Via Crucis, um itinerário rumo à colina da crucificação mas com o olhar voltado para a última meta, a luz pascal. Fizeram-no como peregrinos naquela mesma estrada de Jerusalém, mas igualmente nas suas cidades, nas suas igrejas e nas suas casas. Durante séculos escritores e artistas, famosos ou desconhecidos procuraram fazer reviver diante dos olhos estarrecidos e comovidos dos fiéis, as etapas ou «estações», verdadeiras pausas meditativas no caminho para o Gólgota. Surgiram assim imagens ora poderosas, ora simples, altivas e populares, dramáticas e ingênuas.

Também em Roma, guiada pelo seu Bispo, o Papa Bento XVI, com toda a cristandade presente no mundo unida ao seu pastor universal, em cada Sexta-feira Santa realiza-se aquela viagem do espírito seguindo as pegadas de Jesus Cristo.

Este ano, as reflexões – de modo narrativo-meditativo –, destinadas a proclamar em cada parada orante, seguindo a trama da narração da Paixão segundo o Evangelista Lucas, serão propostas por um biblista, Mons. Gianfranco Ravasi, Prefeito da Biblioteca-Pinacoteca Ambrosiana de Milão, instituição cultural fundada há quatro séculos pelo Cardeal Federico Borromeo, Arcebispo daquela cidade e primo de São Carlos, o qual teve, há um século atrás, entre os seus Prefeitos Achille Ratti, o futuro Papa Pio XI.

Iniciemos agora, ao longo deste itinerário na oração, não por uma simples memória histórica de um evento passado e de um defunto, mas, para viver a realidade áspera e crua de um acontecimento aberto à esperança, à alegria, à salvação. Connosco, caminharão talvez aqueles que ainda estão na busca, progredindo na inquietude das suas interrogações. E enquanto seguirmos, de etapa em etapa, este caminho de dor e de luz, ressoarão as palavras vibrantes do apóstolo Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Mas sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Cor 15, 54-55.57).

ORAÇÃO INICIAL

O Santo Padre:
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

R/. Amém.

Irmãos e irmãs,
As sombras noturnas desceram sobre Roma
como naquela noite sobre as casas e jardins de Jerusalém.
Também nós nos aproximaremos das oliveiras do Getsémani
e começaremos a seguir os passos de Jesus de Nazaré
nas últimas horas da sua vida terrena.

Será uma viagem na dor, na solidão, na crueldade,
no mal e na morte.
Mas, será igualmente um percurso na fé, na esperança e no amor,
pois a sepultura da última etapa do nosso caminho
não permanecerá selada para sempre.
Passadas as sombras,
na alvorada da Páscoa, levantar-se-á a luz da alegria,
o silêncio será substituído pela palavra de vida,
à morte sucederá a glória da ressurreição.

Rezemos, portanto,
entrelaçando as nossas palavras
com aquelas de uma antiga voz do Oriente cristão.

Senhor Jesus
concedei-nos as lágrimas que no momento não possuímos,
para lavar os nossos pecados.
Dai-nos a coragem de suplicar a vossa misericórdia.
No dia do último juízo,
arrancai as páginas que enumeram os nossos pecados
e fazei que não existam mais (1).

Senhor Jesus,
vós repetis também para nós, nesta noite,
as palavras que um dia dissestes a Pedro:
«Segue-me».
Obedecendo ao vosso convite,
queremos seguir-vos, passo a passo,
no caminho da vossa Paixão,
para também nós aprendermos
a pensar segundo Deus
e não segundo os homens.
Amém.

(1) Nil Sorkij (1433-1580), da Orazione Penitenziale.

INDICE
do Percurso das Estações da Via Sacra
( respectivas meditações e orações)

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« Responder #22 em: 06 de Abril de 2007, 17:51 »

«A Grande Sexta-Feira Santa»



Hão-de olhar para Aquele que trespassaram (Jo 20, 37)

Da luz da grande Quinta-feira passamos às trevas da Sexta-feira, o dia da Paixão do Cristo, de sua morte e de sua sepultura.

A Igreja primitiva chamava a este dia "A Páscoa da Cruz," porque ele é de fato o começo desta Páscoa ou Passagem cujo sentido nos será revelado progressivamente; primeiro na paz do grande e santo Sabbat, depois na alegria do dia da Ressurreição.

Mas antes, as trevas.Se ao menos pudéssemos realizar que as trevas da Sexta-feira Santa não são puramente simbólicas e comemorativas!

É muito freqüentemente com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios.

Há dois mil anos, sim, homens "maus" mataram o Cristo, mas hoje nós "o bom povo cristão" levantamos suntuosos túmulos em nossas igrejas; não é esta a prova da nossa justiça?

E no entanto, a Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado.

 É o dia do Pecado, o dia do Mal, o dia no qual a Igreja nos ensina a aprender a terrível realidade do pecado e seu poder no mundo. Pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida.

Nós que nos dizemos cristãos não entramos freqüentemente nesta lógica do mal que conduziu o Sinédrio e Pilatos, os soldados romanos e toda a multidão a detestar, torturar e matar o Cristo?

De que lado nós teríamos ficado
 se tivéssemos vivido em Jerusalém no tempo de Pilatos?


Esta é a pergunta que nos é feita por cada uma das palavras do ofício de Sexta-feira Santa.

É de fato "o dia deste mundo," de sua condenação real e não somente simbólica, e do julgamento real e não somente ritual, de nossa vida. . .

É a revelação da verdadeira natureza do mundo que preferiu então e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida.

 E condenando o Cristo à morte "este mundo" condenou-se a si mesmo à morte, e na medida em que aceitamos seu espírito, seu pecado e sua traição a Deus, estamos também condenados. . . Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte...

No entanto, este dia do Mal cuja manifestação e triunfo estão em seu paroxismo, é também o dia da Redenção. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte salvífica para nós e para nossa salvação.

Ela é uma morte salvífica porque é o supremo e perfeito sacrifício.

O Cristo dá sua morte a seu Pai e no-la dá também. Ele a dá a seu Pai porque não há outro meio de destruí-la e libertar os homens dela; ora, é a vontade do Pai que os homens sejam salvos da morte.

O Cristo nos dá sua morte
porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre.


A morte é o fruto natural do pecado, um castigo iminente. O homem escolheu não mais estar em comunhão com Deus, porém como ele não tem a vida nele mesmo e por ele mesmo, morre.

Em Jesus Cristo, entretanto, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer; Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim.

Ele aceita o castigo de nossa natureza, exatamente como assumiu o fardo inerente à natureza humana. Ele morre porque se identifica verdadeiramente conosco, tomou sobre si a tragédia da vida do homem.

 Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. E porque sua morte é amor, compaixão e co-sofrimento, nela a própria natureza da morte foi mudada.

Ela não é mais um castigo, mas um esplendoroso ato de amor e de perdão, o termo de toda ausência de comunhão e de toda solidão. A condenação é transformada em perdão.

Enfim, a morte do Cristo é uma morte salvífica porque destrói a própria fonte da morte: o mal.

Aceitando-a por amor, entregando-se a seus carrascos e permitindo-lhes uma vitória aparente, o Cristo manifesta que em realidade esta vitória é a derrota decisiva e total do mal.

Com efeito, para ser vitorioso, o pecado deve aniquilar o bem, deve provar que ele é toda a realidade da vida, arruinar o bem e, numa palavra, mostrar sua própria superioridade; mas ao longo de sua Paixão, é o Cristo e somente ele que triunfa.

O mal nada pode contra ele pois que não pode levar o Cristo a aceitar o mal como verdade. A hipocrisia se revela hipocrisia, o assassinato, assassinato, e o medo, medo.

E enquanto o Cristo avança silenciosamente para a Cruz e para seu fim, quando a tragédia humana está em seu apogeu, seu triunfo, sua vitória sobre o mal e sua glorificação aparecem progressivamente em luz plena.

A cada passo esta vitória é reconhecida, confessada, proclamada:
pela mulher de Pilatos, por José, pelo bom ladrão, pelo centurião.


Quando ele morre na cruz, tendo aceito o supremo horror da morte, a solidão absoluta (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?)" não resta senão confessar:

"Verdadeiramente este homem era o filho de Deus!"


Assim esta morte, este amor e esta obediência, esta plenitude de vida destroem aquilo que faz da morte o destino universal. "E os túmulos foram abertos" (Mt. 27:52). Já aparecem os primeiros clarões da Ressurreição...

Este é o duplo mistério desta grande Sexta-feira; os ofícios deste dia no-lo mostram e nos fazem participar dele.

De um lado, eles insistem constantemente sobre a Paixão do Cristo enquanto pecado de todos os pecados, crime de todos os crimes. Nas matinas, as doze leituras do relato da Paixão nos fazem seguir passo a passo o Cristo em seus sofrimentos; nas Horas (que substituem a divina Liturgia, pois a interdição de celebrar a Eucaristia neste dia significa que o sacramento da presença do Cristo não pertence "à esta criação" de pecado e de trevas, mas que ele é o sacramento do "mundo que há de vir"); na véspera, enfim, o ofício da descida da Cruz, as leituras e os hinos estão cheios de solenes acusações contra aqueles que voluntária e livremente decidiram matar o Cristo justificando seu crime em nome de sua religião, de sua lealdade política, de suas considerações práticas e de sua obediência profissional.

Por outro lado, encontramos desde o começo do ofício o segundo aspecto do mistério deste dia: o do sacrifício de amor que prepara a vitória final. Desde a primeira leitura do Evangelho, onde ressoa a advertência solene do Cristo: "Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele," até aos Stycherons do final da Véspera, a luz se faz cada vez mais viva e, ao mesmo tempo, crescem a esperança e a certeza de que a morte será vencida pela morte: "'Ó tu, Redentor de todos, quando foste colocado num túmulo novo para todos os homens, o Hades que não respeita ninguém, te viu e tremeu de medo. As trancas foram quebradas, as portas se abriram, os mortos levantaram-se. Então Adão, exultante de reconhecimento, gritou a Ti: "Glória à tua condescendência, ó tu misericordioso!"

E quando no final da Véspera, a imagem do Cristo no túmulo é colocada no centro da igreja, quando este longo dia chega a seu fim, sabemos que a longa história da salvação e da redenção chega também a seu fim. O sétimo dia, o do repouso, o Sabbat abençoado desponta e, com ele, a revelação do túmulo que dá vida...
______________________

Fonte:

O Mistério Pascal - Comentários Litúrgicos
Alexandre Schmémann, Olivier Clément

Encontrado em:
www. ecclesia.com. br
______________________


Recordemos que Quaresma, graças a este momento glorioso na Cruz, é momento de perdão - Meditemos com algumas imagens colocadas neste Forum

Recordemos que para chegar ao Domingo festivo do grito jubiloso desse Aleluia silenciado ao longo deste periodo quaresmal, a Igreja recorda que é necessário acompanhar os ultimos momentos de Cristo:

uma entrevista intitulada O Tríduo Pascal do Cónego Luís Manuel Pereira da Silva (pároco da Sé de Lisboa e director do Departamento de Liturgia) ao Semanário Voz da Verdade, sobre a celebração da Páscoa de Jesus datada de 14/04/2006

No dia de Sexta-feira Santa...

algumas orientações liturgicas  para ajudar a compreender melhor a vivência deste dia no seio da Igreja sobre a  Celebração da Paixão de Cristo

uma homilia de Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia,  para a celebração da Paixão do Senhor (Sexta-feira Santa, 14 de Abril de 2006)

A Procissão do Senhor Morto/ Procissão do enterro do Senhor (Celebração Popular)

Essa celebração dramática acontece na Sexta feira Santa. Prepara-se um Calvário, com o Senhor crucificado, acompanhado de algumas figuras bíblicas.

Em geral, aparecem a figura de Maria, Mãe de Jesus, caracterizada com o a Senhora das Dores. Tem-se o costume de se colocar Maria Madalena, Verônica, São João apóstolo e outros.

O pregador representa de forma dramática a Morte de Jesus, fazendo alusão às suas 7 últimas palavras. Algumas personagens, representando os discípulos, ajudam a tirar o crucificado da cruz, após a pregação que o sacerdote faz para cada gesto da descida da cruz. Tiram-se a coroa de espinhos, os cravos, os braços e depois todo o corpo. As personagens que despregam o crucificado têm o costume de se vestir com uma túnica branca (ou preta) e com um capuz na cabeça.

Após o sermão da descida da cruz, o corpo de Jesus, simbolizado pela imagem, é colocado num esquife funerário. Em silêncio e, com muita dor e piedade, é acompanhado em procissão pelas pessoas.

A procissão é seguida em silêncio, ao som das matracas e com cânticos de dor e piedade. A devoção popular faz dessa celebração o ponto alto da Semana Santa. Todos acompanham e rezam, como se fosse de fato um enterro real.

Eis uma proposta/ reflexão sobre esta devoção ao longo dos tempos e a sua actualidade vinda de Braga para este ano
« Última modificação: 06 de Abril de 2007, 18:42 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #23 em: 06 de Abril de 2007, 19:43 »

Em Jerusalém...

sobre o Golgota e o Santo Sepulcro...

Basílica do Santo Sepulcro

 

uma introdução histórica em espanhol

um angulo possível  para uma visita virtual no seu exterior assim como do seu interior ( também possível ver aqui ). Utilize o rado para explorar a imagem/local



local da Crucifixão



Local do tumulo de Jesus



Outras sepulturas encontradas no local que datam desta época
Algumas imagens da Basílica do Santo Sepulcro (clique nas imagens do lado direito) e ainda mais algumas fotografias

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« Responder #24 em: 07 de Abril de 2007, 00:04 »

Igreja do Santo Sepulcro (Jerusalém)...



Entrada para o tumulo de  Jesus


O tumulo de Jesus

Em Jerusalém o jardim do Tumulo (no chamado Calvário de Gordon - Charles Gordon descobriu este local em 1867)...





independentemente do local e das várias interpretações, resta a fé
até porque como diz a placa que se encontra neste jardim: Ele não está aqui porque ressuscitou:


um interessante programa noticioso (em Inglês) onde estudiosos se debruçam sobre Jesus e aquele fim-de-semana em Jerusalém à cerca de dois mil anos atrás... 
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« Responder #25 em: 07 de Abril de 2007, 00:21 »

A angústia de uma ausência:
três meditações sobre o Sábado Santo

do cardeal Joseph Ratzinger (1969)

1ª Meditação

     
Com insistência cada vez maior, ouvimos falar em nosso tempo da morte de Deus. Na primeira vez, em Jean Paul, trata-se apenas de um pesadelo: Jesus morto anuncia aos mortos, do topo do mundo, que em sua viagem para o além não encontrou nada, nem céu, nem Deus misericordioso, mas tão-somente o nada infinito, o silêncio do vazio escancarado. Trata-se ainda de um so­nho horrível, daqueles que a pessoa deixa de lado, gemendo, ao acordar, mas simplesmente um sonho, mesmo que nunca se consiga apagar a angústia que se sofreu, que continua sempre de tocaia, tenebrosa, no fundo da alma. Um século depois, em Nietzsche, é uma seriedade mortal que se exprime num grito estridente de terror: “Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!”. Cinqüenta anos depois, falam disso com distanciamento acadêmico e se preparam para uma “teologia depois da morte de Deus”, olham em volta para ver como se poderá continuar e encorajam os homens a que se preparem para tomar o lugar de Deus. O mistério terrível do Sábado Santo, seu abismo de silêncio, adquiriu então em nosso tempo uma realidade opressiva. De modo que isto é o Sábado Santo: o dia do ocultamento de Deus, o dia daquele paradoxo inaudito que nós exprimimos no Credo com as palavras “desceu à mansão dos mortos”, desceu para dentro do mistério da morte. Na Sexta-feira Santa, ainda se podia olhar para o transpassado. O Sábado Santo está vazio, a pesada pedra do sepulcro novo encerra o defunto, tudo já passou, a fé parece estar definitivamente desmascarada como fanatismo. Nenhum Deus salvou esse Jesus que se arvorava em Filho dele. Todos podem ficar tranqüilos: os prudentes, que inicialmente haviam titubeado um pouco em seu íntimo, na dúvida de que talvez tudo não fosse verdade, agora sabem que tinham razão.
      Sábado Santo: dia do sepultamento de Deus; não é isso, de maneira impressionante, o nosso dia? O nosso século não começa a ser um grande Sábado Santo, dia da ausência de Deus, no qual até os discípulos têm um vazio congelante no coração, que aumenta cada vez mais, e por isso se preparam, cheios de vergonha e angústia, para voltar para casa, e se dirigem taciturnos e destroçados, em seu desespero, para Emaús, sem se dar conta em hipótese alguma de que aquele que acreditavam morto está entre eles?
      Deus morreu e nós o matamos: será que nós percebemos mesmo que essa frase é tomada quase ao pé da letra pela tradição cristã, e que nós muitas vezes em nossas viae crucis já repetimos algo semelhante sem nos darmos conta da gravidade tremenda do que dizíamos? Nós o matamos, encerrando-o no invólucro rançoso dos pensamentos habituais, exilando-o numa forma de piedade sem conteúdo de realidade e perdida entre frases feitas ou preciosidades arqueológicas; nós o matamos por meio da ambigüidade da nossa vida, que estendeu um véu de escuridão também sobre ele: de fato, o que mais poderia ter tornado Deus problemático neste mundo, senão a problematicidade da fé e do amor daqueles que crêem nele?
      A escuridão divina deste dia, deste século que se torna em medida cada vez maior um Sábado Santo, fala à nossa consciência. Nós também estamos implicados nela. Mas, apesar de tudo, ela tem em si algo de consolador. A morte de Deus em Jesus Cristo é ao mesmo tempo expressão de sua radical solidariedade conosco. O mistério mais obscuro da fé é ao mesmo tempo o sinal mais claro de uma esperança que não tem limites. E mais uma coisa: só por meio da derrota da Sexta-feira Santa, só por meio do silêncio mortal do Sábado Santo, os discípulos puderam ser levados à compreensão do que Jesus era realmente, e do que a sua mensagem significava na realidade. Deus tinha de morrer para eles, para que pudesse realmente viver neles. A imagem que haviam formado de Deus, na qual haviam tentado comprimi-lo, tinha de ser destruída para que eles, a partir das ruínas da casa derrubada, pudessem ver o céu, e o próprio Deus, que continua a ser sempre o infinitamente maior. Nós precisamos do silêncio de Deus para experimentar novamente o abismo da sua grandeza e o abismo do nosso nada, que viria a se escancarar se não fosse ele.
      Há uma cena no Evangelho que antecipa de maneira extraordinária o silêncio do Sábado Santo e parece, portanto, mais uma vez ser o retrato do nosso momento histórico. Cristo dorme numa barca, que, agitada pela tempestade, está para afundar. O profeta Elias zombou uma vez dos sacerdotes de Baal, que inutilmente invocavam em alta voz o seu deus para que fizesse descer o fogo do sacrifício, exortando-os a gritarem mais forte, pois podia ser que seu deus estivesse dormindo. Mas Deus não dorme realmente? O escárnio do profeta não diz respeito também, no fundo, àqueles que crêem no Deus de Israel e que viajam com ele numa barca que está para afundar? Deus dorme enquanto suas coisas estão para afundar, não é essa a experiência da nossa vida? A Igreja, a fé, não se parecem com uma pequena barca que está para afundar, que luta inutilmente contra as ondas e o vento, enquanto Deus está ausente? Os discípulos gritam no desespero extremo e sacodem o Senhor para despertá-lo, mas ele se mostra admirado e repreende a pouca fé deles. Mas é diferente para nós? Quando passar a tempestade, nós perceberemos o quanto a nossa pouca fé estava cheia de tolice. Todavia, ó Senhor, não podemos deixar de sacudir-te, Deus que estás em silêncio e dormes, e de gritar-te: acorda, não vês que estamos afundando? Desperta, não deixes que dure eternamente a escuridão do Sábado Santo, deixa cair um raio de Páscoa também sobre os nossos dias, acompanha-nos quando nos dirigimos desesperados para Emaús, para que o nosso coração possa acender-se ao nos aproximarmos de ti. Tu, que guiaste de maneira oculta os caminhos de Israel para seres finalmente homem com os homens, não nos deixes no escuro, não permitas que a tua palavra se perca no grande desperdício de palavras deste tempo. Senhor, dá-nos a tua ajuda, pois sem ti afundaremos.
      Amém.


2ª Meditação


     
O ocultamento de Deus neste mundo constitui o verdadeiro mistério do Sábado Santo, mistério já indicado nas palavras enigmáticas que dizem que Jesus “desceu à mansão dos mortos”. Ao mesmo tempo, a experiência do nosso tempo nos ofereceu uma abordagem completamente nova do Sábado Santo, já que o ocultamento de Deus no mundo que lhe pertence e que deveria anunciar seu nome com mil línguas, a experiência da impotência de Deus, que, todavia, é o onipotente - essa é a experiência e a miséria do nosso tempo.
      Mas, mesmo que o Sábado Santo de certa forma tenha-se aproximado profundamente de nós, mesmo que compreendamos o Deus do Sábado Santo mais do que a manifestação poderosa de Deus em meio a raios e trovões de que fala o Velho Testamento, continua todavia não resolvida a questão sobre o que se entende verdadeiramente quando se diz de maneira misteriosa que Jesus “desceu à mansão dos mortos”. Digamo-lo com toda a clareza: ninguém é capaz de explicar isso de verdade. Nem se torna mais claro se dissermos que aqui a mansão dos mortos, ou inferno, é uma tradução ruim da palavra hebraica schêol, que indica simplesmente todo o reino dos mortos, e que, portanto, a fórmula deveria originariamente dizer apenas que Jesus desceu até a profundidade da morte, está realmente morto e participou do abismo do nosso destino de morte. De fato, surge ainda a pergunta: o que é realmente a morte e o que acontece efetivamente quando se desce à profundidade da morte? Devemos, aqui, dar atenção ao fato de que a morte não é mais a mesma coisa depois que Cristo a sofreu, depois que ele a aceitou e penetrou, tal como a vida, o ser humano, não são mais a mesma coisa depois que em Cristo a natureza humana pôde entrar em contato, e de fato entrou, com o ser próprio de Deus. Antes, a morte era apenas morte, separação do país dos vivos e, ainda que com diferente profundidade, algo como “inferno”, lado noturno do existir, escuridão impenetrável. Agora, porém, a morte é também vida, e quando ultrapassamos a solidão glacial da soleira da morte, nos encontramos sempre novamente com aquele que é a vida, que quis se tornar companheiro da nossa solidão última e que, na solidão mortal de sua angústia no horto das oliveiras e do seu grito na cruz, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, tornou-se partícipe de todas as nossas formas de solidão. Se uma criança tivesse de se aventurar sozinha na noite escura através de um bosque, teria medo mesmo que lhe demonstrassem centenas de vezes que não há perigo algum. Ela não tem medo de algo determinado, ao qual se possa dar um nome, mas, na escuridão, experimenta a insegurança, a condição de órfã, o caráter sinistro da existência em si. Só uma voz humana poderia consolá-la; só a mão de uma pessoa querida poderia afugentar a angústia como um sonho ruim. Existe uma angústia - a verdadeira, escondida na profundidade da nossa solidão - que não pode ser superada mediante a razão, mas apenas pela presença de uma pessoa que nos ama. De fato, essa angústia não tem um objeto ao qual se possa dar um nome, mas é tão-somente a expressão terrível da nossa solidão última. Quem não sentiu a sensação espantosa dessa condição de abandono? Quem não perceberia o milagre santo e consolador suscitado num apuro como esse por uma palavra de afeto? Quando, porém, se tem uma solidão tal que não pode mais ser alcançada pela palavra transformadora do amor, então nós estamos falando de inferno. E sabemos que não poucos homens do nosso tempo, aparentemente tão otimista, têm a opinião de que todo e qualquer encontro permanece na superfície, de que nenhum homem já teve acesso à última e verdadeira profundidade do outro, e de que, portanto, no fundo último de qualquer existência jaz o desespero, ou melhor, o inferno. Jean-Paul Sartre expressou isso poeticamente num de seus dramas, ao mesmo tempo em que expunha o núcleo de sua doutrina sobre o homem. Uma coisa é certa: existe uma noite em cujo abandono obscuro não penetra nenhuma palavra de conforto, uma porta que temos de ultrapassar em solidão absoluta, a porta da morte. Toda a angústia deste mundo, em última análise, é a angústia provocada por essa solidão. Por esse motivo, o termo usado no Velho Testamento para indicar o reino dos mortos era idêntico àquele com que se indicava o inferno: shêol. A morte, de fato, é solidão absoluta. Mas a solidão que não pode mais ser iluminada pelo amor, que é tão profunda que o amor não pode mais ter acesso a ela, esta é o inferno.
      “Desceu à mansão dos mortos”: essa confissão do Sábado Santo significa que Cristo ultrapassou a porta da solidão, que desceu ao fundo inalcançável e insuperável da nossa condição de solidão. Isso significa, porém, que mesmo na noite extrema na qual não penetra palavra alguma, na qual todos nós somos como crianças apavoradas, chorosas, surge uma voz que nos chama, uma mão que nos toma e nos conduz. A solidão insuperável do homem foi superada a partir do momento em que Ele se encontrou nela. O inferno foi vencido a partir do momento em que o amor entrou também na região da morte e a terra de ninguém da solidão foi habitada por ele. Na sua profundidade, o homem não vive de pão, mas, na autenticidade de seu ser, ele vive pelo fato de que é amado e lhe é permitido amar. A partir do momento em que se dá a presença do amor no espaço da morte, a vida penetra nela: aos teus fiéis, ó Senhor, a vida não é tirada, mas transformada - reza a Igreja na liturgia fúnebre.
      Ninguém pode medir em última análise o alcance destas palavras: “desceu à mansão dos mortos”. Mas, quando nos for dado nos aproximar da hora da nossa solidão última, nos será permitido compreender algo da grande clareza desse mistério obscuro. Na esperança segura de que nessa hora de extrema solidão não estaremos sós, podemos já agora pressagiar algo do que acontecerá. E em meio ao nosso protesto contra a escuridão da morte de Deus começamos a nos tornar gratos pela luz que vem a nós justamente dessa escuridão.
 

3ª Meditação


No breviário romano, a liturgia do sagrado Tríduo Pascal é estruturada com um cuidado particular; a Igreja, na sua oração, quer, por assim dizer, transferir-nos para a realidade da paixão do Senhor e, indo além das palavras, para o centro espiritual do que aconteceu. Se quiséssemos delinear brevemente a oração litúrgica   do Sábado Santo, seria preciso falar sobretudo do efeito de paz profunda que dela emana. Cristo penetrou no ocultamento (Verborgenheit), mas ao mesmo tempo, justamente no coração da escuridão impenetrável, ele penetrou na segurança (Geborgenheit), ou melhor, ele se tornou a segurança última. Agora se tornou verdadeira a palavra ousada do salmista: mesmo que eu quisesse me esconder no inferno, tu lá estarias também. E quanto mais percorremos essa liturgia, mais percebemos brilhar nela, como uma aurora da manhã, as primeiras luzes da Páscoa. Se a Sexta-feira Santa põe diante dos nossos olhos a figura desfigurada do transpassado, a liturgia do Sábado Santo se refere muito mais à imagem da cruz que era cara à Igreja antiga: a cruz cercada por raios luminosos, sinal, a um só tempo, da morte e da ressurreição.
      O Sábado Santo nos remete, assim, a um aspecto da piedade cristã que talvez tenha-se perdido ao longo do tempo. Quando, na oração, o­lhamos para a cruz, vemos muitas vezes nela apenas um sinal da paixão histórica do Senhor no Gólgota. A origem da devoção à cruz, porém, é diferente: os cristãos rezavam voltados para o Oriente para exprimir sua esperança de que Cristo, o sol verdadeiro, surgiria na história, para expressar, portanto, sua fé no retorno do Se­nhor. A cruz está, num primeiro momento, estreitamente ligada a essa orientação da oração; ela é representada, por assim dizer, como uma insígnia que o rei hasteará em sua vinda; na imagem da cruz, a ponta avançada do cortejo já chegou até o meio daqueles que rezam. Para o cristão antigo, a cruz é portanto sobretudo sinal da esperança. Ela não implica tanto uma referência ao Senhor passado, mas ao Senhor que está para vir. Certamente, era impossível esquivar-se da necessidade intrínseca de que, com o passar do tempo, o olhar se dirigisse também para o evento que havia ocorrido: contra qualquer fuga para o espiritual, contra qualquer deturpação da encarnação de Deus, era preciso que se defendesse a prodigalidade inimaginável do amor de Deus, que, por amor à mísera criatura humana, tornou-se ele mesmo um homem, e que homem! Era preciso defender a santa estultice do amor de Deus, que não escolheu pronunciar uma palavra de força, mas percorrer o caminho da impotência, para pôr o nosso sonho de poder na berlinda e vencê-lo a partir de dentro.
      Mas, dessa forma, acaso não esquecemos um pouco demais da conexão entre cruz e esperança, da unidade entre o Oriente e a direção da cruz, entre passado e futuro que existe no cristianismo? O espírito da esperança que emana das orações do Sábado Santo deveria penetrar novamente todo o nosso ser cristãos. O cristianismo não é apenas uma religião do passado, mas, em não menor medida, também do futuro; sua fé é também ao mesmo tempo esperança, já que Cristo não é apenas o morto e o ressuscitado, mas também aquele que está por vir.
      Ó Senhor, ilumina as nossas almas com este mistério da esperança, para que reconheçamos a luz que irradiou da tua cruz; concede-nos que como cristãos caminhemos voltados para o futuro, ao encontro do dia da tua vinda.Amém.
   
  
ORAÇÃO

     
Senhor Jesus Cristo, na escuridão da morte fizeste luz; no abismo da solidão mais profunda habita agora para sempre a proteção poderosa de Teu amor; em meio ao Teu ocultamento, podemos já cantar o aleluia dos salvos. Concede-nos a humilde simplicidade da fé, que não se deixa desviar quando Tu nos chamas nas horas da escuridão, do abandono, quando tudo parece problemático; concede-nos, neste tempo no qual se combate uma luta mortal ao teu redor, luz suficiente para não te perder; luz suficiente para que possamos dá-la a todos aqueles que precisam ainda mais dela. Faz brilhar o mistério da Tua alegria pascal, como aurora da manhã, nos nossos dias; concede-nos que possamos realmente ser homens pascais em meio ao Sábado Santo da história. Concede-nos que por meio dos dias luminosos e obscuros deste tempo possamos sempre com espírito jubiloso nos encontrar em caminho, rumo à Tua glória futura. Amém.
« Última modificação: 07 de Abril de 2007, 00:25 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #26 em: 07 de Abril de 2007, 00:55 »

SÁBADO SANTO
 Dia de silêncio e espera

Arquivos audio para as matinas do Sabado Santo

No Sábado Santo não há nenhuma liturgia oficial. As igrejas estão vazias. Os altares desnudos. Os tabernáculos abertos e vazios. As velas apagadas. O silêncio pervade todos os ambientes. É uma experiência de tristeza e atitude de espera.

Tudo para lembrar que Cristo desce à mansão dos mortos e assume o destino e a limitação do ser humano. Ele é solidário até o fim e faz a descida da morte, entra no seu mistério, para sair vitorioso e abrir para todos um caminho de luz e esperança.

Uma homilia, do século IV, fala bem alto:

Que está acontecendo hoje?

«Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. (...) O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: "O meu Senhor está no meio de nós". E Cristo respondeu a Adão: "E com teu espírito". E tomando-o pela mão, disse: "Acorda, tu que dormes, levante-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará".«

No silêncio,
somos convidados a fazer uma viagem até o nosso interior e meditar sobre o sentido da nossa vida e avaliar a qualidade da nossa relação com o Senhor. Silêncio que nos leva perceber o mistério que envolve a nossa vida e nos fala da necessidade de estarmos com Deus.

Sábado Santo é dia de recolhimento, de encontro com o Ressuscitado, na oração e na contemplação. É preparação para liturgia da Vigília Pascal, a grande festa, a mãe de todas as vigílias e a fonte de todas as liturgias.
Aí encontramos um sentido para a vida e ressuscitamos com Cristo para uma vida nova.
   
Vigília Pascal: Cristo ressurgiu da morte

Segundo antiquíssima tradição, esta noite deve ser comemorada em honra do Senhor, e a Vigília que nela se celebra, em memória da noite santa em que Cristo ressuscitou, deve ser considerada a mãe de todas as santas Vigílias (Sto. Agostinho). Pois nela, a Igreja se mantém de vigia à espera da Ressurreição do Senhor, e celebra-se com os sacramentos a Iniciação cristã.

Toda a celebração da Vigília Pascal se realiza de noite; mas de maneira a não começar antes do início da noite e a terminar antes da aurora do Domingo. Esta Vigília é o cume do ano litúrgico.

A noite do Sábado Santo passou a ter as seguintes partes:

 Aquecer A Celebração da Luz

 Realiza-se perante a fogueira acesa, na qual se acende o círio pascal. A reunião dos fiéis ao redor da fogueira manifesta a participação comunitária. A antiga tradição de acender a fogueira através do atrito entre pedras tem a ver com a alusão a Cristo, que é a pedra angular e que, do túmulo escuro de pedras, nasce como luz para o mundo.

 Aquecer A Celebração da Círio

 O Círio Pascal nasce da tradição de iluminar a noite com tochas de fogo ou muitas lâmpadas. Elas representam o Senhor ressuscitado como luz nas trevas humanas. Seguir o Círio Pascal em procissão tem grande valor simbólico, pois representa o seguimento, pois representa o seguimento de Jesus, que se apresenta como a luz do mundo e lembra o povo de Israel que seguia Moisés na escuridão em busca da libertação, iluminando somente pela fé em Javé.

 Aquecer A Liturgia da Palavra

 Nove leituras bíblicas, sendo sete do Antigo Testamento e duas do Novo Testamento (epístola e evangelho), que podem ser diminuídas por razões pastorais. Todas estas leituras são entremeadas por salmos ou cânticos, que devem ter, além da proclamação de seu conteúdo específico, a função de dinamizar e animar a assembléia celebrante.

 Aquecer A Liturgia Batismal

A Igreja, desde os primeiros séculos, ligou a celebração do batismo à noite pascal, pois esta foi sempre a celebração, por excelência, da realização do batismo na comunidade cristã primitiva.

 Aquecer A Liturgia Eucarística

 É o coração da vigília pascal. Embora as circunstâncias das comunidades urbanas sejam menos propícias, por questão de transporte e mesmo de violência, muitas comunidades rurais ou de bairros realizam um ágape ou uma confraternização após a celebração da vigília, para comemorar e celebrar de forma festiva este acontecimento fundamental da fé cristã.

Texto da Missa da Vigilia Pascal

Homilia da Vigilia Pascal  de João Paulo II (2002)

1. "Disse Deus: «Haja Luz». E houve luz" (Gn 1,3)
Uma explosão de luz, que a palavra de Deus fez surgir do nada, rasgou a primeira noite, a noite da criação.

O apóstolo João escreverá: "Deus é luz e n’Ele não há trevas" (1Jo 1,5). Deus não criou as trevas, mas a luz! E o Livro da Sabedoria, revelando claramente que a obra de Deus obedece desde sempre a uma finalidade positiva, assim se exprime: "Ele criou tudo para a existência; / e todas as criaturas têm em si a salvação. / Não há nelas nenhum princípio de morte, / nem o domínio da morte impera sobre a terra" (Sab 1,14).

Naquela primeira noite, a noite da criação, tem as suas raízes o mistério pascal que, após o drama do pecado, constitui a restauração e a coroação daquele instante inicial. A Palavra divina trouxe à existência todas as coisas e, em Jesus, fez-se carne para nos salvar. E, se o destino do primeiro Adão foi retornar à terra donde viera (cf. Gn 3,19), o último Adão desceu do céu para lá subir de novo vencedor, primícia da nova humanidade (cf. Jo 3,23; 1 Cor 15,47).

2. Uma outra noite constitui o evento fundamental da história de Israel: é o êxodo prodigioso do Egipto, cuja narração se lê em cada ano na solene Vigília pascal.

"O Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se. Os filhos de Israel desceram a pé enxuto para o meio do mar, e as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda deles" (Ex 14,21-22). O povo de Deus nasceu deste "baptismo" no Mar Vermelho, quando experimentou a mão forte do Senhor que o arrancava da escravidão, para conduzi-lo à suspirada terra da liberdade, da justiça e da paz.

Esta é a segunda noite, a noite do êxodo.

A profecia do Livro do Êxodo cumpre-se hoje também para nós, que somos israelitas segundo o Espírito, descendência de Abraão graças à fé (cf. Rom 4,16). Na sua Páscoa, como novo Moisés, Cristo faz-nos passar da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Mortos com Jesus, com Ele ressuscitamos para a vida nova, pelo poder do seu Espírito. O seu Baptismo veio a ser o nosso.

3. Recebereis este Baptismo, que gera o homem para a vida nova, também vós, caríssimos Irmãos e Irmãs catecúmenos, provindos de diversos Países: da Albânia, da China, do Japão, da Itália, da Polónia, da República Democrática do Congo. Dois dentre vós, uma mãe japonesa e uma chinesa, trazem consigo também o filho, de modo que, na mesma celebração, serão baptizadas as mães junto com as suas crianças.

"Nesta santíssima noite" em que Cristo ressuscitou dos mortos, cumpre-se para vós um "êxodo" espiritual: deixais para trás a velha existência e entrais na "terra dos vivos". Esta é a terceira noite, a noite da ressurreição.

4. "Oh noite ditosa, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro". Assim cantámos no Precónio Pascal, no início desta solene Vigília, mãe de todas as Vigílias.

Após a trágica noite de Sexta-feira Santa, quando «o domínio das trevas» (Lc 22,53) parecia levar a melhor sobre Aquele que é «a luz do mundo» (Jo 8,12), após o grande silêncio de Sábado Santo, em que Cristo, cumprida a sua obra na terra, encontrou descanso no mistério do Pai e levou a sua mensagem de vida aos abismos da morte, eis finalmente a noite que precede "o terceiro dia", no qual, segundo as Sagradas Escrituras, o Messias havia de ressuscitar, como Ele mesmo tinha repetidamente preanunciado aos seus discípulos.

"Oh noite ditosa, em que o Céu se une à terra, em que o homem se encontra com Deus!" (Precónio Pascal).

5. Esta é a noite por excelência da fé e da esperança. Enquanto tudo está mergulhado na escuridão, Deus - a Luz - vigia. Com Ele, vigiam todos que confiam e esperam n’Ele.

Ó Maria, esta é por vossa excelência a vossa noite! Enquanto se apagam as últimas luzes do sábado, e o fruto do vosso ventre descansa na terra, vosso coração também vigia! A vossa fé e a vossa esperança projectam-se para diante. Para além da pesada lápide, vislumbram já o túmulo vazio; para além do espesso véu das trevas, entrevêem a aurora da ressurreição.

Fazei, ó Mãe, que também nós vigiemos no silêncio da noite, crendo e esperando na palavra do Senhor. Encontraremos assim, na plenitude da luz e da vida, Cristo, primícia dos ressuscitados, que reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Aleluia!



Nossa Senhora do Sábado Santo

Proposta da Comunidade Shalom: Sábado Santo com Maria


Um livro que gosto de saborear neste dia:
Nossa Senhora do Sabado Santo, Carlo Maria Martini:

Nesta carta pastoral, o cardeal Martini propõe uma paragem no caminho. Uma pausa que nos ajude a situarmo-nos no contexto presente, a reencontrar a visão e a retomar fôlego no tempo que atravessamos. «Não podemos deter-nos na escuridão da Sexta-Feira Santa [...] nem sequer podemos apressar a plena revelação da vitória da Páscoa em nós, que se realizará na segunda vinda do Filho do homem.» O «sábado do tempo» é um momento de pausa.
« Última modificação: 07 de Abril de 2007, 01:14 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #27 em: 08 de Abril de 2007, 00:08 »

Ressuscitou!


Aleluia!
« Última modificação: 08 de Abril de 2007, 00:28 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #28 em: 08 de Abril de 2007, 20:04 »

ANO C - DOMINGO DE PÁSCOA (8 de Abril de 2007)

Tema do Domingo de Páscoa


A liturgia deste domingo celebra a ressurreição e garante-nos que a vida em plenitude resulta de uma existência feita dom e serviço em favor dos irmãos. A ressurreição de Cristo é o exemplo concreto que confirma tudo isto.

A primeira leitura apresenta o exemplo de Cristo que “passou pelo mundo fazendo o bem” e que, por amor, Se deu até à morte; por isso, Deus ressuscitou-O. Os discípulos, testemunhas desta dinâmica, devem anunciar este “caminho” a todos os homens.

O Evangelho coloca-nos diante de duas atitudes face à ressurreição: a do discípulo obstinado, que se recusa a aceitá-la porque, na sua lógica, o amor total e a doação da vida não podem nunca ser geradores de vida nova; e o discípulo ideal, que ama Jesus e que, por isso, entende o seu caminho e a sua proposta – a esse não o escandaliza nem o espanta que da cruz tenha nascido a vida plena, a vida verdadeira.

A segunda leitura convida os cristãos, revestidos de Cristo pelo Baptismo, a continuarem a sua caminhada de vida nova, até à transformação plena que acontecerá quando, pela morte, tivermos ultrapassado a última fronteira da nossa finitude.


LEITURA I – Act 10,34.37-43

AMBIENTE

A obra de Lucas (Evangelho e Actos dos Apóstolos)
aparece entre os anos 80 e 90, numa fase em que a Igreja já se encontra organizada e estruturada, mas em que começam a surgir “mestres” pouco ortodoxos, com propostas doutrinais estranhas e, às vezes, pouco cristãs.

Neste ambiente, as comunidades cristãs começam a necessitar de critérios claros que lhes permitam discernir a verdadeira doutrina de Jesus da falsa doutrina dos falsos mestres.

Lucas apresenta, então, a Palavra de Jesus, transmitida pelos apóstolos sob o impulso do Espírito Santo: é essa Palavra que contém a proposta libertadora de Deus para os homens.

Nos Actos, em especial, Lucas mostra como a Igreja nasce da Palavra de Jesus, fielmente anunciada pelos apóstolos; será esta Igreja, animada pelo Espírito, fiel à doutrina transmitida pelos apóstolos, que tornará presente o plano salvador do Pai e o fará chegar a todos os homens.

Neste texto em concreto, Lucas propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio.

 Convocado pelo Espírito (cf. Act 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e baptiza-o, bem como a toda a sua família (cf. Act 10,23b-48).

O episódio é importante, porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze (o etíope de que se fala em Act 8,26-40 já era “prosélito”, isto é, simpatizante do judaísmo). Significa que a vida nova que nasce de Jesus é para todos os homens.

MENSAGEM

O nosso texto é uma composição lucana, onde ecoa o kerigma primitivo. Pedro começa por anunciar Jesus como “o ungido”, que tem o poder de Deus (vers. 38a); depois, descreve a actividade de Jesus, que “passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos” (vers. 38b); em seguida, dá testemunho da morte na cruz (vers. 39) e da ressurreição (vers. 40); finalmente, tira as suas conclusões acerca da dimensão salvífica de tudo isto (vers. 43b: “quem acredita n’Ele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados”).

Esta catequese refere também, com alguma insistência, o testemunho dos discípulos que acompanharam, a par e passo, a caminhada histórica de Jesus (vers. 39a. 41. 42).

Repare-se como a ressurreição de Jesus não é apresentada como um facto isolado, mas como o culminar de uma vida vivida de um determinado jeito. Depois de Jesus ter passado pelo mundo “fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos”; depois de Ele ter morrido na cruz como consequência desse “caminho”, Deus ressuscitou-O.

A radical transformação e transfiguração da realidade terrestre de Jesus, a plenitudização das suas possibilidades humanas e divinas, parece ser o ponto de chegada de uma vida posta ao serviço do projecto salvador e libertador de Deus.

Por outro lado, esta vida, vivida na entrega e no dom, é uma proposta transformadora que, uma vez acolhida, liberta da escravidão do egoísmo e do pecado (vers. 43).

E os discípulos?
Eles são aqueles que aderiram a Jesus, acolheram a sua proposta libertadora e estão a ressuscitar, à medida que a sua vida se identifica com a de Jesus; mas, além disso, eles são as testemunhas de tudo isto: é absolutamente necessário que esta proposta de ressurreição, de vida plena, de vida transfigurada, chegue a todos os homens.

É que essa proposta de salvação é universal e deve atingir, através dos discípulos, todos os povos da terra, sem distinção. Os acontecimentos do dia do Pentecostes já haviam anunciado este projecto.

ACTUALIZAÇÃO

Reflectir a Palavra, a partir das seguintes coordenadas:

• A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”.

Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta em gestos concretos a sua entrega aos irmãos, está a ressuscitar.

Eu estou a ressuscitar, porque caminho pelo mundo fazendo o bem, ou a minha vida é uma submissão ao egoísmo, ao orgulho, ao comodismo?

• A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, a injustiça, deixam de ter poder sobre o homem que ama, que se dá, que partilha a vida.

Ele tem assegurada a vida plena, essa vida que os poderes deste mundo não podem atingir nem restringir. Ele pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé.

Estou consciente disto ou deixo-me dominar pelo medo, sempre que tenho de agir para combater aquilo que rouba a vida e a dignidade a mim e a cada um dos meus irmãos?

• Aos discípulos pede-se também que sejam as testemunhas da ressurreição.

Nós não vimos o sepulcro vazio, mas fazemos todos os dias a experiência do Senhor ressuscitado, vivo e caminhando ao nosso lado nos caminhos da história. Temos de testemunhar essa realidade; no entanto, é preciso que o nosso testemunho seja comprovado por factos concretos: por essa vida de amor e de entrega que é sinal da vida nova de Jesus em nós.


S. Paulo na prisão, Rembrandt (1627)

LEITURA II – Col 3,1-4

AMBIENTE

Quando escreveu aos Colossenses, Paulo estava na prisão (em Roma?).

Epafras, seu amigo, visitou-o e falou-lhe da “crise” por que estava a passar a igreja de Colossos. Alguns doutores locais ensinavam doutrinas estranhas, que misturavam especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18), práticas ascéticas, práticas legalistas, prescrições sobre os alimentos e observância de determinadas festas (cf. Col 2,16.21): tudo isso deveria (na opinião desses “mestres”) completar a fé em Cristo, comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e possibilitar uma vida religiosa mais autêntica.

Contra este sincretismo religioso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo.

O texto que nos é proposto como segunda leitura é a introdução à reflexão moral da carta (cf. Col 3,1-4,1-6). Depois de apresentar a centralidade de Cristo no projecto salvador de Deus para os homens (cf. Col 1,13-2,23), Paulo assinala como fundamento da vida cristã a ressurreição e a consequente união com Cristo.

MENSAGEM

Neste texto, Paulo apresenta como ponto de partida e base da vida cristã a união com Cristo ressuscitado, na qual o cristão é introduzido pelo baptismo.

Ao ser baptizado, o cristão morreu para o pecado e renasceu para uma vida nova, que terá a sua manifestação gloriosa quando ultrapassarmos, pela morte, as fronteiras da nossa finitude.

Enquanto caminhamos ao encontro desse objectivo último, a nossa vida tem que tender para Cristo. Em concreto, isso implica despojarmo-nos do “homem velho” por uma conversão nunca acabada e revestirmo-nos cada dia mais profundamente da imagem de Cristo, de forma que nos identifiquemos com Ele pelo amor e pela entrega.

No texto de Paulo, está bem presente a ideia de que temos que viver com os pés na terra, mas com a mente e o coração no céu: é lá que estão os bens eternos e a nossa meta definitiva (“afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra”).

Daqui resulta um conjunto de exigências práticas que Paulo vai enumerar, de forma bem concreta, nos versículos seguintes (cf. Col 3,5-4,1).

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões, para reflexão da Palavra:

• O baptismo introduz-nos numa dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado.

Tenho consciência de que o meu baptismo significou um compromisso com Cristo? Quando, de alguma forma, tenho um papel activo na preparação ou na celebração do sacramento do baptismo, estou consciente e procuro deixar claro que não se trata de um acto tradicional ou social, mas num compromisso sério e exigente com Cristo ressuscitado?

• A minha vida tem sido, na sequência, uma caminhada coerente com esta dinâmica de vida nova?

Esforço-me realmente por me despojar do “homem velho”, egoísta e escravo do pecado, e por me revestir do “homem novo”, que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço e na doação?


EVANGELHO – Jo 20,1-9

AMBIENTE

Na primeira parte do Quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42), João descreve a actividade criadora e vivificadora do Messias (o último passo dessa actividade destinada a fazer surgir o homem novo é, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresenta a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para Si, mas faz da sua vida um dom radical);

na segunda parte (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da acção de Jesus: a comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade.

Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé n’Ele.

MENSAGEM

O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida sobretudo em chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus.

Maria Madalena representa a nova comunidade que nasceu da acção criadora e vivificadora do Messias; essa nova comunidade, testemunha da cruz, acredita, inicialmente, que a morte triunfou e procura Jesus no sepulcro: é uma comunidade desorientada, desamparada, que ainda não conseguiu descobrir que a morte não venceu; mas, diante do sepulcro vazio, o verdadeiro discípulo descobre que Jesus está vivo.

Para ilustrar esta dupla realidade, são-nos apresentadas duas figuras de discípulo que correm ao túmulo, mostrando a sua adesão a Jesus e o seu interesse pela notícia do túmulo vazio: Simão Pedro e um “outro discípulo”, que parece poder identificar-se com esse “discípulo amado” apresentado no Quarto Evangelho.

João coloca estas duas figuras lado a lado em várias circunstâncias (na última ceia, é o discípulo amado que percebe quem está do lado de Jesus e quem O vai trair – cf. Jo 13,23-25; na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no pátio do sumo sacerdote, enquanto Pedro o trai – cf. Jo 18,15-18.25-27; é ele que está junto da cruz quando Jesus morre – cfr. Jo 19,25-27; é ele quem reconhece Jesus ressuscitado nesse vulto que aparece aos discípulos no lago de Tiberíades – cf. Jo 21,7).

Nas outras vezes, o “discípulo amado” levou vantagem sobre Pedro. Aqui, isso irá acontecer outra vez: o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro (o facto de se dizer que ele não entrou logo, pode querer significar a sua deferência e o seu amor, que resultam da sua sintonia com Jesus); e, depois de ver, “acreditou” (o mesmo não se diz de Pedro).

Provavelmente, o autor do Quarto Evangelho quis descrever, através destas figuras, o impacto produzido nos discípulos pela morte de Jesus e as diferentes disposições existentes entre os membros da comunidade cristã.

Em geral, Pedro representa, nos evangelhos, o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23);

ao contrário, o “outro discípulo” é o discípulo amado”, que está sempre próximo de Jesus, que faz a experiência do amor de Jesus; por isso, corre ao seu encontro de forma mais decidida e “percebe” – porque só quem ama muito percebe certas coisas que passam despercebidas aos outros – que a morte não pôs fim à vida.

Esse “outro discípulo” é, portanto, a imagem do discípulo ideal, que está em sintonia total com Jesus, que corre ao seu encontro com um total empenho, que compreende os sinais e que descobre (porque o amor leva à descoberta) que Jesus está vivo. Ele é o paradigma do “homem novo”, do homem recriado por Jesus.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes coordenadas:

• A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro:

o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar vida plena.

É verdade que é esta a perspectiva da cultura dominante. Como me situo face a isto?

• A ressurreição de Jesus prova precisamente que a vida plena, a vida total, a libertação plena, a transfiguração total da nossa realidade e das nossas capacidades passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências.

Tenho consciência disso? É nessa direcção que conduzo a caminhada da minha vida?

• Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositado na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.

• A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante.

O Evangelho de hoje sugere que é precisamente aí que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova.



O ACTO DE FÉ

Jesus era plenamente homem e sabia o que era o homem. Sabia que os homens têm necessidade de sinais para crer.

Não será por isso que, durante os seus três anos de vida pública, Ele fez muitas vezes sinais curando os doentes, multiplicando os pães e ressuscitando os mortos?Excalmação

Aliás, é através de um sinal que Ele inicia a sua vida pública, em Caná da Galileia onde, segundo acrescenta o evangelista João, “manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele”.

Ele deixa dois sinais às mulheres e aos discípulos que vieram prestar-lhe uma última homenagem: o túmulo vazio e o lençol.

Diante de um sinal, somos livres de o interpretar e de o ler, de lhe procurar o significado.

 Face a uma prova, não somos livres, estamos diante de uma evidência.

O acto de fé exprime-se em presença de sinais e não de provas.

 Assim, João vê estes sinais e acredita neles. Sem dúvida porque se recorda das palavras do Mestre anunciando várias vezes a sua morte e a sua ressurreição. Os seus olhos de carne viram, os seus olhos da fé acreditaram.

Então, como os discípulos em Emaús, ele não tem mais necessidade de ver Jesus de Nazaré com quem ele comeu e bebeu: ele reconhecia o Ressuscitado através dos sinais.


MARIA MADALENA & A PEDRA ANGULAR DA FÉ

“Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. Maria Madalena, na manhã de Páscoa, experimenta o vazio: não há nada, nem mesmo o cadáver do seu Senhor bem-amado.

Ela não tinha nada a que se agarrar para fazer o luto.

Sabemos como é mais dolorosa a morte de um ente querido quando o seu corpo desapareceu, quando não há túmulo onde se possa ir em recolhimento. Não seria esse o sentimento de Maria Madalena, há dois mil anos atrás?

A Igreja não cessa de repetir que Jesus está vivo, vencedor da morte para sempre. Todos os anos, ela multiplica os seus “aleluias”. Mas encontramos sempre o vazio.

Como ressoa em nós a constatação dos discípulos de Emaús, dizendo ao desconhecido que se lhes juntou no caminho que não O tinham visto.

Paulo grita: “Onde está, ó morte, a tua vitória?”

A nossa experiência poderá perguntar: “Ressurreição de Cristo, onde está a tua vitória?”

Apesar do primeiro anúncio “Jesus não está aqui, ressuscitou!”, a morte continuou obstinadamente a sua acção de trevas, com os seus acólitos muito fiéis: doenças, lágrimas, desesperos, violências, injustiças, atentados, guerras…

Cantamos, sem dúvida, nas nossas igrejas: “É primavera! Cristo veio de novo!” A primavera, vemo-la. Mas Jesus, não O vemos!

Está aqui a dificuldade e a pedra angular da nossa fé. Dificuldade, porque a Ressurreição de Jesus não faz parte da ordem da demonstração científica.

Ficamos encerrados nos limites do tempo, enquanto Jesus saiu destes limites. Doravante, Ele está para além da nossa experiência.

 Mas a Ressurreição é, ao mesmo tempo, a pedra angular da nossa fé porque, como o discípulo que Jesus amava, somos convidados a entrar no túmulo, a fazer primeiro a experiência do vazio, para podermos ir mais longe e, como Ele, “ver e crer”.

Podemos apoiar-nos no testemunho das mulheres e dos discípulos. Eles não inventaram uma bela história. Podemos ter confiança neles. Mas eles também tiveram que acreditar! É na sua fé que enraizamos a nossa fé. Páscoa torna-se, então, nossa alegria!


DESCOBRIR JESUS HOJE

«Viu e acreditou!»

 Como os discípulos, muitas vezes corremos atrás do maravilhoso que nos escapa e decepciona. Procuramos Cristo onde Ele não está…

Durante o tempo pascal, a exemplo de João, exercitemos o nosso olhar para descobrir o Ressuscitado através dos sinais humildes da vida quotidiana…b

Com os discípulos de Emaús, descobri-lo-emos a caminhar perto de nós no caminho da vida e a abrir os nossos espíritos à compreensão das Escrituras…
Texto cortado e adaptado
Para o texto na integra:
agencia ecclesia
« Última modificação: 08 de Abril de 2007, 20:50 por lea onda-menor » Registado

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« Responder #29 em: 09 de Abril de 2007, 23:34 »

Jesus não está morto  (Jo 20, 1- 18) - Parte I

Do Mistério Pascal nunca se diz o suficiente. Mistério Pascal não é apenas uma ideia, uma doutrina ou uma espécie de lei ou instituição. O Mistério Pascal tem o seu núcleo na Pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
É como nos diz o Papa Bento XVI, no início da fé não está uma teoria ou uma decisão ética, mas um encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo.

«1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro. Ela viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então saiu a correr e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. E disse-lhes: «Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde O colocaram».3 Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos. Mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou. 6 Então Pedro, que vinha atrás, chegou também e entrou no túmulo. Viu os panos de linho estendidos no chão 7 e o sudário que tinha sido usado para cobrir a cabeça de Jesus. Mas o sudário não estava, com os panos de linho, no chão; estava enrolado num lugar à parte 8 Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou. 9 De facto, ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: «Ele deve ressuscitar dos mortos». 10 Os discípulos, então, voltaram para casa.
11 Maria tinha ficado fora, a chorar junto ao túmulo. Enquanto ainda chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu então dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Então os anjos perguntaram: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O colocaram».14 Depois de dizer isto, Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus. 15 E Jesus perguntou: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: «Se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste para eu ir buscá-l'O». 16 Então Jesus disse: «Maria». Ela virou-se e
exclamou em hebraico: «Rabuni!» (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: «Não Me segures, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: "Subo para junto de meu Pai, que é vosso Pai, de meu Deus, que é o vosso Deus"». 18 Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Eu vi o Senhor». E contou o que Jesus tinha dito.»


1. As aparições do Ressuscitado


As aparições do Ressuscitado, como no-las referem os evangelistas, têm todas um esquema comum:

a) uma situação de medo, de falta de fé, de tristeza.
Maria Madalena chora; os discípulos de Emaús estão tristes; os Apóstolos no Cenáculo estão cheios de medo.

b) Jesus aparece e não é reconhecido imediatamente. No entanto, Jesus pergunta, interroga e interpela: porque choras; que se passou?; Onde vais?

c) Em cada aparição produz-se uma revelação de Jesus. Maria Madalena reconhece-O quando Ele chama, os disc. Emaús, fazem-no a partir do pão, outros(João) a partir do barco no lago: “É o Senhor”

d) Conclui-se sempre com uma missão como responsabilidade. A aparição não é apenas um consolo para a pessoa a quem Jesus aparece. Jesus entrega sempre uma missão: anunciar e partilhar a alegria.

Vamos então olhar para Maria Madalena. Podemos dividir o texto em três momentos:

           1) Porque choras Interrogação Quem procuras?

Nestas duas interrogações se resume o que Jesus nos diz a cada um de nós. Jesus faz-nos sempre uma interpelação directa. Porque choras? Porque estás triste? O que te falta? O que queres que te faça Interrogação O que temes?
E, logo de seguida, a interrogação “ O que procuras Interrogação” que é como quem pergunta “o que estás afazer para sair dessa situação Interrogação”.

           2) “Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram”

Sinal da ausência de Deus como experiência de maturidade. É como quem diz “não me falta outra coisa senão Vós Senhor”.

           3) “Maria foi e anunciou a seus irmãos: Vi o Senhor”

A ressurreição implica um reconhecimento. Reconhecer o Senhor na fé. Vê-l’O de outra maneira ou de outra forma.
E esse re-conhecimento é um renascimento para a vida nova que Jesus vem trazer.

2. Encontro com Jesus a caminho de Emaús (Lc 24, 13-35)


A Páscoa é tempo do reencontro do homem com Cristo. Uma relação que nem a morte foi capaz de destruir. Aquele que morrera está vivo e é reconhecido. E é a partir daqui que se desenvolve a Cristologia do Novo Testamento: da proclamação do Ressuscitado à confissão do Filho de Deus. Verdadeiramente este era o Filho de Deus como exclamou o Centurião que acompanhou a morte de Jesus.

Para os Judeus (e esse é o contexto das Escrituras) a morte possui um significado profundíssimo. É um acontecimento temporal. Morrer é expirar o último sopro (espírito), mas é também entrar na habitação dos mortos (Shéol). Por outras palavras, morrer é passar a “viver” a “vida” (existência) dos mortos. A morte pode, portanto, identificar-se com uma prisão na habitação da morte.
Esta leitura judaica da morte aplica-se à morte de Cristo: é na Cruz que Jesus morre, no preciso momento em que entrega o espírito (sopro), e “desce” à morada dos mortos.

Nesse sentido Jesus conheceu a morte em toda a sua dimensão, em toda a sua verdade. O mesmo é dizer que a morte experimentada por Cristo é o realismo da sua encarnação a acontecer. Jesus Cristo passa por tudo aquilo que passam os mortais.

Conhecer a morte com todas as suas angústias é, pois, algo não redutível às dores físicas da Cruz, ainda que intensas e destruidoras da vida biológica. Morte é muito mais. A morte não é necessariamente um lugar de tortura, mas mais um lugar de profunda desolação, de distanciamento dos homens (na medida em que já não se habita a terra) e de Deus (na medida em que possivelmente ainda não se está no “Céu”).

E quando o homem, ser de diálogo e de encontro, ser que se constituiu na relação, não está capaz de viver dessa fonte, num trágico opaco sem horizonte de saída, está a “habitar o lugar da morte”. E esse pode ser um estado prolongado ou prolongável.

É este lugar em que reina esta morte que Cristo faz a experiência de habitar. Cristo vive a vida dos homens como homem-com-os-outros-homens. Sem iludir aquilo que, realmente, é ser homem, Cristo vive esta sua vida até ao seu final na morte. Essa é a densidade da encarnação.

A Ressurreição de Cristo tem, portanto, de ser entendida a partir desta experiência de morte. Jesus não ressuscitou como se não tivesse conhecido a morte na sua totalidade. É desse lugar, lugar do poder da morte (onde a morte exerce a sua força e o seu domínio, e onde gera a incapacidade para a vida como continuidade experimentada e sofrida) que Jesus vai ser ressuscitado.

Ressuscitando, portanto, Cristo liberta-Se da habitação dos mortos. Liberta-se da morte que realizou na Cruz. Ou seja, venceu a morte no seu próprio domínio, o domínio da morte (o lugar da morte).

Mas a ressurreição não é apenas a passagem do sepulcro para a terra, um “voltar atrás ao mundo”. Ressurreição é uma acção de Deus que arranca Cristo da morte total (metafísica, teológica, existencial) e não apenas da morte biológica.
Cristo liberta-Se de entre os mortos. A sua contínua relação com o Pai que, também continuamente O gera, não permite que permaneça do lugar dos mortos. Provocará sim, pela relação ao Pai, no Amor que é o Espírito (relação que é constitutiva da sua Pessoa) uma abundância de Vida que a morte não comporta. Por isso a morte é destruída na sua própria habitação. Cristo vence a morte e não apenas a sua morte.

A esta luz, o sentido da paixão e da morte de Cristo na Cruz apenas se pode encontrar na profundidade de um caminho de fé. Em termos simplesmente humanos, a Cruz tem uma objectividade que a torna impenetrável: objectivamente Jesus Cristo é um condenado, um maldito segundo as leis do tempo. E a cruz pode acabar por se tornar num final fracassado de uma história de messianismo.

Frente à crueza de um símbolo objectivo (uma Cruz), o olhar de fé faz ver a Cruz não como princípio de morte, mas como princípio de vida. Na medida em que ela encerra a exemplaridade de Jesus Cristo (transformar a morte e o seus princípios em vida e princípios de vida - do ódio e da violência ao amor e ao perdão...) a Cruz é motor transformador da História e de todas as histórias da história humana [1].

Se olharmos para o facto de que os princípios de violência acabam sempre por provocar uma violência maior, sabemo-lo por experiência e observação, concluiremos que Jesus Cristo contrariou essa lógica de existência quase retributiva.
Jesus Cristo transformou a morte física e toda a morte (feita de exclusão, de traição dos seus amigos, de vingança, de indiferença, de ignorância, de poder sobre o inocente, de vontade de eliminar o inocente) em anúncio de Boa-Nova (anúncio de vida e de perdão, anúncio de uma nova justiça e nova ordem de coisas, uma nova lógica).

A Ressurreição é, então, a confirmação, da parte de Deus, do testemunho de Jesus Cristo. É um rompimento radical com a lógica do genocídio, da mortandade, da vingança, para afirmar radicalmente a vida e as suas consequências.

No acontecimento da Ressurreição há, portanto, uma absoluta novidade que se afirma. Se repararmos no episódio da expulsão dos vendilhões do templo por Jesus, encontramos aí a significação das razões humanas que levaram à morte de Jesus numa Cruz. Ele contrariou uma lógica não apenas na superficialidade (o que talvez apenas o adjectivasse como louco...), mas na sua profundidade. A religião que Jesus vem encontrar no Templo é a religião do sábado. O homem que Jesus vem encontrar nas instituições religiosas do seu tempo é o homem para o sábado. Homem escravizado, isolado. O “deus” que Jesus vê ser louvado neste templo é o “deus”-expressão-da-vontade-de-poder-do-homem, um “deus” que se confunde com objecto, um “deus” quase manipulável.

Mas esse “deus” não seria o Deus, Pai de Jesus Cristo. A expressão existencial da religião que Jesus vem presenciar é a da publicidade das virtudes próprias e condenação dos pecados alheios: no templo e em público a observância estrita dos rituais; em privado e às escondidas, a prática da injustiça.

A Ressurreição de Jesus Cristo é, por isso, quase o grito de afirmação da liberdade do próprio Deus (“não sou quem pensais..”) e, ao mesmo tempo, a revelação do verdadeiro homem ao próprio homem, o caminho para a “humanização” do homem, ou seja, a afirmação de que o sábado é para o homem, a afirmação do homem em diálogo com Deus e acolhido por Deus. O que a Ressurreição destrói é a verdadeira paralisia que encerra o homem sobre si mesmo e sobre os seus preconceitos.

Deve ter sido essa a experiência dos discípulos a caminho de Emaús quando contactaram com Jesus e acreditaram n’Ele. No início os discípulos ainda caminham desanimados. Esperavam, havia três dias, algo de novo, mas não sentiram nada. Só serão capazes de reconhecer Jesus depois do próprio Jesus lhes ter lido as Escrituras.
Estar a caminho é estar disponível para o “outro lado”, o “doutro modo”, o “outro”. E então a ausência marca o desejo. Desejo que não é nostalgia, ou saudade, ou mesmo mera necessidade, mas que é fruto da experiência de estarmos neste mundo a sentir a vida verdadeira como ausente. Deseja-se a transcendência.

De facto, o encontro com o Senhor ressuscitado faz-se progressivamente. É um ir abrindo os olhos. É um encontro que se realiza na Palavra que Jesus Cristo dirige aos dois discípulos. Relendo e recordando as Escrituras, Jesus leva-os a compreender o que havia acontecido. O que Deus pretende não é apenas um êxito clamoroso, mas sim a aceitação do sofrimento segundo um misterioso desígnio prefigurado no destino do servo de Deus no Canto do Servo de Jahwé: a Cruz não é apenas, ou sobretudo, uma catástrofe, mas sim uma dimensão inerente à existência
Talvez por isso, apenas na fracção do pão os discípulos se dão conta de si e reconhecem Jesus. Aquele peregrino, que é hóspede convidado a velar com os discípulos, transforma-se no verdadeiro anfitrião que lhes dá de comer. É neste momento que os olhos dos discípulos se abrem.

3. Encontros pascais com Jesus


Jesus morreu como viveu, entregando-Se totalmente. A sua morte é a hora em que melhor se compreendem as sua palavras e os seus gestos, a sua vida. A morte foi, por isso, a plenitude da sua vida. E ainda que Jesus contasse com uma morte violenta, ninguém Lhe rouba a vida. É Jesus que a entrega, como sempre fizera nos imensos encontros que realizou em vida. Desprende-Se de Si para que outros tenham vidas com sentido. O seu caminho de Cruz é também caminho de Ressurreição. A via-sacra é o caminho da sua vida e da nossa vida.
Neste dinamismo Jesus passou a sua vida pública a encontrar-Se com pessoas. As pessoas procuravam-n'O e Ele procurava as pessoas. Muitos quiseram tocá-l'O, na sua Pessoa e no seu mistério, para se sentirem curados (Mc 6, 53-56). Foi nesses encontros que Jesus Se revelou e Se definiu. São encontros e passos intensos em presença, palavras, atitudes e sentimentos e, por isso, reveladores de identidades - de Jesus e nossas. Foi nestes encontros que as pessoas sentiram a novidade de Jesus e puderam perceber o mistério das suas vidas à luz da sua relação com Deus.
Para cada um de nós a revelação de Jesus e a resposta a esta questão vai-se fazendo no tempo concreto da nossa vida e no mais profundo do nosso coração também em palavras e encontros que dizem muito mais do que podem parecer à primeira vista. É que, como diz Vergílio Ferreira, por fora estamos ... por dentro somos! Estejamos onde estivermos, o nosso ser pode estar em comunhão com outros seres. Mas, muitas vezes, para despertarmos para eles, carecemos de símbolos, sinais, chamadas de atenção que nos façam passar do estar ao ser. É por dentro que as coisas são.

O Evangelho fala de encontros de pessoas com Jesus que se podem hoje repetir em cada um de nós. No tempo em que se passam os episódios narrados no Evangelho, os encontros com Jesus têm sempre como consequência a mudança de vida daqueles que se encontram com Ele. São cegos, paralíticos, surdos, mudos, endemoninhados, etc. Podemos dizer que são encontros verdadeiramente pascais, exprimem a experiência essencial da Páscoa, a vida nova. Ressuscitaremos em Jesus, mas vamos já ressuscitando cada vez que nos encontramos com Cristo e vamos aprendendo a morrer para o pecado, para o sem-sentido. Ressuscitamos na medida em que vamos morrendo.

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[1] Cf. José Tolentino MENDONÇA, Páscoa quebra imposição do conformismo, in Público (Destaque,28.03.97) 4.
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« Última modificação: 09 de Abril de 2007, 23:42 por lea onda-menor » Registado

"O claustro de um Franciscano é o MUNDO!"
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