Portal de São Romão

   Início   Ajuda Pesquisa Entrar Registe-se  

Páginas: [1] 2 3 4   Ir para o fundo
  Imprimir  
Autor Tópico: O convite da Palavra de Deus  (Lida 7418 vezes)
0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.
Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« em: 04 de Fevereiro de 2007, 11:21 »

ANO C

5.º Domingo
do Tempo Comum


SUGESTÕES PARA A CELEBRAÇÃO
E VIVÊNCIA DA LITURGIA

a)      Cartazes: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-me”. “O Evangelho que vós recebestes e ao qual permaneceis fiéis”. “Vós, lançai as redes para a pesca”. Poder-se-á escolher somente uma frase.



b)   Também pode aparecer um cartaz com um barco e a frase: “Faz-te ao largo”.

c)   Nesta primeira fase do Tempo Comum, entre o Baptismo do Senhor e o 1º Domingo da Quaresma, a Igreja pretende ajudar-nos a viver o compromisso que no Baptismo assumimos de realizar o objectivo do Natal de Jesus, muito claro no Evangelho de Lucas. Isto é, fazer que a Boa Nova de Jesus Salvador chegue a todo o povo e seja para todos motivo de alegria e salvação.

d)    «Faz-te ao largo». Assim começa e termina a Carta Apostólica de João Paulo II “Novo millenio ineunte”, publicada em 6 de Janeiro de 2001. Para além de um balanço do Jubileu 2000, nela se perspectivam prioridades a assumir nos programas pastorais com que a Igreja deseja corresponder à vocação e missão recebida de Cristo. Sintonizando com o Evangelho deste Domingo, sugerimos a leitura integral desta Carta Apostólica não só aos que têm a responsabilidade de preparar a homilia, mas também aos grupos litúrgicos em ordem à revisão das respectivas prioridades e programações.

e)    A vocação, missão e mensagem cristã são apresentados neste Domingo com grande riqueza. Julgamos conveniente assinalar a importância deste começo da missão eclesial a que S. Lucas dá tanto relevo. Esta vocação e missão estão ao serviço da mensagem típica da fé cristã, tão bem sintetizada no «kerygma» da 2ª leitura de que recomendamos a leitura na sua forma mais completa (que nem é muito longa). É para isso que os discípulos são chamados: para «dar testemunho da Ressurreição».

f)    Nos Domingos até à Quaresma vai ler-se na 2º leitura o cap. 15 da 1ª aos Coríntios que tem como tema o artigo fundamental da nossa fé e da nossa esperança: a ressurreição de Cristo, fundamento da nossa própria ressurreição. Eis uma boa ocasião para elaborar um plano homilético que abranja todo este bloco de 4 Domingos e permita uma apresentação menos fragmentada do núcleo da mensagem cristã. Seria uma válida alternativa ao esquema habitual da homilia desenvolvida a partir da concordância do Evangelho com a 1ª Leitura.

g)    Leitores: 1ª leitura: Respeitem-se as vozes, sem exagero dramático. Atenção a algumas palavras: fímbria, alternadamente, oscilavam, gonzos. Prepare-se longamente o texto, a fim de resultar uma proclamação calma e solene.
  2ª leitura: Contém uma verdadeira profissão de fé, embrião de todos os símbolos da fé. Evite-se deixar cair a voz nos finais das frases. A pressa, inimiga da perfeição, constitui a mais grave tentação do leitor.

h)   Sugerimos a proclamação do Prefácio Dominical Comum I ou o IV.

i)    Sugestão de cânticos: Entrada: Irmãos, adoremos, M. Faria, NCT 220; Servi o Senhor com alegria, B. Sousa, NCT 228; Comunhão: Vós sereis meus amigos, M. Luís, NCT 128; Ide por todo o mundo, M. Luís, NCT 355.

REFLEXÕES BÍBLICO-PASTORAIS

a)   Os textos da Liturgia da Palavra deste Domingo abordam um tema comum. O tema que tem como ideia mestra a Vocação ou o chamamento de Deus para uma missão especial, pessoal e intransmissível, no meio do seu Povo. Mas a vocação nunca pode ser algo de genérico, de abstracto, de meramente humano. Por isso, nas três leituras, temos três ideias – chave que nos ajudam a compreender toda a vocação: primeiro, há um Deus que se revela; segundo, esse Deus chama a pessoa e faz-lhe compreender o Seu chamamento; por fim, esse mesmo Deus, que se revela e chama, envia para uma missão concreta.

b)   A 1ª Leitura relata-nos a vocação de Isaías, que se encontra no Templo a participar na Liturgia. De repente, sente-se envolto no mistério de uma teofania de Deus. A linguagem usada transporta-nos imediatamente para a transcendência de Deus: Ele é, por excelência, o “Santo, sentado em trono alto e elevado...”; o Forte, Senhor dos Exércitos, cercado de Glória! A esta divina luz, Isaías toma consciência das suas limitações e fragilidades de homem. Sente necessidade de se purificar, de se converter para se tornar capaz de uma missão divina. O texto refere-nos o inefável diálogo de Deus com o homem, que é convidado a participar com Ele na obra de salvação do Povo. Mas, como será isso possível, se se sente indigno e incapaz? O próprio Deus, pelo Serafim, o purificará de toda a sua indignidade. Aquele que gozou da inefável experiência de santidade e transcendência de Deus, deverá ser mensageiro da conversão do Povo a essa mesma santidade. Temeroso, mas com coragem, aceita essa missão: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-Me…”. Para anunciar a Deus, é preciso “conhecê-Lo”. Isaías fez a inefável experiência do Deus Santo através da teofania em que se sentiu maravilhosamente imerso em Deus e este se Lhe revela. A iniciativa da revelação e do chamamento é sempre d’ Ele. Vivendo a experiência do seu Deus, Isaías compreenderá o que Deus é e o que quer dele. E aceitará a missão. Vocação e missão andarão sempre intimamente unidas.

c)   O começo da 2ª Leitura é precisamente a continuação deste mesmo tema, agora aplicado aos que seguem Jesus Cristo, a partir do anúncio das primeiras testemunhas: Cristo, a salvação de Deus, é anunciado através do Evangelho. Os Coríntios acolhem-n’O e vivem-n’O; permanecem-lhe fiéis e testemunham-n’O aos outros. É a maneira prática e verdadeira de acreditar – ter fé. Também a Paulo, no seu itinerário espiritual, Jesus se lhe revela no caminho de Damasco. Esta experiência maravilhosa leva-o a acolher, viver, anunciar e testemunhar Jesus até às últimas consequências. Por Ele se sente enviado, e viverá a sua missão de “apóstolo dos gentios” como testemunha fiel até ao fim. Paulo sabe que agora, nos “novos tempos”, a revelação fundamental de Deus é Seu Filho Jesus Cristo, e toda a vocação e missão passam necessariamente por Ele e pela Comunidade dos que O aceitam e O vivem. Por isso, nesta 1ª Carta aos Coríntios encontramos, talvez, o mais antigo “Credo cristão”, recebido das primeiras testemunhas da Ressurreição. “Credo” que, por sua vez, deverá continuar a ser transmitido, pelo tempo fora, na vida de cada crente.

d)   No Evangelho encontramos fundamentalmente estas mesmas ideias, embora sob roupagem diferente. O texto está relacionado com o chamamento e a vocação de Simão ao ministério apostólico. Após uma noite de faina intensa, mas infrutífera, às ordens de Jesus as redes são novamente lançadas à água. Para espanto geral, dá-se uma pesca abundante. São tantos os peixes que eles têm de pedir ajuda “aos colegas que estavam no outro barco”. Há aqui vários elementos fundamentais que devemos ter em conta para entender bem a mensagem desta Leitura: 1) O povo comprimia-se à volta de Jesus, para escutar a Sua Palavra. A Palavra congrega, ilumina. É a Palavra imperativa de Jesus que provoca uma “nova criação”, sobretudo no interior de Pedro e todos os seguidores do Evangelho. Por isso é que São Lucas insiste tanto na necessidade dos apóstolos terem sido companheiros e discípulos de Jesus. São os Seus primeiros ouvintes. Serão também as Suas primeiras testemunhas; 2) “Já que o dizes, largarei as redes”. Obediência à Palavra de Jesus, sem reticências, nem delongas inúteis. Por essa Palavra, viva e eficaz, a Igreja ganhou vida; obediente a essa mesma Palavra, ainda hoje será sinónimo de vida, de “Vida em abundância” para todos aqueles que neste mundo – que parece não querer nada com Deus nem de Deus – sentem verdadeira fome do Deus vivo; 3) “Não tenhas receio”. Diante das maravilhas do Senhor, Pedro sente-se indigno, pecador, como certamente cada um de nós. Ele veio para chamar os pecadores e fala-nos até da infinita alegria de Deus por um só pecador que se converta. “Não temas!”. O espírito de ousadia, de perseverança e de dedicação a toda a prova do pescador, que enfrenta os perigos do mar, serão postos ao serviço do Evangelho. E o Senhor estará com ele, como estará sempre connosco.

« Última modificação: 30 de Maio de 2007, 17:47 por Trofa » Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

lea onda-menor
Moderador(a)
*****

Karma: 1172
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 7928


Paz e Bem! =)


« Responder #1 em: 04 de Fevereiro de 2007, 14:00 »

 clap excelente  ideia Excalmação K+
Registado

"O claustro de um Franciscano é o MUNDO!"
blaster
Coronel
********

Karma: 269
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 1739



« Responder #2 em: 04 de Fevereiro de 2007, 21:12 »

Espectáculo. Será que vamos puder contar sempre essa informação semanalmente? k+ amigo Trofa! Fixe!
Registado

"Muitos homens querem ser doutores,
alguns doutores querem ser DEUS,
mas só DEUS quis ser HOMEM"
Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #3 em: 12 de Fevereiro de 2007, 17:45 »

ANO C

6.º Domingo
do Tempo Comum


SUGESTÕES PARA A CELEBRAÇÃO
E VIVÊNCIA DA LITURGIA

a)   Cartaz: “Felizes vós os pobres, os que agora chorais”.

b)   A Palavra de Deus, neste domingo, parecerá muito dura e exigente. E não sou eu que lhe vou tirar a dureza ou diminuir a exigência. Sugiro que não tentemos encontrar as interpretações mais benignas ou simbólicas, ou dizer, que “talvez não seja bem assim”. Tenhamos antes a coragem de encarar esta Palavra de frente, com generosidade, sabendo que Deus, quando exige, primeiro deu-nos os meios para Lhe podermos responder “Sim”.

c)   Para a homilia, poder-se-á preparar um puzzle de quatro peças que, depois de composto formará uma flor ou uma bela paisagem. As quatro peças mostrarão os quatro requisitos para sermos felizes: Felizes os pobres, Felizes os que têm fome, Felizes os que choram, Felizes os perseguidos

d)   Hoje, a 2ª leitura explicita o motivo de todas as nossas assembleias dominicais: Cristo ressuscitou. É esse o fundamento da nossa esperança e é esse o horizonte da verdadeira felicidade. Também há-de apontar para aí a «opção pelos pobres» e o compromisso da Igreja na promoção da justiça e no serviço fraterno. Importa por isso que a Liturgia sublinhe e reforce  a alegria e a seriedade desse anúncio.

e)     A severidade dos «ai de vós» do Evangelho proporciona neste Domingo conteúdos para a formulação do acto penitencial (3ª modalidade). Também as diversas categorias de bem-aventurados podem ser objecto de particular menção na oração dos fiéis. Eis um espaço aberto à criatividade dos animadores da celebração.

f)   Leitores: 1ª leitura: Não tem especial dificuldade, mas requer uma preparação conveniente, atenta a uma correcta divisão do texto. Importa fazer notar as duas secções do texto: a 1ª começa com a palavra «Maldito...» e a 2ª por «Bendito...».
2ª leitura: Leitura breve, mas incisiva. Prepare-se a interrogação (a força está no «porque»), desde o começo da frase. Evite-se deixar cair a voz em cada frase. A conclusão vem preparada pela frase mais pequena: «Mas não».

g)   Sugerimos a proclamação da Oração Eucarística IV com o seu prefácio, ou a Oração Eucarística V/c (MR p. 1169).

h)    Sugestão de cânticos: Entrada: Deus vive na sua morada santa, F. Santos, NCT 217; Comunhão: Lembrai-vos de nós, Senhor, M. Luís, NCT 146; Felizes os convidados, M. Luís, NCT 264.

REFLEXÕES BÍBLICO-PASTORAIS

a)   As Bem – Aventuranças, segundo o evangelista São Lucas, é a leitura evangélica deste domingo. A narração lucana é diferente da narração de São Mateus (texto mais conhecido). As diferenças e as semelhanças destes textos podem ajudar na homilia e na reflexão dos mesmos.

b)   Em São Mateus, Jesus sobe à montanha e senta-se, como um Novo Moisés que dá uma nova Lei. Em São Lucas, Jesus desceu do monte, onde esteve a rezar ao Pai no íntimo do seu coração; escolheu os Doze e, “com eles, num sítio plano deteve-se com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia”. A mensagem que lhes dirigiu foi fruto da oração e da reflexão, feitas no cimo do monte com Deus, Seu Pai. Tanto Mateus como Lucas dizem-nos que esta mensagem foi dirigida aos discípulos, mas a multidão estava presente. Apesar de não lermos alguns versículos intermédios, São Lucas diz que se tinham aproximado alguns pobres e doentes que desejam tocar em Jesus.

c)   São Mateus apresenta-nos no seu texto nove bem – aventuranças, plenas de espiritualidade. São Lucas apresenta-nos somente quatro, seguidas de quatro más – aventuranças (“Ai de vós, …) que são o oposto das quatro bem – aventuranças. É um género literário que foi usado não só pelos profetas, como Jeremias utilizou na primeira leitura deste dia, mas também no judaísmo tardio e no cristianismo primitivo (Didaké, Barnabé, etc.), apontando os dois caminhos, o da vida e o da morte. É isto que dá um realismo forte às bem – aventuranças lucanas. Os pobres só podem confiar na ajuda do Senhor, enquanto que os ricos só confiam na ajuda humana.

d)   Continuam a ser actuais as bem – aventuranças e as más – aventuranças! A nossa riqueza material e tudo o que ela supõe (o resto das más – aventuranças: estar saciados, rir-se de tudo, elogios, …) pode ser um obstáculo na nossa vida se ocupar um lugar importante no nosso coração, lugar que deve somente ser ocupado por Deus. O contraste existente entre os discípulos e as pessoas atormentadas que escutavam Jesus era e é evidente: para quem é, então, a felicidade do Reino de Deus? Jesus prega e exige a conversão. Ele inverteu a ordem de valores da sociedade de então e também da nossa.

e)   São Paulo, na segunda leitura, conclui esta reflexão: a plena felicidade encontra-se na ressurreição de Cristo e na nossa ressurreição. Este é o centro e o núcleo da nossa fé. “E se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé… Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens”. Só a partir da ressurreição é que se compreende plenamente as bem – aventuranças. Se pelo baptismo recebemos o dom da ressurreição, na vida poderemos viver as bem – aventuranças. Aquilo que não poderíamos viver, porque choca frontalmente com a vida do nosso mundo, é possível graças à acção de Deus que nos ressuscita para uma vida nova. Por isto o Reino é de Deus, apesar de reclamar insistentemente a nossa firme colaboração.

f)   Na Eucaristia, encontramos a força da ressurreição de Jesus que continua a manifestar entre nós as maravilhas do Reino.

Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #4 em: 17 de Fevereiro de 2007, 22:48 »

ANO C

7.º Domingo
do Tempo Comum


SUGESTÕES PARA A CELEBRAÇÃO
E VIVÊNCIA DA LITURGIA

a)   Cartaz: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. “Amai os vossos inimigos. Fazei bem aos que vos odeiam”.

b)   A Palavra de Deus neste Domingo apresenta as linhas de força da moral evangélica. Mas para não cair no «moralismo» importa sublinhar que os conteúdos éticos sugeridos na 1ª leitura e no Evangelho são potenciados pela luz pascal da 2ª leitura. Somos desde já chamados a antecipar a vida perfeita da ressurreição, reproduzindo em nós a imagem de Cristo Ressuscitado, o novo Adão. Sugerimos que o acto penitencial se inspire no Evangelho, por exemplo na «regra de ouro». Outros momentos a valorizar na celebração poderão ser o abraço da paz e, o Pai-Nosso, com oportunas e breves monições que traduzam a mensagem evangélica no rito.

c)   A fracção do pão deverá ser feita, depois da saudação da paz. E somente durante a fracção do pão é que se canta ou recita o “Cordeiro de Deus”.

d)   Leitores: 1ª leitura: Importa estar atento a alguns nomes, como Saul, Zif, Abisaí, Abner (a pronúncia não oferece, a nosso ver, dificuldades de maior: Saul, Zif, Abisaí - não Abisai - Abner). O relato vive da intervenção das personagens, por isso, impõe-se o respeito das vozes: narrador, Abisaí, David.
2ª leitura: O trecho da carta aos Coríntios hoje proposto, do princípio ao fim, está estruturado segundo um rigoroso paralelismo antitético: contrapõe o primeiro Adão ao último. Deve sentir-se isso na proclamação.

e)   Sugerimos a proclamação da Oração Eucarística II com o seu prefácio.

f)   Antes de despedir a assembleia, lançar o convite à participação na Missa de quarta-feira de Cinzas, como início da Quaresma, e comunicar a hora da celebração.

g)   Sugestão de cânticos: Entrada: Vinde, exultemos de alegria, F. Santos, NCT 229; Nós somos o Povo do Senhor, J. Martins, NCT 222; Comunhão: Se vos amardes, F. Silva, NCT 274; É Cristo quem nos convida, C. Silva, NCT 258; Ubi caritas, C. Gregoriano, NCT 172.

REFLEXÕES BÍBLICO-PASTORAIS

a)   Ao falarmos da “novidade do Cristianismo” ocorre-nos à mente tanto a “novidade da vida” – que recebemos no Baptismo e faz de nós uma nova criatura – como um “novo “agir” que se caracteriza pelo amor e deriva da autoridade do Baptismo. Nas leituras deste Domingo vem ao de cima a proclamação do amor aos inimigos como sinal distintivo do cristão. Este amor tão difícil, porque tão contrário às inclinações espontâneas do coração humano ferido pelo pecado, já tem as raízes na revelação do Antigo Testamento. É certo que o amor do próximo, exigido pelo Antigo Testamento, restringe-se ao povo de Israel e aos estrangeiros no meio dele. Mas não pode fechar-se dentro do círculo dos amigos. Tem de abrir-se ao próximo, seja ele quem for. Mais ainda, tem de ser um amor ao próprio inimigo a quem se deve ajudar, perdoar e alimentar, como ensinam os profetas e alguns livros sapienciais. Nas Leituras deste Domingo, vemos claramente a evolução da exigência do amor aos inimigos do Antigo para o Novo Testamento. Lemos em Tobias: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (Tob 4, 15). Lemos no Evangelho de hoje: “Faz aos outros o que desejarias que eles te fizessem”.

b)   Na 1ª Leitura do primeiro Livro de Samuel deparamos não só com uma exortação ao amor dos inimigos, mas também com um exemplo flagrante e emocionante deste amor. Saul, roído de inveja, põe-se a caminho com um exército, para se vingar de David, cujos sucessos e simpatia, junto do povo, ele não consegue aceitar. David parte ao encontro de Saul com o seu lugar – tenente Abisaí. Proporciona-se a David uma magnífica ocasião para linchar o seu adversário. A tentação de Abisaí, para cometer o crime, é forte e quase irresistível. David, porém, possuído do temor de Deus, resiste à tentação com a valentia e a nobreza de um espírito superior. Vence a violência, o rancor, o ódio e a vingança, perdoando ao seu inimigo e poupando-lhe a vida. Arrebata-lhe a espada, mas não lhe decepa a cabeça. Apodera-se do seu cantil, mas não lhe derrama o sangue.

c)   Jesus, no evangelho de hoje, vai mais longe não se contentando com um amor – perdão, mas propondo um amor – misericórdia. O amor – perdão consiste em deixar de fazer o mal ao inimigo que nos ofende. O amor – misericórdia lança-nos dentro do coração do próprio inimigo, para lhe dar o nosso amor. O amor – perdão diz-nos para não pagar o mal com o mal. O amor – misericórdia impele-nos a pagar o mal com o bem. Por isso, o Senhor enumera uma série de atitudes próprias do amor aos inimigos, que devem ser o distintivo da novidade da vida do cristão. Quando um inimigo nos odeia devemos amá-lo, procurando fazer-lhe o bem. Quando nos amaldiçoa, devemos dizer bem dele ou, ao menos, rezar por ele. A oração sincera pelos inimigos é já uma forma positiva e eficaz de os amar. Quando nos bate e nos rouba, devemos socorrê-lo e ajudá-lo. E porquê? Porque amar a quem nos ama, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar a quem nos empresta, também o fazem os pagãos e os pecadores. Não é preciso ser cristão para amar assim. O discípulo de Cristo tem de amar, fazer bem e emprestar sem esperar nenhuma recompensa. É assim que seremos semelhantes a Deus, que faz todo o bem tanto aos justos como aos injustos. É assim o amor – misericórdia. Jesus, em São Mateus, diz-nos: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”. Mas diz-nos em São Lucas: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso”. O motivo é o mesmo: para serdes filhos do Pai; para serdes filhos do Altíssimo, que o mesmo é dizer: para serdes cristãos. O amor aos inimigos, que o Senhor nos propõe, não é só um amor – perdão, mas um amor – misericórdia. Não basta não julgar para não ser julgado; não basta não condenar para não ser condenado; não basta perdoar para ser perdoado; é preciso amar com o dom do nosso próprio coração.

Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #5 em: 04 de Maio de 2007, 16:01 »

5º Domingo da Páscoa - Ano C

ANO C
5º DOMINGO DA PÁSCOA
6 de Maio de 2007

Tema do 5º Domingo da Páscoa

O tema fundamental da liturgia deste domingo é o do amor: o que identifica os seguidores de Jesus é a capacidade de amar até ao dom total da vida.

No Evangelho, Jesus despede-Se dos seus discípulos e deixa-lhes em testamento o “mandamento novo”: “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”. É nessa entrega radical da vida que se cumpre a vocação cristã e que se dá testemunho no mundo do amor materno e paterno de Deus.

Na primeira leitura apresenta-se a vida dessas comunidades cristãs chamadas a viver no amor. No meio das vicissitudes e das crises, são comunidades fraternas, onde os irmãos se ajudam, se fortalecem uns aos outros nas dificuldades, se amam e dão testemunho do amor de Deus. É esse projecto que motiva Paulo e Barnabé e é essa proposta que eles levam, com a generosidade de quem ama, aos confins da Ásia Menor.

A segunda leitura apresenta-nos a meta final para onde caminhamos: o novo céu e a nova terra, a realização da utopia, o rosto final dessa comunidade de chamados a viver no amor.



LEITURA I – Actos 14,21b-27

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Paulo e Barnabé voltaram a Listra, a Icónio e a Antioquia.
Iam fortalecendo as almas dos discípulos
e exortavam-nos a permanecerem firmes na fé,
«porque – diziam eles – temos de sofrer muitas tribulações
para entrarmos no reino de Deus».
Estabeleceram anciãos em cada Igreja,
depois de terem feito orações acompanhadas de jejum,
e encomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado.
Atravessaram então a Pisídia e chegaram à Panfília;
depois, anunciaram a palavra em Perga e desceram até Atalia.
De lá embarcaram para Antioquia,
de onde tinham partido, confiados na graça de Deus,
para a obra que acabavam de realizar.
À chegada, convocaram a Igreja,
contaram tudo o que Deus fizera com eles
e como abrira aos gentios a porta da fé.


AMBIENTE

Vimos, no passado domingo, como o entusiasmo missionário da comunidade cristã de Antioquia da Síria lançou Paulo e Barnabé para a missão e como a Boa Nova de Jesus alcançou, assim, a ilha de Chipre e as costas da Ásia Menor…

A leitura de hoje apresenta-nos a conclusão dessa primeira viagem missionária de Paulo e de Barnabé: depois de chegarem a Derbe, voltaram para trás, visitaram as comunidades entretanto fundadas (Listra, Icónio, Antioquia da Pisídia e Perge) e embarcaram de regresso à cidade de onde tinham partido para a missão. Estes sucessos desenrolam-se entre os anos 46 e 49.

MENSAGEM

No texto que nos é proposto, transparecem os traços fundamentais que marcaram a vida e a experiência dos primeiros grupos cristãos: o entusiasmo dos primeiros missionários, que permite afrontar e vencer os perigos e as incomodidades para levar a todos os homens a boa notícia dessa libertação que Cristo veio propor; as palavras de consolação que fortalecem a fé e ajudam a enfrentar as perseguições (vers. 22a); o apoio mútuo (vers. 23b); a oração (vers. 23b.c).

Sobretudo, este texto acentua a ideia de que a missão não foi uma obra puramente humana, mas foi uma obra de Deus. No início da aventura missionária já se havia sugerido que o envio de Paulo e Barnabé não era apenas iniciativa da Igreja de Antioquia, mas uma acção do Espírito (cf. Act 13,2-3); foi esse mesmo Espírito que acompanhou e guiou os missionários a cada passo da sua viagem. E aqui repete-se que o autêntico actor da conversão dos pagãos é Deus e não os homens (cf. vers. 27).

Verdadeira novidade no contexto da missão é a instituição de dirigentes ou responsáveis (“anciãos” – em grego, “presbíteros”), que aparecem aqui pela primeira vez fora da Igreja de Jerusalém. Correspondem, provavelmente, aos “conselhos de anciãos” que estavam à frente das comunidades judaicas. Os “Actos” não explicitam as funções exactas destes dirigentes e animadores das Igrejas; mas o discurso de despedida que Paulo faz aos anciãos de Éfeso parece confiar-lhes o cuidado de administrarem, de vigiarem e de defenderem a comunidade face aos perigos internos e externos (cf. Act 20,28-31). Em todo o caso, convém recordar que os ministérios eram algo subordinado dentro da organização e da vida da primitiva comunidade; não eram valores absolutos em si mesmo, mas só existiam e só tinham sentido em função da comunidade.

ACTUALIZAÇÃO

Para reflectir, partilhar e actualizar este texto, considerar as seguintes linhas:

• Como é que vivem as nossas comunidades cristãs? Notamos nelas o mesmo empenho missionário dos inícios? Há partilha fraterna e preocupação em ir ao encontro dos mais débeis, em apoiá-los e ajudá-los a superar as crises e as angústias? São comunidades que se fortalecem com uma vida de oração e de diálogo com Deus?

• Temos consciência de que por detrás do nosso trabalho e do nosso testemunho está Deus? Temos consciência de que o anúncio do Evangelho não é uma obra nossa, na qual expomos as nossas ideias e a nossa ideologia, mas é obra de Deus? Temos consciência de que não nos pregamos a nós próprios, mas a Cristo libertador?

• Para aqueles que têm responsabilidades de direcção ou de animação das comunidades: a missão que lhes foi confiada não é um privilégio, mas um serviço que está subordinado à construção da própria comunidade. A comunidade não existe para servir quem preside; quem preside é que existe em função da comunidade e do serviço comunitário.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144

Refrão 1: Louvarei para sempre o vosso nome,
Senhor, meu Deus e meu Rei.

Refrão 2: Aleluia.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

Graças Vos dêem, senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.

Para darem a conhecer aos homens o vosso poder,
a glória e o esplendor do vosso reino.
O vosso reino é um reino eterno,
o vosso domínio estende-se por todas as gerações.



LEITURA II – Ap 21,1-5a

Leitura do Livro do Apocalipse

Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra,
porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido
e o mar já não existia.
Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do Céu, da presença de Deus,
bela como noiva adornada para o seu esposo.
Do trono ouvi uma voz forte que dizia:
«Eis a morada de Deus com os homens.
Deus habitará com os homens:
eles serão o seu povo
e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus.
Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;
nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor,
porque o mundo antigo desapareceu».
Disse então Aquele que estava sentado no trono:
«Vou renovar todas as coisas».


AMBIENTE

Depois de descrever o confronto entre Deus e as forças do mal e a vitória final de Deus, o autor do “Apocalipse” apresenta o ponto de chegada da história humana: a “nova terra e o novo céu”; aí, os que se mantiveram fiéis ao “cordeiro” (Jesus) encontrarão a vida em plenitude. É o culminar da caminhada da humanidade, a meta última da nossa história.

Esse mundo novo é, simbolicamente, apresentado em dois quadros (cf. Ap 21,1-8 e 21,9-22,5). A leitura que hoje nos é proposta apresenta-nos o primeiro desses quadros (o outro ficará para o próximo domingo). É o quadro do novo céu e da nova terra – um quadro que apresenta a última fase da obra regeneradora de Deus e que aparece já em Is 65,17 e em 66,22. Também se encontra esta imagem abundantemente representada na literatura apocalíptica (cf. Henoch, 45,4-5; 91,16; 4 Esd 7,75), bem como em certos textos do Novo Testamento (cf. Mt 19,28; 2 Pe 3,13).

MENSAGEM

Neste primeiro quadro, o profeta João chama a essa nova realidade nascida da vitória de Deus a “Jerusalém que desce do céu”. Jerusalém é, no universo religioso e cultural do povo bíblico, a cidade santa por excelência, o lugar onde Deus reside, o espaço onde vai irromper e onde se manifestará em definitivo a salvação de Deus. A “nova Jerusalém” é, portanto, o lugar da salvação definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.

No contexto da teologia do Livro do Apocalipse, esta cidade nova, onde encontra guarida o Povo vitorioso dos “santos”, designa a Igreja, vista como comunidade escatológica, transformada e renovada pela acção salvadora e libertadora de Deus na história. Dizer que ela “desce do céu” significa dizer que se trata de uma realidade que vem de Deus e tem origem divina; ela é uma absoluta criação da graça de Deus, dom definitivo de Deus ao seu Povo.

Esta nova realidade instaura, consequentemente, uma nova ordem de coisas e exige que tudo o que é velho seja transformado. O mar, símbolo e resíduo do caos primitivo e das potências hostis a Deus, desaparecerá; a velha terra, cenário da conduta pecadora do homem, vai ser transformada e recriada (vers. 1). A partir daí, tudo será novo, definitivo, acabado, perfeito.

Quando esta realidade irromper, celebrar-se-á o casamento definitivo entre Deus e a humanidade transformada (a “noiva adornada para o esposo”). Na linguagem profética, o casamento é um símbolo privilegiado da aliança. Realiza-se, assim, o ideal da aliança (cf. Jer 31,33-38; Ez 37,27): Deus e o seu Povo consumam a sua história de intimidade e de comunhão; Deus passará a residir de forma permanente e estável no meio do seu Povo, como o noivo que se junta à sua amada e com ela partilha a vida e o amor. A longa história de amor entre Deus e o seu Povo será uma história de amor com um final feliz. Serão definitivamente banidos do horizonte do homem a dor, as lágrimas, o sofrimento e a morte e restarão a alegria, a harmonia e a felicidade sem fim.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão desta Palavra, considerar os seguintes dados:

• O testemunho profético de João garante-nos que não estamos destinados ao fracasso, mas sim à vida plena, ao encontro com Deus, à felicidade sem fim. Esta esperança tem de iluminar a nossa caminhada e dar-nos a coragem de enfrentar os dramas e as crises que dia a dia se nos apresentam.

• A Igreja de que fazemos parte tem de procurar ser um anúncio dessa comunidade escatológica, uma “noiva” bela e que caminha com amor ao encontro de Deus, o amado. Isto significa que o egoísmo, as divisões, os conflitos, as lutas pelo poder, têm de ser banidos da nossa experiência eclesial: eles são chagas que desfeiam o rosto da Igreja e a impedem de dar testemunho do mundo novo que nos espera.

• É verdade que a instauração plena do “novo céu e da nova terra” só acontecerá quando o mal for vencido em definitivo; mas essa nova realidade pode e deve começar desde já: a ressurreição de Cristo convoca-nos para a renovação das nossas vidas, da nossa comunidade cristã ou religiosa, da sociedade e das suas estruturas, do mundo em que vivemos (e que geme num violento esforço de libertação).



ALELUIA – Jo 13,34

Aleluia. Aleluia.

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.



EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Quando Judas saiu do cenáculo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Agora foi glorificado o Filho do homem
e Deus glorificado n’Ele.
Se Deus foi glorificado n’Ele,
Deus também O glorificará em Si mesmo
e glorificá-l’O-á sem demora.
Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco.
Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros.
Como Eu vos amei,
amai-vos também uns aos outros.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros».

AMBIENTE

Estamos na fase final da caminhada histórica do “Messias”. Aproxima-se a “Hora”, o momento em que vai nascer – a partir do testemunho do amor total cumprido na cruz – o Homem Novo e a nova comunidade.

O contexto em que este trecho nos coloca é o de uma ceia, na qual Jesus Se despede dos discípulos e lhes deixa as últimas recomendações. Jesus acabou de lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,1-20) e de anunciar à comunidade desconcertada a traição de um do grupo (cf. Jo 13,21-30); nesses quadros, está presente o seu amor (que se faz serviço simples e humilde no episódio da lavagem dos pés e que se faz amor que não julga, que não condena, que não limita a liberdade e que se dirige até ao inimigo mortal, na referência a Judas, o traidor). Em seguida, Jesus vai dirigir aos discípulos palavras de despedida; essas suas palavras – resumo coerente de uma vida feita de amor e partilha – soam a testamento final. Trata-se de um momento muito solene; é a altura em que não há tempo nem disposição para “conversa fiada”: aproxima-se o fim e é preciso recordar aos discípulos aquilo que é mesmo fundamental na proposta cristã.

MENSAGEM

O texto divide-se em duas partes. Na primeira parte (vers. 31-32), Jesus interpreta a saída de Judas, que acabou de deixar a sala onde o grupo está reunido, para ir entregar o “mestre” aos seus inimigos. A morte é, portanto, uma realidade bem próxima… Jesus explica, na sequência, que a sua morte na cruz será a manifestação da sua glória e da glória do Pai. O termo grego “doxa” aqui utilizado traduz o hebraico “kabod” que pode entender-se como “riqueza”, “esplendor”. A “riqueza”, o “esplendor” do Pai e de Jesus manifesta-se, portanto, no amor que se dá até ao extremo, até ao dom total. É que a “glória” do Pai e de Jesus não se manifesta no triunfo espectacular ou na violência que aniquila os maus, mas manifesta-se na vida dada, no amor oferecido até ao extremo. A entrega de Jesus na cruz vai manifestar a todos os homens a lógica de Deus e mostrar a todos como Deus é: amor radical, que se faz dom até às últimas consequências.

Na segunda parte (vers. 33a.34-35) temos, então, a apresentação do “mandamento novo”. Começa com a expressão “meus filhos” (vers. 33a) – o que nos coloca num quadro de solene emoção e nos leva ao “testamento” de um pai que, à beira da morte, transmite aos seus filhos a sua sabedoria de vida e aquilo que é verdadeiramente fundamental.

Qual é, portanto, a última palavra de Jesus aos seus, o seu ensinamento fundamental?

“Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, vós deveis também amar-vos uns aos outros”. O verbo “agapaô” (“amar”) aqui utilizado define, em João, o amor que faz dom de si, o amor até ao extremo, o amor que não guarda nada para si mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência no amor é o próprio Jesus (“como Eu vos tenho amado”); as duas cenas precedentes (lavagem dos pés aos discípulos e despedida de Judas) definem a qualidade desse amor que Jesus pede aos seus: “amar” consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor (lavagem dos pés), e isso sem limites nem discriminação alguma, respeitando absolutamente a liberdade do outro (episódio de Judas). Jesus é a norma, não com palavras, mas com actos; mas agora traduz em palavras os seus actos precedentes, para que os discípulos tenham uma referência.

O amor (igual ao de Jesus) que os discípulos manifestam entre si será visível para todos os homens (vers. 35). Esse será o distintivo da comunidade de Jesus. Os discípulos de Jesus não são os depositários de uma doutrina ou de uma ideologia, ou os observantes de leis, ou os fiéis cumpridores de ritos; mas são aqueles que, pelo amor que partilham, vão ser um sinal vivo do Deus que ama. Pelo amor, eles serão no mundo sinal do Pai.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão da Palavra, as seguintes linhas:

• A proposta cristã resume-se no amor. É o amor que nos distingue, que nos identifica; quem não aceita o amor, não pode ter qualquer pretensão de integrar a comunidade de Jesus. O que é que está no centro da nossa experiência cristã? A nossa religião é a religião do amor, ou é a religião das leis, das exigências, dos ritos externos? Com que força nos impomos no mundo – a força do amor, ou a força da autoridade prepotente e dos privilégios?

• Falar de amor hoje pode ser equívoco… A palavra “amor” é, tantas vezes, usada para definir comportamentos egoístas, interesseiros, que usam o outro, que fazem mal, que limitam horizontes, que roubam a liberdade… Mas o amor de que Jesus fala é o amor que acolhe, que se faz serviço, que respeita a dignidade e a liberdade do outro, que não discrimina nem marginaliza, que se faz dom total (até à morte) para que o outro tenha mais vida. É este o amor que vivemos e que partilhamos?

• Por um lado, comunidade de Jesus tem de testemunhar, com gestos concretos, o amor de Deus; por outro, ela tem de demonstrar que a utopia é possível e que os homens podem ser irmãos. É esse o nosso testemunho de comunidade cristã ou religiosa? Nos nossos comportamentos e atitudes uns para com os outros, os homens descobrem a presença do amor de Deus no mundo? Amamos mais do que os outros e interessamo-nos mais do que eles pelos pobres e pelos que sofrem?


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5º DOMINGO DA PÁSCOA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 5º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. O ACOLHIMENTO FRATERNO.
Neste domingo, em que o Ressuscitado nos dá o mandamento novo, não seria uma boa ocasião, para aqueles que preparam a liturgia, de verem se a comunidade está suficientemente atenta ao acolhimento fraterno de todos e de cada um no seio da celebração? As maneiras de fazer podem ser diversas, mas a exigência é a mesma: «Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros».

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus, Pai do teu novo Povo, nós Te bendizemos por toda a obra que cumpriste com Paulo e Barnabé. Através deles, abriste às nações pagãs, de quem descendemos, a porta da fé.
Nós Te pedimos pelos pastores das Igrejas, a fim de que cheguem a designar “anciãos” como guias em todas as tuas comunidades.

No final da segunda leitura:
Deus que estás sentado no trono e que fazes novas todas as coisas, Pai do teu Povo, nós Te louvamos pela nova Jerusalém, a tua morada no meio dos homens, que se realiza cada vez que Te rezamos.
Nós Te confiamos os nossos irmãos e irmãs que estão em provação: que chegue o dia em que Tu lhes enxugarás as lágrimas dos seus olhos dissipando toda a tristeza.

No final do Evangelho:
Guiados pelo teu Espírito, nós Te glorificamos, Pai, com o teu Filho Jesus. Nós Te bendizemos pela teu glória, que é a tua presença vivificante, e na qual Tu comunicas connosco pela Palavra e pelo Pão.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos fortaleça, para que possamos viver segundo o mandamento novo que nos deste pela palavra e pela vida do teu Filho Jesus.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
Antes de conhecer o abaixamento da sua Paixão e da sua morte, Jesus faz perceber aos seus discípulos o peso, a glória da sua vida. Ele passou fazendo o bem, só pregou o Amor, fez milagres por amor, deu o exemplo do amor dando-nos a maior prova. É tudo isso que tem peso aos olhos de Deus, tal é a sua glória. E já durante a última ceia, Ele anuncia a sua ressurreição predizendo que proximamente Ele não estará mais entre eles, do mesmo modo como está no momento em que lhes fala, mas tornar-Se-á presente através do amor que os seus discípulos terão uns para com os outros: que eles se amem como Ele os amou! Este amor será o sinal pelo qual serão reconhecidos como seus discípulos. Jesus não quer que tudo pare com a sua partida, serão os seus discípulos que O tornarão presente se se amarem como Ele os amou… se forem servos como Ele foi servo para lhes dar o exemplo… se refizerem os gestos e disserem as palavras da última ceia… Isto para fazer memória d’Ele, isto é, recordar-se, tornar presente, esperar o seu regresso… se eles O reconhecem, a Ele o Senhor, sob os traços do mais pequeno entre os irmãos. Jesus de Nazaré já não está entre nós, mas Cristo ressuscitado está bem no meio de nós, hoje. Há que reconhecê-l’O para O testemunhar pelo amor!

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Que bela novidade! Como se fosse Jesus a inventar o amor! Os homens e as mulheres não esperaram que Jesus viesse para saber um pouco o sentido da palavra “amor” e do verbo “amar”! Aliás, o mandamento de “amar o seu próximo como a si mesmo” encontra-se já no Livro do Levítico. Então, como compreender esta “novidade”? O próprio Jesus dá-nos a chave: “Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. Só olhando Jesus saberemos como Ele nos amou. A sua própria vida é uma prática desta palavra. E isto vai para além daquilo que, humanamente, podemos fazer. Ele diz-nos para perdoar setenta vezes sete, isto é, sem colocar qualquer limite ao perdão. “Amai os vossos inimigos e rezai pelos vossos perseguidores”… “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”… São João escreve que “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”, isto é, até à plenitude do amor cuja Fonte é o seu Pai. Sim, a maneira de Jesus nos amar ultrapassa a nossa maneira de amar. Neste sentido, o amor que Ele nos convida a viver entre nós é mesmo novo! Mas há mais! Porque as exigências de um tal amor podem parecer desmedidas, fora do nosso alcance e deixar-nos no desespero: nunca chegaremos aí! Ora, é preciso compreender bem o “como Eu vos amei”. Jesus não nos diz: “Eu amei-vos. Agora, desenrascai-vos, fazei esforço para Me imitar!” Ele diz-nos: “Porque Eu, que vos amo e vos dou o amor infinito do Pai, deixai-vos amar, como uma criança que se deixa tomar nos braços da sua mãe e do seu pai. Vinde até Mim. Aquele que vem até Mim, não o abandonarei. Então, poderei derramar em vós a força do próprio Amor que é Deus. Assim, encontrareis a força para ir para além das capacidades humanas, podereis, dia após dia, aprender a amar-vos como Eu vos amo”. Sim, Senhor, quero ir junto de Ti, porque tens as palavras da vida eterna.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III para a Assembleia com Crianças.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
«Como Eu vos amei”. Exigência deste “como”… porque Jesus não fingiu amar-nos! No caminho desta semana, vou encontrar homens, mulheres, jovens, crianças… Como vou amá-los como Jesus? Isto é, sem fingimentos, gratuitamente, sinceramente, dando-me a eles com o melhor de mim mesmo… A nossa vida de baptizados deve ser sinal no meio da descrença e da indiferença do mundo. Segundo o amor que teremos uns para com os outros… todos verão que somos discípulos de Cristo!


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS

Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #6 em: 12 de Maio de 2007, 14:38 »


6º Domingo da Páscoa - Ano C


ANO C
6º DOMINGO DA PÁSCOA
13 de Maio de 2007

Tema do 6º Domingo da Páscoa

Na liturgia deste domingo sobressai a promessa de Jesus de acompanhar de forma permanente a caminhada da sua comunidade em marcha pela história: não estamos sozinhos; Jesus ressuscitado vai sempre ao nosso lado.
No Evangelho, Jesus diz aos discípulos como se hão-de manter em comunhão com Ele e reafirma a sua presença e a sua assistência através do “paráclito” – o Espírito Santo.
A primeira leitura apresenta-nos a Igreja de Jesus a confrontar-se com os desafios dos novos tempos. Animados pelo Espírito, os crentes aprendem a discernir o essencial do acessório e actualizam a proposta central do Evangelho, de forma que a mensagem libertadora de Jesus possa ser acolhida por todos os povos.
Na segunda leitura, apresenta-se mais uma vez a meta final da caminhada da Igreja: a “Jerusalém messiânica”, essa cidade nova da comunhão com Deus, da vida plena, da felicidade total.



LEITURA I – Actos 15,1-2.22-29

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
alguns homens que desceram da Judeia
ensinavam aos irmãos de Antioquia:
«Se não receberdes a circuncisão,
segundo a Lei de Moisés,
não podereis salvar-vos».
Isto provocou muita agitação e uma discussão intensa
que Paulo e Barnabé tiveram com eles.
Então decidiram que Paulo e Barnabé e mais alguns discípulos
subissem a Jerusalém
para tratarem dessa questão com os Apóstolos e os anciãos.
Os Apóstolos e os anciãos, de acordo com toda a Igreja,
decidiram escolher alguns irmãos
e mandá-los a Antioquia com Barnabé e Paulo.
Eram Judas, a quem chamavam Barsabás,
e Silas, homens de autoridade entre os irmãos.
Mandaram por eles esta carta:
«Os Apóstolos e os anciãos, irmãos vossos,
saúdam os irmãos de origem pagã
residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia.
Tendo sabido que, sem nossa autorização,
alguns dos nossos vos foram inquietar,
perturbando as vossas almas com as suas palavras,
resolvemos, de comum acordo,
escolher delegados para vo-los enviarmos
juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo,
homens que expuseram a sua vida
pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso vos mandamos Judas e Silas,
que vos transmitirão de viva voz as nossas decisões.
O Espírito Santo e nós
decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação,
além destas que são indispensáveis:
abster-se da carne imolada aos ídolos,
do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais.
Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus».

AMBIENTE

A entrada maciça de crentes gentios na comunidade cristã (sobretudo após a primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé) vai trazer a lume uma questão essencial: deve impor-se aos crentes de origem pagã a prática da Lei de Moisés? Não se trata, aqui, de um problema acidental ou secundário, de uma medida disciplinar ou de puros costumes, mas de algo tão fundamental como saber se a salvação vem através da circuncisão e da observância da “Torah” judaica, ou única e exclusivamente por Cristo. Dito de outra forma: Jesus Cristo é o único Senhor e salvador, ou são precisas outras coisas além d’Ele para chegar a Deus e para receber d’Ele a graça da salvação?
A comunidade cristã de Antioquia (onde o problema se põe com especial acuidade) não tem a certeza sobre o caminho a seguir. Paulo e Barnabé acham que Cristo basta; mas os “judaizantes” – cristãos de origem judaica, que conservam as práticas tradicionais do judaísmo – defendem que os ritos prescritos pela “Torah” também são necessários para a salvação. Decide-se, então, enviar uma delegação a Jerusalém, a fim de consultar os Apóstolos e os anciãos acerca da questão. Estamos por volta do ano 49.

MENSAGEM

Este texto começa por pôr a questão e por apresentar os passos dados para a solucionar: Paulo, Barnabé e alguns outros (também Tito, de acordo com Gal 2,1) são enviados a Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos (vers. 1-2). A questão é de tal importância que se organiza a reunião dos dirigentes e animadores das comunidades, conhecida como “concílio apostólico” ou “concílio de Jerusalém”. Essa assembleia vai, pois, discutir o que é essencial na proposta cristã (e que devia ser incluído no núcleo fundamental da pregação) e o que é acessório (e que podia ser dispensado, não constituindo uma verdade fundamental da fé cristã).
O texto que nos é proposto hoje interrompe aqui a descrição dos acontecimentos. No entanto, sabemos (pela descrição dos “Actos”) que nessa “assembleia eclesial” vão enfrentar-se várias opiniões. Pedro reconhece a igualdade fundamental de todos – judeus e pagãos – diante da proposta de salvação, que a Lei é um jugo que não deve ser imposto aos pagãos e que é “pela graça do Senhor Jesus” que se chega à salvação (cf. Act 15,7-12); mas Tiago (representante da ala “judaizante), sem se opor à perspectiva de Pedro, procura salvar o possível das tradições judaicas e propõe que sejam mantidas algumas tradições particularmente caras aos judeus (cf. Act 15,13-21). Na realidade, há acordo quanto ao essencial. Embora o texto de Lucas não seja totalmente explícito, percebe-se a decisão final: não se pode impor aos gentios a lei judaica; só Cristo basta. Assim dá-se luz verde à missão entre os pagãos. É a decisão mais importante da Igreja nascente: o cristianismo cortou o cordão umbilical com o judaísmo e pode, agora, ser uma proposta universal de salvação, aberta a todos os homens, de todas as raças e culturas.
O nosso texto retoma a questão neste ponto. Nos vers. 22-29 da leitura de hoje apresenta-se o “comunicado final” da “assembleia de Jerusalém”: a práxis judaica não pode ser imposta, pois não é essencial para a salvação… No entanto, pede-se a abstenção de alguns costumes particularmente repugnantes para os judeus.
É de destacar, ainda, a referência ao Espírito Santo do vers. 28: a decisão é tomada por homens, mas assistidos pelo Espírito. Manifesta-se, assim, a consciência da presença do Espírito, que conduz e que assiste a Igreja na sua caminhada pela história.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, para a reflexão, as seguintes linhas:

• A questão de cumprir ou não os ritos da Lei de Moisés é uma questão ultrapassada, que hoje não preocupa nenhum cristão; mas este episódio vale, sobretudo, pelo seu valor exemplar. Faz-nos pensar, por exemplo, em rituais ultrapassados, em práticas de piedade vazias e estéreis, em fórmulas obsoletas, que exprimiram num certo contexto, mas já não exprimem o essencial da proposta cristã. Faz-nos pensar na imposição de esquemas culturais – ocidentais, por exemplo – que muitas vezes não têm nada a ver com a forma de expressão de certas culturas… O essencial do cristianismo não pode ser vivido sem o concretizar em formas determinadas, humanas e, por isso, condicionadas e finitas. Mas é necessário distinguir o essencial do acessório; o essencial deve ser preservado e o acessório deve ser constantemente actualizado. Quais são os ritos e as práticas decididamente obsoletos, que impedem o homem de hoje de redescobrir o núcleo central da mensagem cristã? Será que hoje não estamos a impedir, como outrora, o nascimento de Cristo para o mundo, mantendo-nos presos a esquemas e modos de pensar e de viver que têm pouco a ver com a realidade do mundo que nos rodeia?

• É necessário ter presente que o essencial é Cristo e a sua proposta de salvação. Essa é que é a proposta revolucionária que temos para apresentar ao mundo. O resto são questões cuja importância não nos deve distrair do essencial.

• Devemos também ter consciência da presença do Espírito na caminhada da Igreja de Jesus. No entanto, é preciso escutá-l’O, estar atento às interpelações que Ele lança, saber ler as suas indicações nos sinais dos tempos e nas questões que o mundo nos apresenta… Estamos verdadeiramente atentos aos apelos do Espírito?

• É preciso aprender com a forma como os Apóstolos responderam aos desafios dos tempos: com audácia, com imaginação, com liberdade, com desprendimento e, acima de tudo, com a escuta do Espírito. É assim que a Igreja de Jesus deve enfrentar hoje os desafios do mundo.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão 1: Louvado sejais, Senhor,
pelos povos de toda a terra.

Refrão 2: Aleluia.

Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação.

Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.

Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu louvor aos confins da terra.



LEITURA II – Ap 21,10-14.22-23

Leitura do livro do Apocalipse

Um Anjo transportou-me em espírito
ao cimo de uma alta montanha
e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém,
que descia do Céu, da presença de Deus,
resplandecente da glória de Deus.
O seu esplendor era como o de uma pedra preciosíssima,
como uma pedra de jaspe cristalino.
Tinha uma grande e alta muralha,
com doze portas e, junto delas, doze Anjos;
tinha também nomes gravados,
os nomes das doze tribos dos filhos de Israel:
três portas a nascente, três portas ao norte,
três portas ao sul e três portas a poente.
A muralha da cidade tinha na base doze reforços salientes
e neles doze nomes: os doze Apóstolos do Cordeiro.
Na cidade não vi nenhum templo,
porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro.
A cidade não precisa da luz do sol nem da lua,
porque a glória de Deus a ilumina
e a sua lâmpada é o Cordeiro.

AMBIENTE

Continuamos a ler a parte final do livro do “Apocalipse”. Nela, João apresenta-nos o resultado da intervenção definitiva de Deus no mundo: depois da vitória de Deus sobre as forças que oprimem o homem e o privam da vida plena, nascerá a comunidade nova e santa, a criação definitiva de Deus, o novo céu e a nova terra.
A liturgia do passado domingo apresentou-nos um primeiro quadro dessa nova realidade; hoje, a mesma realidade é descrita através de um segundo quadro – o da “Jerusalém messiânica”.

MENSAGEM

É, ainda, a imagem da “nova Jerusalém que desce do céu” que nos é apresentada. Já vimos na passada semana que falar de Jerusalém é falar do lugar onde irá irromper a salvação definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.
Na apresentação desta “nova Jerusalém”, domina o número “doze”: na base da muralha há doze reforços salientes e neles os doze nomes dos Apóstolos do “cordeiro”; a cidade tem, igualmente, doze portas (três a nascente, três ao norte, três ao sul e três a poente), nas quais estão gravados os nomes das doze tribos de Israel; há, ainda, doze anjos junto das portas. O número “doze” indica a totalidade do Povo de Deus (12 tribos + doze Apóstolos): ela está fundada sobre os doze Apóstolos – testemunhas do “cordeiro” – mas integra a totalidade do Povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento, conduzido à vida plena pela acção salvadora e libertadora de Cristo. As portas, viradas para os quatro pontos cardeais, indicam que todos os povos (vindos do norte, do sul, de este e do oeste) podem entrar e encontrar lugar nesse lugar de felicidade plena.
Num desenvolvimento que a leitura de hoje não conservou (vers. 15-17), apresentam-se as dimensões dessa “cidade”: 144 côvados (12 vezes doze), formando um quadrado perfeito. Trata-se de mostrar que a cidade (perfeita, harmoniosa) está traçada segundo o modelo bíblico do “santo dos santos” (cf. 1 Re 6,19-20): a cidade inteira aparece, assim, como um Templo dedicado a Deus, onde Deus reside de forma permanente no meio do seu Povo.
É por isso que a última parte deste texto (vers. 22-23) diz que a cidade não tem Templo: nesse lugar de vida plena, o homem não terá necessidade de mediações, pois viverá sempre na presença de Deus e encontrará Deus face a face. Diz-se ainda que toda a cidade estará banhada de luz: a luz indica a presença divina (cf. Is 2,5; 24,23; 60,19): Deus e o “cordeiro” serão a luz que ilumina esta comunidade de vida plena.
Após a intervenção definitiva de Deus na história nascerá, então, essa nova “cidade” construída sobre o testemunho dos apóstolos; cidade de portas abertas, ela acolherá todos os homens que aderirem ao “cordeiro”; nela, eles encontrarão Deus e viverão na sua presença, recebendo a vida em plenitude.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta as seguintes indicações para reflexão:

• Já o dissemos a propósito da segunda leitura do passado domingo: o profeta João garante-nos que as limitações impostas pela nossa finitude, as perseguições que temos de enfrentar por causa da verdade e da justiça, os sofrimentos que resultam dos nossos limites, não são a última palavra; espera-nos, para além desta terra, a vida plena, face a face com Deus. Esta certeza tem de dar um sentido novo à nossa caminhada e alimentar a nossa esperança.

• A Igreja em marcha pela história não é, ainda, essa comunidade messiânica da vida plena de que fala esta leitura; mas tem de apontar nesse sentido e procurar ser, apesar do pecado e das limitações dos homens, um anúncio e uma prefiguração dessa comunidade escatológica da salvação, que dá testemunho da utopia e que acende no mundo a luz de Deus. A humanidade necessita desse testemunho.

• Ainda que esta realidade de vida plena, de felicidade total, só aconteça na “nova Jerusalém”, ela tem de começar a ser construída desde já nesta terra. Deve ser essa a tarefa que nos motiva, que nos empenha e que nos compromete: a construção de um mundo de justiça, de amor e de paz, que seja cada vez mais um reflexo do mundo futuro que nos espera.



ALELUIA – Jo 14,23

Aleluia. Aleluia.

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.



EVANGELHO – Jo 14,23-29

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quem Me ama guardará a minha palavra
e meu Pai o amará;
Nós viremos a ele
e faremos nele a nossa morada.
Quem Me não ama não guarda a minha palavra.
Ora a palavra que ouvis não é minha,
mas do Pai que Me enviou.
Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco.
Mas o Paráclito, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará todas as coisas
e vos recordará tudo o que Eu vos disse.
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.
Não vo-la dou como a dá o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes que Eu vos disse:
Vou partir, mas voltarei para junto de vós.
Se Me amásseis,
ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai,
porque o Pai é maior do que Eu.
Disse-vo-lo agora, antes de acontecer,
para que, quando acontecer, acrediteis».

AMBIENTE

Continuamos no contexto da “ceia de despedida”. Jesus, que acaba de fundar a sua comunidade, dando-lhe por estatuto o mandamento do amor (cf. Jo 13,1-17;13,33-35), vai agora explicar como é que essa comunidade manterá, após a sua partida, a relação com Ele e com o Pai.
Nos versículos anteriores ao texto que nos é proposto, Jesus apresentou-Se como “o caminho” (cf. Jo 14,6) e convidou os discípulos a percorrer esse mesmo “caminho” (cf. Jo 14,4-5). O que é que isso significa? Jesus, enquanto esteve no mundo, percorreu um “caminho” – o da entrega ao homem, o do serviço, o do amor total; é nesse “caminho que o homem” – o Homem Novo que Jesus veio criar – se realiza. A comunidade de Jesus tem, portanto, que percorrer esse “caminho”. A metáfora do “caminho” expressa o dinamismo da vida que é progressão; percorrê-lo, é alcançar a plena maturidade do Homem Novo, do homem que desenvolveu todas as suas potencialidades, do homem recriado para a vida definitiva. O final desse “caminho” é o amor radical, a solidariedade total com o homem. Nesse “caminho”, encontra-se o Pai.
Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão dele a força para doar, dia a dia, a própria vida?

MENSAGEM

Para seguir esse “caminho” é preciso amar Jesus e guardar a sua Palavra (cf. Jo 14,23). Quem ama Jesus e O escuta, identifica-se com Ele, isto é, vive como Ele, na entrega da própria vida em favor do homem… Ora, viver nesta dinâmica é estar continuamente em comunhão com Jesus e com o Pai. O Pai e Jesus, que são um, estabelecerão a sua morada no discípulo; viverão juntos, na intimidade de uma nova família (vers. 23-24).
Para que os discípulos possam continuar a percorrer esse “caminho” no tempo da Igreja, o Pai enviará o “paráclito”, isto é, o Espírito Santo (vers. 25-26). A palavra “paráclito” pode traduzir-se como “advogado”, “auxiliador”, “consolador”, “intercessor”. A função do “paráclito” é “ensinar” e “recordar” tudo o que Jesus propôs. Trata-se, portanto, de uma presença dinâmica, que auxiliará os discípulos trazendo-lhes continuamente à memória os ensinamentos de Jesus e ajudando-os a ler as propostas de Jesus à luz dos novos desafios que o mundo lhes colocar. Assim, os crentes poderão continuar a percorrer, na história, o “caminho” de Jesus, numa fidelidade dinâmica às suas propostas. O Espírito garante, dessa forma, que o crente possa continuar a percorrer esse “caminho” de amor e de entrega, unido a Jesus e ao Pai. A comunidade cristã e cada homem tornam-se a morada de Deus: na acção dos crentes revela-se o Deus libertador, que reside na comunidade e no coração de cada crente e que tem um projecto de salvação para o homem.
A última parte do texto que nos é proposto contém a promessa da “paz” (vers. 27). Desejar a “paz” (“shalom”) era a saudação habitual à chegada e à partida. No entanto, neste contexto, a saudação não é uma despedida trivial (“não vo-la dou como a dá o mundo”), pois Jesus não vai estar ausente. O que Jesus pretende é inculcar nos discípulos apreensivos a serenidade e evitar-lhes o temor. São palavras destinadas a tranquilizar os discípulos e a assegurar-lhes que os acontecimentos que se aproximam não porão fim à relação entre Jesus e a sua comunidade. As últimas palavras referidas por este texto (vers. 28-29) sublinham que a ausência de Jesus não é definitiva, nem sequer prolongada. De resto, os discípulos devem alegrar-se, pois a morte não é uma tragédia sem sentido, mas a manifestação suprema do amor de Jesus pelo Pai e pelos homens.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode contemplar as seguintes linhas:

• Falar do “caminho” de Jesus é falar de uma vida gasta em favor dos irmãos, numa doação total e radical, até à morte. Os discípulos são convidados a percorrer, com Jesus, esse mesmo “caminho”. Paradoxalmente, dessa entrega (dessa morte para si mesmo) nasce o Homem Novo, o homem na plenitude das suas possibilidades, o homem que desenvolveu até ao extremo todas as suas potencialidades. É esse “caminho” que eu tenho vindo a percorrer? A minha vida tem sido doação, entrega, dom, amor até ao extremo? Tenho procurado despir-me do egoísmo e do orgulho que impedem o Homem Novo de aparecer?

• A comunhão do crente com o Pai e com Jesus não resulta de momentos mágicos nos quais, através da recitação de certas fórmulas, a vida de Deus bombardeia e inunda incondicionalmente o crente; mas a intimidade e a comunhão com Jesus e com o Pai estabelece-se percorrendo o caminho do amor e da entrega, numa doação total aos irmãos. Quem quiser encontrar-se com Jesus e com o Pai, tem de sair do egoísmo e aprender a fazer da sua vida um dom aos homens.

• É impressionante essa pedagogia de um Deus – o nosso Deus – que nos deixa ser os construtores da nossa própria história, mas não nos abandona. De forma discreta, respeitando a nossa liberdade, Ele encontrou formas de continuar connosco, de nos animar, de nos ajudar a responder aos desafios, de nos recordar que só nos realizaremos plenamente na fidelidade ao “caminho” de Jesus.

• O cristão tem de estar, no entanto, atento à voz do Espírito, sensível aos apelos do Espírito; tem de procurar detectar os novos caminhos que o Espírito propõe; tem de estar na disposição de se deixar questionar e de refazer a sua vida, sempre que o Espírito lhe dá a entender que ela está a afastar-se do “caminho” de Jesus. Estamos sempre atentos aos sinais do Espírito e disponíveis para enfrentar os seus desafios?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 6º DOMINGO DA PÁSCOA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 6º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. FAVORECER O ACOLHIMENTO DA BOA NOVA.
Como no domingo passado, a riqueza do Evangelho é grande: será suficiente uma única audição? Pode-se valorizar e fazer eco da Boa Nova durante toda a celebração: na palavra de acolhimento à celebração, podem-se inserir já algumas frases da Boa Nova; no momento da proclamação do Evangelho, o presidente procurará ler o texto sem se apressar, com um tom meditativo, fazendo algumas breves pausas; no momento do gesto de paz, o padre (ou o diácono) pode recordar que é a paz do Senhor que é oferecida – “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”; depois da comunhão, algumas frases do Evangelho poderão ajudar à meditação….

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Nosso Pai, nós Te damos graças pelo teu Espírito Santo, que Tu comunicaste generosamente aos Apóstolos e, por eles, às tuas Igrejas, para orientar, guiar, sustentar e encorajar o teu povo na fidelidade à tua vontade.
Nós Te pedimos pela Igrejas que estão em sínodo e por todas as equipas pastorais: pelo teu Espírito, ilumina-as na tomada de decisões!

No final da segunda leitura:
Deus Pai, estás presente em todas as assembleias de oração, por mais modestas que sejam, até nas nossas famílias, para aí revelar a Jerusalém celeste e a nova terra que desejas criar connosco. Bendito sejas!
Nós Te pedimos pelas paróquias e pelas comunidades que constroem, decoram ou reparam as suas igrejas. Que o teu Espírito as oriente nas suas escolhas.

No final do Evangelho:
Pai de Jesus Cristo e nosso Pai, nós Te damos graças pela tua presença fiel no teu Povo, primeiro pelo teu Filho, que habitou no meio dos discípulos, em seguida pelo teu Espírito, o Defensor, que habita connosco.
Nós Te pedimos: mantém-nos fiéis à tua Palavra, dá-nos a paz, a tua paz, aquela de que o mundo tem necessidade. O teu Espírito de Paz.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus gostava de dizer que nunca estava só. Vemo-lo retirar-se para a montanha, só, mas para se juntar a seu Pai. E promete aos discípulos não os deixar órfãos porque lhes enviará o seu Espírito, o Espírito Santo, o Defensor. Na hora das grandes confidências, pouco tempo antes da sua paixão, Jesus anuncia aos seus discípulos que virá habitar neles com o seu Pai, na condição de permanecerem fiéis à sua palavra. Parece dizer: “se quereis que venhamos habitar em vós, aceitai morar na fidelidade a toda a mensagem que vos transmiti”. Não somente o Pai e o Filho querem habitar nos discípulos, mas o Espírito Santo também habitará neles para ensinar e fazer recordar-se de tudo o que Jesus lhes disse. Sabemos que há duas formas de morte: a morte física e o esquecimento. Jesus veio anunciar aos seus discípulos que, após a sua morte, Ele ressuscitará, e o Espírito Santo ajudará os discípulos a não esquecer o que fez e disse: eles farão memória, recordando-se d’Ele, mas, sobretudo, proclamando-O vivo hoje até à sua vinda na glória.

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada”. Uma vez mais, Jesus parece pôr uma condição para que o Pai possa amar-nos. Quem pode pretender amar o Senhor, guardar a sua Palavra? Parece mesmo que quanto mais os anos passam mais se instala em nós uma certa lassidão e esmorece o ardor em amar o Senhor. Apesar de todos os esforços, parece que estamos longe da intimidade com Jesus. Mesmo sendo fiéis à oração, frequentando os sacramentos, em particular a Eucaristia, sentimos um vazio… Parece que não amamos bastante o Senhor! Mas recordemo-nos do essencial: a absoluta anterioridade do amor de Deus por nós, foi Ele que nos amou primeiro… O que Jesus nos pede é que reconheçamos primeiro o amor do Pai por nós, que nos precede sempre. Na medida em que guardamos este amor de Jesus com seu Pai, este amor primeiro, podemos guardar a sua Palavra e aprender a amar.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III para Assembleia com Crianças. Os textos próprios do tempo pascal são particularmente significativos.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Que fazemos da Palavra? Em cada domingo a Palavra é-nos oferecida. Que fazemos dela? Ela é o “fio condutor” da nossa semana? Ou esquecemo-la mal a escutamos? Nesta semana, procuremos recordar a Palavra evangélica e deixemo-nos transformar por ela. O Espírito Santo ensinar-nos-á, far-nos-á compreender, diz-nos Jesus. Basta estarmos abertos à sua acção!


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #7 em: 24 de Maio de 2007, 10:16 »


Solenidade da Ascensão do Senhor - Ano C


ANO C
Domingo VII da Páscoa
SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR
20 de Maio de 2007

Tema da Solenidade da Ascensão do Senhor

A Solenidade da Ascensão de Jesus que hoje celebramos sugere que, no final de um caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, em comunhão com Deus. Sugere, também, que Jesus nos deixou o testemunho e que somos agora nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projecto libertador de Deus para os homens e para o mundo.
O Evangelho apresenta-nos as palavras de despedida de Jesus que definem a missão dos discípulos no mundo. Faz, também, referência à alegria dos discípulos: essa alegria resulta do reconhecimento da presença no mundo do projecto salvador de Deus e resulta do facto de a ascensão de Jesus ter acrescentado à vida dos crentes um novo sentido.
Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projecto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo caminho de Jesus. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projecto de Jesus.
A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside nesse “corpo”.



LEITURA I – Actos 1,1-11

Leitura dos Actos dos Apóstolos

No meu primeiro livro, ó Teófilo,
narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar,
desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu,
depois de ter dado, pelo Espírito Santo,
as suas instruções aos Apóstolos que escolhera.
Foi também a eles que, depois da sua paixão,
Se apresentou vivo com muitas provas,
aparecendo-lhes durante quarenta dias
e falando-lhes do reino de Deus.
Um dia em que estava com eles à mesa,
mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém,
mas que esperassem a promessa do Pai,
«da Qual – disse Ele – Me ouvistes falar.
Na verdade, João baptizou com água;
vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo,
dentro de poucos dias».
Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar:
«Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?»
Ele respondeu-lhes:
«Não vos compete saber os tempos ou os momentos
que o Pai determinou com a sua autoridade;
mas recebereis a força do Espírito Santo,
que descerá sobre vós,
e sereis minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria
e até aos confins da terra».
Dito isto, elevou-Se à vista deles
e uma nuvem escondeu-O a seus olhos.
E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava,
apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco,
que disseram:
«Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?
Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu,
virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

AMBIENTE

O livro dos “Actos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projecto salvador de Deus?
É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projecto de salvação e libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projecto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.

MENSAGEM

O nosso texto começa com um prólogo (vers. 1-2) que relaciona os “Actos” com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua acção no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são, também, apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.
Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia da Páscoa – cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.
As palavras de despedida de Jesus (vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.
Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.
Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.
Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projecto de libertação do homem e do mundo.
Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o caminho de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projecto de salvação no meio do mundo.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, para a reflexão e actualização, os seguintes elementos:

• A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos que uma vida vivida na fidelidade aos projectos do Pai é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo caminho de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.

• A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projecto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?

• O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa actividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?

• Não é invulgar ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus vivem a olhar para o céu e ignoram os dramas da terra. Estamos, efectivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens?



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 46 (47)

Refrão 1: Por entre aclamações e ao som da trombeta,
ergue-Se Deus, o Senhor.

Refrão 2: Ergue-Se Deus, o Senhor,
em júbilo e ao som da trombeta.

Refrão 3: Aleluia.

Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.

Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado.



LEITURA II – Ef 1,17-23

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios

Irmãos:
O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória,
vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O conhecerdes plenamente
e ilumine os olhos do vosso coração,
para compreenderdes a esperança a que fostes chamados,
os tesouros de glória da sua herança entre os santos
e a incomensurável grandeza do seu poder
para nós os crentes.
Assim o mostra a eficácia da poderosa força
que exerceu em Cristo,
que Ele ressuscitou dos mortos
e colocou à sua frente nos Céus,
acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania,
acima de todo o nome que é pronunciado,
não só neste mundo,
mas também no mundo que há-de vir.
Tudo submeteu aos seus pés
e pô-l’O acima de todas as coisas
como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo,
a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.

AMBIENTE

A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia.
Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da carta e faz parte de uma acção de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam com todos os irmãos na fé.

MENSAGEM

À acção de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (vers. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (vers. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf. Col 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.
O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1 Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27; Rom 12,3-8); mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para reflectir, sobretudo, sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).
Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direcção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/“corpo” está submetida à obediência a Cristo/“cabeça”: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.
Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projecto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (vers. 23).

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, as seguintes linhas:

• Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria ressurreição. Formamos com Ele um “corpo”, destinados à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse caminho do amor e da entrega total que Cristo percorreu.

• Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo corpo, alimentados pela mesma vida.

• Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude o projecto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela acção dos crentes, Cristo for “um em todos”.


LEITURA II – Heb 9,24-28; 10,19-23 (pode ser escolhida em alternativa à anterior)



ALELUIA – Mt 28,19a.20b

Aleluia. Aleluia.

Ide e ensinai todos os povos, diz o Senhor:
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.



EVANGELHO – Lc 24,46-53

Conclusão do santo Evangelho segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer
e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai.
Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia
e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu.
Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.

AMBIENTE

O Evangelho de hoje situa-nos no dia de Páscoa. Cristo já se manifestou aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf. Lc 24,36-43). No texto que nos é proposto, apresentam-se as últimas instruções de Jesus (cf. Lc 24,44-49) e a ascensão (cf. Lc 24,50-53).
Ao contrário dos “Actos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são colocados – aqui – no mesmo dia, o que parece mais correcto do ponto de vista teológico: ressurreição e ascensão não se podem diferenciar; são apenas formas humanas de falar da passagem da morte à vida definitiva junto de Deus.

MENSAGEM

O nosso texto está dividido em duas partes: despedida dos discípulos (vers. 46-49) e ascensão (vers. 50-53).
Na primeira parte temos, portanto, as palavras de despedida de Jesus. Os discípulos que fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas, a pregar a conversão (“metanoia” – a transformação radical da vida, da mentalidade, dos valores) e o perdão dos pecados (ou seja, o anúncio de que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência para iniciarem uma vida de Homens Novos). Para esta tarefa ingente, os discípulos contam com a ajuda e a assistência do Espírito. Temos também, aqui, todos os elementos daquilo que será a futura missão da Igreja. O testemunho apostólico terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o Messias libertador anunciado pelas escrituras (vers. 44.46). Desde Jerusalém, esta proposta deve ser anunciada a todas as nações. Este “percurso” será explicitado no livro dos “Actos”.
Na segunda parte, Lucas descreve a ascensão, situada em Betânia. Há duas indicações de Lucas que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afecta positivamente toda a vida e toda a acção dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projecto salvador e libertador de Deus está em marcha.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

• A ressurreição/ascensão de Jesus convida-nos a ver a vida com outros olhos – os olhos da esperança. Diz-nos que o sofrimento, a perseguição, o ódio, a morte, não são a última palavra para definir o quadro do nosso caminho; diz-nos que no final de um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas consequências, está a vida definitiva, a vida de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos enfrentar o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e permite-nos olhar com serenidade para esse qualquer coisa de novo que nos espera, para esse futuro de vida plena que é o nosso destino final.

• A ascensão de Jesus e, sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a todos os homens está agora nas nossas mãos e que é nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus, temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra. Sentimos, de facto, esta responsabilidade? Preocupamo-nos em tornar realidade no mundo os gestos libertadores de Cristo? Procuramos construir, no dia a dia, esse mundo novo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz?

• A alegria que brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projecto salvador e libertador de Deus está a actuar no mundo, está a transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DA ASCENSÃO
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo da Ascensão, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ASCENSÃO… TRABALHAR A VERTICIALIDADE.
Para dar um tom mais específico a esta Solenidade, pode-se utilizar elementos para acentuar a verticalidade. Exemplos: colocar um recipiente com incenso, em frente ao altar, com o fumo do incenso a subir para o céu; levar o círio pascal na procissão de entrada e mantê-lo erguido durante todo o cântico de entrada, antes de o colocar no respectivo suporte; utilizar lamparinas (ou pequenas velas) durante a liturgia da Palavra. Antes da primeira leitura, um grupo de jovens com lamparinas acompanha o leitor e fica à volta do círio pascal. No fim da leitura, o presidente da assembleia acende uma pequena vela no círio pascal e comunica a luz às lamparinas dos jovens. Ficam com as lamparinas acesas durante o restante tempo da liturgia da Palavra. No Evangelho, ficam à volta daquele que lê o Evangelho e erguem as lamparinas no momento do Aleluia.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Pai, que diriges o mundo na tua liberdade soberana, nós Te bendizemos pela presença do teu Filho Jesus nas nossas assembleias e nas nossas famílias, pelo ensinamento da tua Palavra, pelo banquete da Eucaristia e pelo dom do teu Espírito.
Nós Te pedimos por todas as comunidades cristãs: abre os nossos corações ao teu Espírito, que os cristãos sejam testemunhas de Cristo até aos confins da terra.

No final da segunda leitura:
Cristo ressuscitado, nós Te aclamamos como o grande sacerdote por excelência.
Nós Te pedimos pelos corações feridos e os espíritos abatidos pela culpabilidade e o remorso, que eles encontrem confiança no teu perdão.

No final do Evangelho:
Pai, nós Te damos graças por toda a obra cumprida pelo teu Filho Jesus no meio dos homens, segundo as Escrituras, a sua fé em Ti no meio dos sofrimentos, a sua ressurreição e a conversão proclamada em seu nome em todas as nações.
Nós Te pedimos, ó Pai: envia sobre nós o teu Espírito Santo, força do alto, que nos prometeste e o teu Filho nos revelou. Envia-nos a testemunhar a tua obra de salvação.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
A tristeza torna o rosto sombrio e as lágrimas estorvam a vista. Os discípulos conheceram a tristeza e a decepção, não podem reconhecer o Ressuscitado que caminhava ao seu lado. Serão necessários os olhos da fé para nomear Aquele que está vivo, para se alegrar n’Ele, para O anunciar. A fé, assim, não mergulha na nostalgia. Se ela se volta para o passado, é para fazer memória. Orienta-se, sobretudo, para um futuro que já não será mais como antes. Qual é, então, o segredo dos discípulos para que estejam alegres depois da partida do seu Mestre? Muito simplesmente a sua presença, mas “de outro modo”. Doravante, Ele está sempre com eles; receberam a força do Espírito Santo, actualizam a sua mensagem, fazem memória dos seus gestos, tornando-O realmente presente no meio deles. Eles vivem na alegria porque sabem que Ele está com eles até ao fim dos tempos e que sem Ele nada podem fazer. Ele prometeu, Ele manterá as suas promessas!

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Enquanto Jesus os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu”. Mas é onde, o céu? Segundo o dicionário, é o espaço visível acima das nossas cabeças, que limita o horizonte. Hoje, os homens são capazes de ir ao espaço. O primeiro cosmonauta russo, em 1961, regressou à terra declarando que não tinha encontrado Deus! Manifestamente, Lucas não fala desse céu! Os astronautas vão para o espaço para melhor o explorar. Jesus, pela sua ressurreição, foi para lá do espaço, saiu do nosso espaço-tempo. Mas o que pode querer isso dizer? Reconheçamos que não temos qualquer experiência dessa realidade, pela simples razão de que continuamos fechados neste espaço-tempo. O que falamos, na Ascensão, tem a ver com a fé, com a confiança que podemos ter em Cristo e nas testemunhas que O viram separar-Se deles. Não há qualquer prova nem demonstração “científica” para esta subida ao céu de Jesus! Uma vez mais, somos convidados a situar-nos num outro registo, o do amor. É a nossa própria experiência: quando amamos, quando conhecemos momentos de intensa felicidade, gostaríamos que o tempo parasse, não para que tudo se acabe mas, ao contrário, para que esta felicidade que atinge todo o nosso ser seja como que eternizada. Gostaríamos de poder parar o tempo. Mas é o tempo que para o amor. Ora – aí está a nossa fé – Jesus veio habitar este desejo de eternidade em nós, para o levar à sua plena realização. Vivendo a sua vida de homem, imergiu no amor que preenche os desejos humanos mais autênticos. Ressuscitando, fez entrar todos estes desejos no mundo do amor infinito. É desse céu que se trata hoje, para lá de tudo o que possamos imaginar ou desejar. Em cada Eucaristia, acolhemos em nós a presença de Jesus ressuscitado que vem alimentar e fazer crescer o germe da vida eterna. E, no dia da nossa morte, Jesus far-nos-á entrar no “além”, no “céu”, no mundo do amor sem qualquer limite…

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I, onde se evoca a “gloriosa ascensão” do Senhor…

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Testemunhas de Cristo em 2007. “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?” A mesma palavra vem mexer com as nossas inércias e empurra-nos para fora de nós mesmos nos caminhos deste mundo. Este Messias morto e ressuscitado… vós sois suas testemunhas! Medimos o desafio e a força destas palavras? E como tomamos parte na grande rede das testemunhas de Cristo em 2007?


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #8 em: 24 de Maio de 2007, 10:23 »


Solenidade de Pentecostes - Ano C


ANO C
DOMINGO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
27 de Maio de 2007


Tema do Domingo da Solenidade de Pentecostes

O tema deste domingo é, evidentemente, o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo.
O Evangelho apresenta-nos a comunidade cristã, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e dar testemunho no mundo desse amor que Jesus viveu até às últimas consequências.
Na primeira leitura, Lucas sugere que o Espírito é a lei nova que orienta a caminhada dos crentes. É Ele que cria a nova comunidade do Povo de Deus, que faz com que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e comunicar, que une, numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.
Na segunda leitura, Paulo avisa que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede os dons que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os membros; por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.



LEITURA I – Actos 2,1-11

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Quando chegou o dia de Pentecostes,
os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.
Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu,
um rumor semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Residiam em Jerusalém judeus piedosos,
procedentes de todas as nações que há debaixo do céu.
Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se
e ficou muito admirada,
pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua.
Atónitos e maravilhados, diziam:
«Não são todos galileus os que estão a falar?
Então, como é que os ouve cada um de nós
falar na sua própria língua?
Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia,
do Ponto e da Ásia, da Frigia e da Panfília,
do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes,
ouvimo-los proclamar nas nossas línguas
as maravilhas de Deus».

AMBIENTE

Já vimos, no comentário aos textos dos domingos anteriores, que o livro dos “Actos” não pretende ser uma reportagem jornalística de acontecimentos históricos, mas sim ajudar os cristãos – desiludidos porque o “Reino” não chega – a redescobrir o seu papel e a tomar consciência do compromisso que assumiram, no dia do seu Baptismo.
No que diz respeito ao texto que nos é proposto e que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes, não existem dúvidas de que é uma construção artificial, criada por Lucas com uma clara intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Resta-nos descodificar os símbolos para chegarmos à interpelação essencial que a catequese primitiva, pela palavra de Lucas, nos deixa. Uma interpretação literal deste relato seria, portanto, uma boa forma de passarmos ao lado do essencial da mensagem; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, no folclore, e ignorar o fundamental. Ora, o interesse fundamental do autor é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projecto libertador do Pai.

MENSAGEM

Antes de mais, Lucas coloca a experiência do Espírito no dia de Pentecostes. O Pentecostes era uma festa judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originariamente, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo; mas, no séc. I, tornou-se a festa histórica que celebrava a aliança, o dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom do Espírito, Lucas sugere que o Espírito é a lei da nova aliança (pois é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo (cf. Ez 36,26-28).
Vem, depois, a narrativa da manifestação do Espírito (Act 2,2-4). O Espírito é apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex 19,16.18; Dt 4,36). Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus.
O Espírito (força de Deus) é apresentado em forma de língua de fogo. A língua não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade. “Falar outras línguas” é criar relações, é a possibilidade de superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização… Aqui, temos o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9): lá, os homens escolheram o orgulho, a ambição desmedida que conduziu à separação e ao desentendimento; aqui, regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da comunicação. É o surgimento de uma humanidade unida, não pela força, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde a acção de Deus (pelo Espírito) modifica profundamente as relações humanas, levando à partilha, à relação, ao amor.
É neste enquadramento que devemos entender os efeitos da manifestação do Espírito (cf. Act 2,5-13): todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge representantes de todo o mundo antigo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaan, pela Ásia Menor, pelo norte de África, até Roma: a todos deve chegar a proposta libertadora de Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha. A comunidade de Jesus é assim capacitada pelo Espírito para criar a nova humanidade, a anti-Babel. A possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” outra coisa não é do que a comunicação do Evangelho, que irá gerar uma comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura, as suas diferenças, todos os povos escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos poderão experimentar esse amor e essa comunhão que tornam povos tão diferentes, irmãos. O essencial passa a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças, deve unir todas as nações da terra.
O Pentecostes dos “Actos” é, podemos dizê-lo, a página programática da Igreja e anuncia aquilo que será o resultado da acção das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel, nascida da acção do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

• Temos, neste texto, os elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor ressuscitado e que testemunha na história o projecto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta a comunidade universal da salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das diferenças culturais e étnicas. A Igreja de que fazemos parte é uma comunidade de irmãos que se amam, apesar das diferenças? Está reunida por causa de Jesus e à volta de Jesus? Tem consciência de que o Espírito está presente e que a anima? Testemunha, de forma efectiva e coerente, a proposta libertadora que Jesus deixou?

• Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja… Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à acção do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?

• Para se tornar cristão, ninguém deve ser espoliado da própria cultura: nem os africanos, nem os europeus, nem os sul-americanos, nem os negros, nem os brancos; mas todos são convidados, com as suas diferenças, a acolher esse projecto libertador de Deus, que faz os homens deixarem de viver de costas voltadas, para viverem no amor. A Igreja de que fazemos parte é esse espaço de liberdade e de fraternidade? Nela todos encontram lugar e são acolhidos com amor e com respeito – mesmo os de outras raças, mesmo aqueles de quem não gostamos, mesmo aqueles que não fazem parte do nosso círculo, mesmo aqueles que a sociedade marginaliza e afasta?



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 103 (104)

Refrão 1: Enviai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra.

Refrão 2: Mandai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a terra.

Refrão 3: Aleluia.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas.

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso Espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.

Glória a deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor.



LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor»,
a não ser pela acção do Espírito Santo.
De facto, há diversidade de dons espirituais,
mas o Espírito é o mesmo.
Há diversidade de ministérios,
mas o Senhor é o mesmo.
Há diversas operações,
mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.
Em cada um se manifestam os dons do Espírito
para o bem comum.
Assim como o corpo é um só e tem muitos membros
e todos os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo,
assim também sucede com Cristo.
Na verdade, todos nós
- judeus e gregos, escravos e homens livres –
fomos baptizados num só Espírito,
para constituirmos um só Corpo.
E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

AMBIENTE

A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contra-testemunho. As questões à volta dos “carismas” (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses dons carismáticos consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como “iluminados” e assumiam com frequência atitudes de autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade; por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem voz na comunidade.
Paulo não pode ignorar esta situação. Na primeira Carta aos Coríntios, ele corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é proposto, Paulo aborda a questão dos “carismas”.

MENSAGEM

Em primeiro lugar, Paulo acha que é preciso saber ajuizar da validade dos dons carismáticos, para que não se fale em “carismas” a propósito de comportamentos que pretendem apenas garantir os privilégios de certas figuras. Segundo Paulo, o verdadeiro “carisma” é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não pode haver oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da comunidade.
De resto, é preciso que os membros da comunidade tenham consciência de que, apesar da diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que actua em todos; que apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está presente em todos; que apesar da diversidade de acções, é o mesmo Deus que age em todos. Não há, portanto, “cristãos de primeira” e “cristãos de segunda”. O que é importante é que os dons do Espírito resultem no bem de todos e sejam usados – não para melhorar a própria posição ou o próprio “ego” – mas para o bem de toda a comunidade.
Paulo conclui o seu raciocínio comparando a comunidade cristã a um “corpo” com muitos membros. Apesar da diversidade de membros e de funções, o “corpo” é um só. Em todos os membros circula a mesma vida, pois todos foram baptizados num só Espírito e “beberam” um único Espírito.
O Espírito é, pois, apresentado como Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo de Cristo”; dessa forma, Ele fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o responsável pela unidade desses diversos membros que formam a comunidade.

ACTUALIZAÇÃO

Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar os seguintes elementos:

• Temos todos consciência de que somos membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é o mesmo Espírito que nos alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não mais dignas ou mais importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com alguma frequência, cristãos com uma consciência viva da sua superioridade e da sua situação “à parte” na comunidade (seja em razão da função que desempenham, seja em razão das suas “qualidades” humanas), que gostam de mandar e de fazer-se notar. Às vezes, vêem-se atitudes de prepotência e de autoritarismo por parte daqueles que se consideram depositários de dons especiais; às vezes, a Igreja continua a dar a impressão – mesmo após o Vaticano II – de ser uma pirâmide no topo da qual há uma elite que preside e toma as decisões e em cuja base está o rebanho silencioso, cuja função é obedecer. Isto faz algum sentido, à luz da doutrina que Paulo expõe?

• Os “dons” que recebemos não podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir para o bem comum e para reforçar a vivência comunitária. As nossas comunidades são espaços de partilha fraterna, ou são campos de batalha onde se digladiam interesses próprios, atitudes egoístas, tentativas de afirmação pessoal?

• É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito?



LEITURA II – Rom 8, 8-17 (em alternativa à anterior)


SEQUÊNCIA DO PENTECOSTES

Vinde, ó Santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.



ALELUIA

Aleluia. Aleluia.

Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor.



EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

AMBIENTE

Este texto (lido já no II Domingo da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos a comunidade da nova aliança, nascida da acção criadora e vivificadora do Messias. No entanto, esta comunidade ainda não se encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de fazer a experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua missão no mundo e dar testemunho do projecto libertador de Jesus.
Nos “Actos”, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus); mas João situa no anoitecer do dia de Páscoa a recepção do Espírito pelos discípulos.

MENSAGEM

João começa por pôr em relevo a situação da comunidade. O “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo” (vers. 19a) são o quadro que reproduz a situação de uma comunidade desamparada no meio de um ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura. É uma comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade e que não sabe, agora, a que se agarrar.
Entretanto, Jesus aparece “no meio deles” (vers. 19b). João indica desta forma que os discípulos, fazendo a experiência do encontro com Jesus ressuscitado, redescobriram o seu centro, o seu ponto de referência, a coordenada fundamental à volta do qual a comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade. A comunidade cristã só existe de forma consistente se está centrada em Jesus ressuscitado.
Jesus começa por os saudar, desejando-lhes “a paz” (“shalom”, em hebraico). A “paz” é um dom messiânico; mas, neste contexto, significa sobretudo a transmissão da serenidade, da tranquilidade e da confiança, que permitirão aos discípulos superar o medo e a insegurança: a partir de agora, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade do mundo poderão derrotar os discípulos, porque Jesus ressuscitado está “no meio deles”.
Em seguida, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado”. São os “sinais” que evocam a entrega de Jesus, o amor total expresso na cruz. É nesses “sinais” (na entrega da vida, no amor oferecido até à última gota de sangue) que os discípulos reconhecem Jesus. O facto de esses “sinais” permanecerem no ressuscitado indica que Jesus será, de forma permanente, o Messias cujo amor se derramará sobre os discípulos e cuja entrega alimentará a comunidade.
Vem, depois, a comunicação do Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao homem de argila (João utiliza, aqui, precisamente o mesmo verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro” de Deus de Gn 2,7, o homem tornou-se um “ser vivente”; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova e faz nascer o Homem Novo. Agora, os discípulos possuem a vida em plenitude e estão capacitados – como Jesus – para fazerem da sua vida um dom de amor aos homens. Animados pelo Espírito, eles formam a comunidade da nova aliança e são chamados a testemunhar – com gestos e com palavras – o amor de Jesus.
Finalmente, Jesus explicita qual a missão dos discípulos (vers. 23): a eliminação do pecado. As palavras de Jesus não significam que os discípulos possam ou não – conforme os seus interesses ou a sua disposição – perdoar os pecados. Significam, apenas, que os discípulos são chamados a testemunhar no mundo essa vida que o Pai quer oferecer a todos os homens. Quem aceitar essa proposta, será integrado na comunidade de Jesus; quem não a aceitar, continuará a percorrer caminhos de egoísmo e de morte (isto é, de pecado). A comunidade, animada pelo Espírito, será a mediadora desta oferta de salvação.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes coordenadas:

• A comunidade cristã só existe de forma consistente, se está centrada em Jesus. Jesus é a sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os nossos medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à aventura de testemunhar a vida nova do Homem Novo. As nossas comunidades são, antes de mais, comunidades que se organizam e estruturam à volta de Jesus? Jesus é o nosso modelo de referência? É com Ele que nos identificamos, ou é num qualquer ídolo de pés de barro que procuramos a nossa identidade? Se Ele é o centro, a referência fundamental, têm algum sentido as discussões acerca de coisas não essenciais, que às vezes dividem os crentes?

• Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os “sinais” do amor de Jesus?

• As comunidades construídas à volta de Jesus são animadas pelo Espírito. O Espírito é esse sopro de vida que transforma o barro inerte numa imagem de Deus, que transforma o egoísmo em amor partilhado, que transforma o orgulho em serviço simples e humilde… É Ele que nos faz vencer os medos, superar as cobardias e fracassos, derrotar o cepticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor, sonhar com um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas indicações, aos seus questionamentos.


EVANGELHO – Jo 14, 15-16.23a-26 (em alternativa ao anterior)



ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DE PENTECOSTES
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo de Pentecostes, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. MANIFESTAR A DIVERSIDADE DAS LÍNGUAS.
Poderá ser interessante manifestar a diversidade das línguas durante a celebração. Se houver comunidades estrangeiras na assembleia, pode-se pedir para preparar uma invocação para o momento penitencial, uma intenção da oração universal ou ainda uma curta acção de graças depois da comunhão… cada uma na própria língua.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus criador, nós Te bendizemos pelo dom do teu Espírito, que Tu nos revelas como um sopro e um fogo e que concedes profusamente à tua Igreja e a cada um dos seus membros, nas nossas celebrações.
Espírito Santo, nós Te pedimos: dá às Igrejas as línguas adaptadas para que elas possam fazer compreender a todos os povos as maravilhas de Deus.

No final da segunda leitura:
Pai santo, nós Te damos graças porque nos deste o teu Espírito. Ele faz de nós teus filhos e tuas filhas; movidos por Ele, nós Te gritamos “Abba”, Pai!
Nós Te pedimos por todo o povo cristão: que cada um de nós se deixe conduzir pelo teu Espírito.

No final do Evangelho:
Nós Te bendizemos pelo teu Espírito de verdade, o defensor, que Tu nos enviaste e que está connosco para sempre. Nós Te damos graças pelo amor com que nos amas, a ponto de vir morar junto de nós.
Erguemos para Ti as nossas mãos e Te pedimos: venha a nós o teu Espírito, Ele que falou pelos profetas; que Ele nos faça recordar todas as palavras do teu Filho.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
Por vezes, é preciso coragem para dizer a verdade e para ser verdadeiro. Jesus sabia que os seus discípulos encontrariam muitos obstáculos para O testemunhar, Ele que é a Verdade. Então Ele promete um Defensor, Alguém que os inspirará, que lhes soprará as palavras que é preciso dizer, que respirará neles o sopro do amor, que os levará a agir em seu Nome, que os animará para fazer memória d’Ele. Este Defensor é o Espírito de Verdade, precisa Jesus, o seu Espírito. Será, pois, o seu modo de estar sempre com eles; assim, não nos deixa órfãos. São necessários sinais para manifestar esta presença do Espírito do ressuscitado. No Pentecostes, evoca-se o fogo, porque o Espírito Santo vai “queimar” a Igreja, a fim de que ela abrase o mundo para o aquecer e iluminar com o seu Amor… Evoca-se o vento, porque o Espírito vai soprar como uma tempestade e, então, transformar, refrescar… Evoca-se a multiplicidade das línguas, porque o Espírito é dado a todos numa Igreja que se diz universal… No Pentecostes, passa-se qualquer coisa. Mas o Pentecostes é hoje!

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Sob a acção do Espírito Santo…
Quando chegou o Pentecostes,
os discípulos encontravam-se todos juntos…
Tu realizas a tua promessa, Senhor Jesus.
O Espírito vem transformar os teus discípulos.
O duplo símbolo do vento e do fogo manifesta a sua obra neles
e também o que Tu desejas fazer em nós.
O Espírito sopra sobre os apóstolos, varrendo o seu medo,
abrindo as portas da casa… e do seu coração.
O medo mantinha-os escondidos, mas agora põem-se a falar.
Dirigem-se à multidão vinda a Jerusalém de todas as nações.
Como um fogo que ilumina, aquece e se espalha,
o Espírito faz com que eles proclamem as maravilhas de Deus.
Querem acender em todos os corações
o fogo do amor que queima neles.
O Espírito leva-os a fazer-se compreender em todas as línguas.
Envia-nos o teu Espírito, Senhor!
Renova o Pentecostes na tua Igreja para a salvação do mundo!
Como um vento,
que o Espírito varra em nossos corações
tudo o que nos impede de fazer a tua vontade.
Que Ele aja e mantenha aberto este coração
que tantas vezes se fecha em si mesmo
e se fecha aos outros… e também a Ti, Senhor!
Como uma língua de fogo,
que o Espírito nos cure do nosso mutismo.
Que Ele nos ensine a rezar, a falar, a conversar contigo,
como uma criança com o seu pai,
como um amigo com o seu amigo.
Que Ele nos dê a linguagem do amor fraterno com todos,
a linguagem do coração que ultrapassa o obstáculo das línguas,
esta linguagem em que o acolhimento,
a atenção ao outro, o cuidado do outro
dizem mais do que as palavras.
Ó Senhor, envia o teu Espírito
que renova a face da terra!

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, que tem uma oração própria para o Pentecostes e evoca de maneira mais explícita o Espírito Santo.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
 Lá fora o mundo espera-nos… Hoje as portas abrem-se, os medos transformam-se em audácias, as línguas proclamam as maravilhas de Deus! Que porta temos nós que abrir para sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro dos outros, na família, no trabalho, no bairro, na cidade…? Que medo, que timidez somos convidados a ultrapassar para ousar arriscar num serviço social ou eclesial que nos é solicitado? E a quem vamos nós anunciar estas maravilhas de Deus que nos fazem viver?
 Este trabalho de escuta do Espírito e de procura de respostas aos desafios actuais só se pode fazer em Igreja. O Pentecostes faz-nos reencontrar o sentido da Igreja… Experimentemos, esta semana, inserir-nos melhor num grupo em que o discernimento do trabalho do Espírito será possível e enriquecedor.


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #9 em: 30 de Maio de 2007, 17:46 »


Solenidade da Santíssima Trindade - Ano C


IX DOMINGO DO TEMPO COMUM
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
3 de Junho de 2007

Tema do Domingo da Santíssima Trindade

A Solenidade que hoje celebrámos não é um convite a decifrar a mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
A primeira leitura sugere-nos a contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor estão inscritos e manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas (Jesus Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do Pai).
A segunda leitura, convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por isso, nos “justifica”, de forma gratuita e incondicional. É através do Filho que os dons de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em plenitude.
O Evangelho convoca-nos, outra vez, para contemplar o amor do Pai, que se manifesta na doação e na entrega do Filho e que continua a acompanhar a nossa caminhada histórica através do Espírito. A meta final desta “história de amor” é a nossa inserção plena na comunhão com o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.


LEITURA I – Prov 8,22-31

Leitura do Livro dos Provérbios

Eis o que diz a Sabedoria de Deus:
«O Senhor me criou como primícias da sua actividade,
antes das suas obras mais antigas.
Desde a eternidade fui formada,
desde o princípio, antes das origens da terra.
Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas,
já eu tinha sido concebida.
Antes de se implantarem as montanhas e as colinas,
já eu tinha nascido;
ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos,
nem os primeiros elementos do mundo.
Quando Ele consolidava os céus,
eu estava presente;
Quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte,
quando condensava as nuvens nas alturas,
quando fortalecia as fontes dos abismos,
quando impunha ao mar os seus limites
para que as águas não ultrapassassem o seu termo,
quando lançava os fundamentos da terra,
eu estava a seu lado como arquitecto,
cheia de júbilo, dia após dia,
deleitando-me continuamente na sua presença.
Deleitava-me sobre a face da terra
e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens».

AMBIENTE

O Livro dos Provérbios apresenta uma colecção de “ditos”, de “sentenças”, de “máximas”, de “provérbios” (“mashal”), onde se cristaliza o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) dos “sábios” antigos (israelitas e alguns não israelitas), empenhados em definir as regras para viver bem, para ter êxito, para ser feliz. Alguns dos materiais aí apresentados podem ser do séc. X a. C.; outros, no entanto, são bem mais recentes.
O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de “instruções” e “advertências” que vai de 1,8 a 9,6. Trata-se da parte mais recente do “Livro dos Provérbios” (segundo os especialistas, não pode ser anterior ao séc. IV ou III a. C.).
O capítulo 8 do “Livro dos Provérbios” (do qual é retirado o texto que hoje nos é proposto) apresenta-nos um discurso posto na boca da própria “sabedoria”, como se ela fosse uma pessoa: trata-se de um artifício literário, através do qual o autor pretende dar força e intensidade dramática ao convite que ele lança no sentido de acolher e amar a “sabedoria”. Na primeira parte desse discurso (vers. 1-11), o autor apresenta o “púlpito” de onde a “sabedoria” vai discursar (o cume das montanhas, a encruzilhada dos caminhos, as entradas das cidades, os umbrais das casas), os destinatários da mensagem (todos os homens) e apela à escuta das palavras que ela vai pronunciar; na segunda parte (vers. 12-21), o autor apresenta as “credenciais” da “sabedoria” (ela possui a ciência, a reflexão, o conselho, a equidade, a força) e o prémio reservado àqueles que a acolhem; na terceira parte (vers. 8,22-31) – que é a que nos interessa directamente – o autor reflecte sobre a origem da sabedoria e a sua função no plano de Deus.

MENSAGEM

Em primeiro lugar, diz-se que a “sabedoria” tem origem em Deus. O autor do texto põe na boca da “sabedoria” a forma hebraica “qânâny” (“gerou-me”) para expressar a responsabilidade de Deus na origem da “sabedoria” (vers. 22).
Afirma também que ela é a primeira das obras de Deus. Antes de serem lançadas as estruturas do cosmos, a “sabedoria” já existia (vers. 24-29); mais, ela estava lá, tendo um papel interveniente na criação: no vers. 30, a “sabedoria” é apresentada como “arquitecto” (“amon”), isto é, como assistente activo de Deus na obra criadora (embora certas versões antigas leiam como “amun” – “criança” – o que sugere a ideia da “sabedoria” como uma “criança” feliz que brinca e se deleita no meio da obra criada).
Em terceiro lugar, a “sabedoria” afirma que o seu interesse e deleite é estar “junto dos filhos dos homens” (vers. 31): ela dirige-se aos homens e o seu objectivo é “ser para os homens”. Ela desempenha, portanto, um papel em favor dos homens.
Qual é esse papel? A perícopa está dominada por três palavras, que aparecem no princípio, no meio e no fim: “Jahwéh” (vers. 22), “sabedoria” (“eu” – vers. 30) e “homens” (vers. 31). Esta “coluna vertebral” revela, desde já, o objectivo do autor do texto: ao dizer que a “sabedoria” tem origem em Jahwéh, está em íntima relação com Deus e se destina aos homens, está a sugerir-se que ela tem a capacidade de pôr os homens em relação e contacto com Deus. Através dessa realidade criada que a “sabedoria” viu nascer, ela espevita a inteligência dos homens, leva-os a Deus, atrai-os para Deus. A “sabedoria”, presente desde sempre na criação, revela aos homens a grandeza e o amor do Deus criador.
A tradição judaica acabará por identificar esta “sabedoria” com a Torah (cf. Ba 3,38-4,1; Pirkê Rabbí Eliezer, III, 2). Por outro lado, os autores neo-testamentários, conhecedores dos livros sapienciais, atribuirão a Jesus algumas das características que este texto atribui à “sabedoria”: Paulo chama a Jesus “sabedoria” e “sabedoria de Deus” (cf. 1 Cor 1,24.30); considera também que Jesus, como a “sabedoria” de Prov 8, existe antes de todas as coisas e desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf. Col 1,16-17); por sua vez, o “prólogo” do Quarto Evangelho atribui ao “Lógos”/Jesus os traços da “sabedoria” criadora de Prov 8 (diz que Jesus é anterior à criação – cf. Jo 1,1) e que Ele deu existência a todas as obras criadas – cf. Jo 1,3).
Os Padres da Igreja verão nesta “sabedoria”, pré-criada e anterior à restante obra de Deus, traços de Jesus Cristo ou do Espírito Santo.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

• A referência ao Deus que tudo criou para nós com sabedoria faz-nos pensar num Pai providente e cuidadoso, que tem um projecto bem definido para os homens e para o mundo. Contemplar a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras criadas, esse Pai cheio de bondade e de amor. Somos capazes de nos sentirmos “provocados” pela criação de forma que, através dela, descubramos o amor e a bondade de Deus?

• Olhando para a obra de Deus, aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem Deus um adversário do homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza de Deus e entregar-se, confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com cuidado e que tudo nos entrega com amor. Entregamo-nos nas mãos d’Ele, não como adversários, mas como crianças que confiam incondicionalmente no seu pai?

• O desenvolvimento desordenado e a exploração descontrolada dos recursos da natureza põem em causa a harmonia desse “mundo bom” que Deus criou e que nos confiou. Temos o direito de pôr em causa, por egoísmo, a obra de Deus?

• A contemplação da obra criada leva ao espanto e ao louvor. Somos capazes de nos extasiarmos diante das coisas que Deus nos oferece e de deixarmos que a nossa admiração se derrame em louvor e agradecimento?



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 8

Refrão: Como sois grande em toda a terra,
Senhor, nosso Deus!

Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos,
a lua e as estrelas que lá colocastes,
que é o homem para que Vos lembreis dele,
o filho do homem para dele Vos ocupardes?

Fizestes dele quase um ser divino,
de honra e glória o coroastes;
destes-lhes poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés:

Ovelhas e bois, todos os rebanhos,
e até os animais selvagens,
as aves do céu e os peixes do mar,
tudo o que se move nos oceanos.



LEITURA II – Rom 5,1-5

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Tendo sido justificados pela fé,
estamos em paz com Deus,
por Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo qual temos acesso, na fé,
a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus.
Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações,
porque sabemos que a tribulação produz a constância,
a constância a virtude sólida,
a virtude sólida a esperança.

AMBIENTE

Quando Paulo escreve aos romanos, está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a carta para contactar a comunidade de Roma e apresentar aos romanos e a todos os crentes os principais problemas que o ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da unidade – um problema bem presente na comunidade de Roma, afectada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Paulo aproveita, então, para sublinhar que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Depois de notar que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11). Neste texto, que a segunda leitura de hoje nos propõe, Paulo refere-se à acção de Deus, por Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.

MENSAGEM

Paulo parte da ideia de que todos os crentes – judeus, gregos e romanos – foram justificados pela fé. Que significa isto?
Na linguagem bíblica, a justiça é, mais do que um conceito jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Jahwéh se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras; significa, sim, que a bondade, a misericórdia, o amor, próprios do “ser” de Deus, se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correcto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que acolha, com humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e que se entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem, objecto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gal 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rom 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rom 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rom 8,17; Gal 4,6-7).
Quais os frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus? Em primeiro lugar, a paz (vers. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido psicológico (tranquilidade, serenidade), mas no sentido teológico semita de relação positiva com Deus e, portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem.
Em segundo lugar, a esperança (vers. 2-4). Trata-se desse dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Não se trata de alimentar um optimismo fácil e irresponsável, que permita a evasão do presente; trata-se de encontrar um sentido novo para a vida presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (vers. 5-8). O cristão é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama. Como prova desse amor que age em nós através do Espírito, está Jesus de Nazaré a quem Deus “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”.
Tudo aquilo que enche a vida do crente, que lhe dá sentido, é um dom de Deus Pai que, através de Jesus, demonstra o seu amor e que, pelo Espírito, derrama continuamente esse amor sobre nós.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão da Palavra, considerar as seguintes coordenadas:

• Na Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho connosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência, no pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.

• A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar connosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.

• A presença do Espírito acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que continua presente e actuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que dia a dia vamos percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.

• Está em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas propostas. Em geral, os homens de hoje preocupam-se mais com os resultados da última jornada do campeonato de futebol, ou com as últimas peripécias da “telenovela das nove” do que com Deus ou com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz?



ALELUIA – cf. Ap 1,8

Aleluia. Aleluia.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
ao Deus que é, que era e que há-de vir.



EVANGELHO – Jo 16,12-15

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».

AMBIENTE

Estamos no contexto da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus.
Depois de constituir a comunidade do amor e do serviço (cf. Jo 13,1-17) e de apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade (cf. Jo 15,9-17), Jesus vai definir a missão da comunidade no mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf. Jo 15,26-27).
Jesus avisa, no entanto, que o caminho do testemunho deparará com a oposição decidida da religião estabelecida e dos poderes de morte que dominam o mundo (cf. Jo 16,1-4a); mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele ajudá-los-á e dar-lhes-á segurança no meio da perseguição (cf. Jo 16,8-11). De resto, a comunidade em marcha pela história encontrar-se-á muitas vezes diante de circunstâncias históricas novas, diante das quais terá de tomar decisões práticas: também aí se verá a presença do Espírito, que ajudará a responder aos novos desafios e a interpretar as circunstâncias à luz da mensagem de Jesus (cf. Jo 16,12-15).

MENSAGEM

O tema fundamental desta leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo.
Jesus começa por dizer aos discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que ouvir a Jesus e que interpretará o que está para vir (vers. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?
De forma nenhuma. As palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à parusia. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde irá o Espírito buscar essa verdade que vai transmitir continuamente aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

• O Espírito aparece, aqui, como presença divina na caminhada da comunidade cristã, como essa realidade que potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta, na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado, com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em comunhão com Jesus? Tem-se esforçado, com a ajuda do Espírito, por responder às interpelações da história e por actualizar, face aos novos desafios que o mundo lhe coloca, a proposta de Jesus?

• Sobretudo, somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que, através do plano de salvação/libertação do Pai, tornado realidade viva e humana em Jesus, e continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz para a vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida da comunhão e do amor em plenitude.

• A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o mistério de Deus.

• As nossas comunidades cristãs são, realmente, a expressão desse Deus que é amor e que é comunidade – onde a unidade significa amor verdadeiro, que respeita a identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira de amor, de partilha, de família, de comunidade?



ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo da Santíssima Trindade, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. DAR LUGAR AO SILÊNCIO.
É sempre difícil falar da Trindade, de explicá-la, de descrevê-la… Daí a importância de prever algum (ou alguns) momento forte de interiorização e de adoração durante a celebração: depois da homilia… depois da comunhão… Dar espaço ao silêncio para que a Trindade ecoe em nós.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus eterno, Pai e criador de todo o universo, contemplamos o céu, a terra, os oceanos e todas as suas maravilhas, onde vemos a obra admirável da tua Sabedoria. Por todas as tuas obras, nós Te bendizemos.
Nós Te confiamos as nossas inquietações quanto ao futuro da tua criação e ao equilíbrio da natureza, que as nossas técnicas violentas já muito perturbaram.

No final da segunda leitura:
Pai, nós Te damos graças pelos dons incomparáveis com que nos gratificaste: a justiça, a paz, a fé, a esperança e, sobretudo, o teu amor, que derramaste nos nossos corações pelo Espírito Santo que Tu nos deste.
Nós Te pedimos pela unidade das Igrejas, outrora quebrada por diferentes compreensões da justificação. Ilumina-nos com o teu Espírito.

No final do Evangelho:
Deus fiel, Pai revelado pelo teu Filho no teu Espírito, nós Te damos graças, porque nos introduzes na comunhão da tua glória e na verdade do teu amor.
Nós Te pedimos: Deus, Espírito de verdade, guia-nos para a verdade completa e dá-nos a força de levar as mensagens do Evangelho.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
O pintor crente Roublev tentou mostrar a relação de amor que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito, numa troca de olhares: quando o Pai e o Filho se olham, cada um guarda a sua personalidade e revela ao mesmo tempo a personalidade do outro, e esta relação de amor faz existir o Espírito que olha o Pai e o Filho, eles próprios deixando-se olhar, olhando ao mesmo tempo o Espírito de Amor que faz a sua unidade. Muitas vezes basta um olhar para dizer muitas coisas, basta um olhar para dar de novo esperança, confiança, vida, basta um olhar para dizer “amo-te!” e ouvir dizer em eco: “amo-te!” A Trindade é um intercâmbio de “amo-te!” Há unidade e, ao mesmo tempo, personalidades diferentes: cada um diz “amo-te!” e pode acrescentar “eu sou amado!” Tal é o segredo da sua existência e da sua eternidade. Mistério! Não por ser incompreensível, mas por, sem cessar, merecer ser melhor compreendido. E a Trindade não é o único mistério, a humanidade também o é, porque criada à imagem de Deus, homens e mulheres capazes de dizer “amo-te!” e capazes de dizer “eu sou amado!”

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Esta passagem de São João retoma o que Jesus nos dizia domingo passado na Solenidade do Pentecostes sobre o Espírito de verdade que nos guiará para a verdade total… É o Espírito que nos dará a força para a compreender. Domingo passado, reflectimos sobre a verdade que o Espírito Santo desvela progressivamente, ao longo da história da Igreja. Hoje, estamos atentos ao facto de a verdade do Evangelho nos atingir enquanto seres em crescimento de humanidade e de fé. Ora a fé, contrariamente ao que por vezes se imagina, não é uma luz que cega. Ela é uma espécie de luz obscura, uma confiança dada na noite. Ela implica um salto no desconhecido. Isto verifica-se particularmente a propósito do mistério da Santíssima Trindade. A palavra não se encontra na Bíblia, mas a realidade que quer exprimir está muito presente no ensino de Jesus. Assim, hoje, vemos com que insistência Jesus fala de seu Pai e do Espírito de verdade. Ele diz, o mais explicitamente possível, que entre o Pai, o Espírito e Ele tudo é comum… Deus que é Pai, Filho e Espírito, Deus Único mas não solitário, Deus comunhão eterna de Amor infinito no mais profundo do seu mistério, é a pedra angular da fé cristã, a diferença, sem dúvida, fundamental em relação às outras concepções de Deus. O nosso acto de fé é aqui decisivo, determina se somos verdadeiramente “de Cristo”. “Senhor, eu creio, mas aumenta a minha fé”.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística IV, que traça todo o plano de salvação, da criação à vinda de Cristo, e situa-o sob o signo da Aliança que é comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Mergulhar no coração do mistério… Uma festa para celebrar a relação de Amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Um mistério imenso que ultrapassa as nossas concepções humanas e no qual somos convidados a entrar. Durante a próxima semana podemos dedicar um tempo à oração, à contemplação, para nos deixarmos mergulhar no coração deste mistério de Amor da Trindade… e um tempo para recentrar de novo as nossas vidas de baptizados: a vida, o amor, a paz, o serviço… passam livremente através de nós? Ou estamos desgarrados do conjunto?


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #10 em: 15 de Junho de 2007, 14:51 »


10º Domingo do Tempo Comum - Ano C


XX DOMINGO DO TEMPO COMUM
10 de Junho de 2007

Nota inicial: não sendo possível apresentar, para este domingo, os comentários segundo o esquema habitual, limitamo-nos a breves comentários de cada uma das leituras e a um conjunto de interpelações finais sobre como ser profeta hoje, tema que percorre a liturgia deste domingo.


Tema do 10º Domingo do Tempo Comum

A dimensão profética percorre a liturgia da Palavra deste domingo, em Elias, o profeta da esperança e da vida, em Paulo, o profeta do Evangelho recebido de Deus, e, particularmente, em Jesus, o grande profeta que visita o seu povo em atitude de total oblação.
A primeira leitura apresenta-nos a figura da mulher de Sarepta, que significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procura de um culpado, e a figura do profeta Elias, que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte, ressuscitando o filho da viúva.
No Evangelho, temos a revelação de Deus expressa na atitude de piedade e compaixão de Jesus no milagre da ressurreição do filho da viúva. Deus visita o seu povo em Jesus, “um grande profeta”, realizando o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida e dando-lhe pleno sentido.
Na segunda leitura, acolhemos a absoluta gratuidade da conversão de Paulo, para quem o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que ele recebeu directamente de Deus.


LEITURA I – 1 Reis 17, 17-24

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

Naqueles dias,
caiu doente o filho da viúva de Sarepta
e a enfermidade foi tão grave que ele morreu.
Então a mãe disse a Elias:
«Que tens tu a ver comigo, homem de Deus?
Vieste a minha casa lembrar-me os meus pecados
e causar a morte do meu filho?»
Elias respondeu-lhe:
«Dá-me o teu filho».
Tomando-o dos braços da mãe,
levou-o ao quarto de cima, onde dormia,
e deitou-o no seu próprio leito.
Depois, invocou o Senhor, dizendo:
«Senhor, meu Deus,
quereis ser também rigoroso para com esta viúva,
que me hospeda em sua casa,
a ponto de fazerdes morrer o seu filho?»
Elias estendeu-se três vezes sobre o menino
e clamou de novo ao Senhor:
«Senhor, meu Deus,
fazei que a alma deste menino volte a entrar nele».
O senhor escutou a voz de Elias:
a alma do menino voltou a entrar nele
e o menino recuperou a vida.
Elias tomou o menino,
desceu do quarto para dentro da casa
e entregou-o à mãe, dizendo:
«Aqui tens o teu filho vivo».
Então a mulher exclamou:
«Agora vejo que és um homem de Deus
e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios
a palavra do Senhor».

COMENTÁRIO

O episódio de hoje, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, é um dos milagres atribuídos a Elias e enquadra-se na polémica contra a religião cananeia do deus Baal. Este era considerado o senhor e o esposo da terra e simbolizava a fertilidade dios campos, dos animais, das famílias. Enfim, era o deus da fecundidade e da vida. Portanto, em Canaan, celebrava-se todos os anos a festa da morte e da ressurreição da natureza na figura de Baal.
O milagre de Elias, como outros a eles atribuídos, significa fundamentalmente que Yahveh é a única fonte da vida e da fertilidade. A vida vem de Deus. Toda a vida e acção de Elias apontam nesse sentido; o próprio nome Elias significa “Yahveh é o meu Deus”. Portanto, todos os elementos da mensagem devem ser vistos à luz desta centralidade. Todo o relato, que pode denotar referências mágicas na relação entre pecado e doença, baseia-se na oração de Elias, que deixa clara a sua fé num Deus pessoal, senhor e fonte de vida.
A viúva de Sarepta, uma mulher estrangeira, confessa a fé em Elias como “homem de Deus”, “porta-voz de Deus”: “Agora vejo que és um homem de Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do Senhor”. Naamã confessará uma fé semelhante, depois de ser curado e se ter lavado no Jordão por indicação de Eliseu (cf. 2 Re 5,15). Jesus fará referência à viúva de Sarepta e ao sírio Naamã como representante dos gentios que entram n Igreja, após receber o Evangelho (cf. Lc 4,25-27).
A figura da mulher significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procurar um culpado. O profeta Elias é a figura que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte.
Como pensamos e agimos hoje, nós que somos cristãos? Não ficamos muitas vezes no paganismo, na falta de esperança, no derrotismo das desgraças que nos atingem? Quando é que, verdadeiramente, agimos como se Deus fosse verdadeiramente o único Deus da vida e da bondade? Quanto caminho a fazer para sermos profetas à maneira de Elias…



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 29 (30)

Refrão 1: Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes
e não deixastes que de mim se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da mansão dos mortos,
vivificastes-me para não descer ao túmulo.

Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis,
e dai graças ao seu nome santo.
A sua ira dura apenas um momento
e a sua benevolência a vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas
e ao amanhecer volta a alegria.

Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim,
Senhor, sede vós o meu auxílio.
Vós convertestes em júbilo o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.



LEITURA II – Gal 1, 11-19

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Quero que saibais, irmãos:
O Evangelho anunciado por mim
não é de inspiração humana,
porque não o recebi ou aprendi de nenhum homem,
mas por uma revelação de Jesus Cristo.
Certamente ouvistes falar do meu proceder outrora no judaísmo
e como perseguia terrivelmente a Igreja de Deus
e procurava destruí-la.
Fazia mais progressos no judaísmo
do que muitos dos meus compatriotas da mesma idade,
por ser extremamente zeloso das tradições dos meus pais.
Mas quando Aquele que me destinou desde o seio materno
e me chamou pela sua graça,
Se dignou revelar em mim o seu Filho
para que eu O anunciasse aos gentios,
decididamente não consultei a carne e o sangue,
nem subi a Jerusalém
para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim;
mas retirei-me para a Arábia
e depois voltei a Damasco.
Três anos mais tarde,
subi a Jerusalém para ir conhecer Pedro
e fiquei junto dele quinze dias.
Não vi nenhum dos Apóstolos,
a não ser Tiago, irmão do Senhor.

COMENTÁRIO

O texto de hoje enquadra-se na acentuação muito forte da absoluta gratuidade da conversão de Paulo. A essa luz Paulo prega um Evangelho que não é de origem humana. Poder-se-ia pensar que este Evangelho tem um conteúdo da catequese sobre os factos e os ditos de Jesus. Ora, Paulo, quando perseguia ferozmente os cristãos, conhecia bem o conteúdo da sua doutrina. Para Paulo, o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que Paulo recebeu directamente de Deus.
Para Paulo, a sua conversão é obra exclusiva de Deus. Temos aqui um equilíbrio dinâmico entre a gratuidade da fé e a adesão à tradição e magistério eclesiástico.
Somos convidados a estarmos sempre abertos à revelação de Deus, à autêntica conversão, ao acolhimento do Evangelho vivo de Deus.



ALELUIA – Lc 7,16

Aleluia. Aleluia.

Apareceu no meio de nós um grande profeta:
Deus visitou o seu povo.



EVANGELHO – Lc 7,11-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim;
iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão.
Quando chegou à porta da cidade,
levavam um defunto a sepultar,
filho único de sua mãe, que era viúva.
Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe:
«Não chores».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão;
e os que o transportavam pararam.
Disse Jesus:
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se e começou a falar;
e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor
e davam glória a Deus, dizendo:
«Apareceu no meio de nós um grande profeta;
Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento
espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.

COMENTÁRIO

Temos aqui o episódio da ressurreição do filho de uma viúva, em paralelismo com o da primeira leitura. O milagre relatado neste texto, assim como o dos versículos anteriores, respondem à pergunta de João de Baptista a Jesus: “és Tu que hás-de vir ou devemos esperar outro?” Jesus oferece a salvação (cf. Lc 7,1-10) e mostra o verdadeiro triunfo da vida (cf. Lc 7,11-17). Não é o relato em si que é o mais importante, mas o sentido que nos transmite.
Antes de mais, temos aqui uma revelação de Deus. Diante da atitude de piedade e compaixão de Jesus, neste milagre de ressurreição, vemos a exclamação do povo: “Deus visitou o seu povo”. Jesus é “um grande profeta”, não apenas porque transmite a Palavra de Deus e anuncia o reino com palavras, mas sobretudo porque veio realizar o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida.
Em seguida, vemos aqui o sentido da vida. Jesus veio criar, oferecer ao homem a alegria de uma vida aberta com todo o sentido.
Percebemos ainda todo o carácter de sinal presente no milagre. A ressurreição do filho da viúva testemunha Jesus que há-de vir, cuja vida triunfa plenamente sobre a morte.
Significa que para nós, hoje como então, Deus se encontra onde há o sentido da piedade, do amor vivificante. Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação.
Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero: ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher, é certo. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixamos visitar por esta grande profeta, não temos alternativa!


SER PROFETA HOJE (algumas interpelações)

A partir da liturgia de hoje, podemos percorrer algumas interpelações sobre o sentido da profecia para os tempos actuais. Como ser profeta hoje? Algumas interpelações:

1. Descobrir e propor o projecto de Deus para o mundo e para os homens. O profeta é homem do seu tempo, marcado pelas descobertas, conquistas, contradições e esperanças dos homens do seu tempo... É também alguém com uma fé profunda, com uma consciência muito forte da presença de Deus na própria vida. A vida de união e de comunhão com Deus vai impregnando a vida do profeta, de modo que vai aprendendo a interpretar todos os acontecimentos políticos, sociais e religiosos à luz de Deus e do seu projecto. Só deste modo ele pode apresentar o projecto de Deus para os homens hoje.

2. Sentir-se chamado por Deus, receber de Deus uma missão, ser enviado por Deus ao mundo. Deus chama de muitas formas... Um sonho, uma leitura, um acontecimento, um sinal... Às vezes descobre-se o seu apelo no rosto de um pobre ou de um escravizado; outras vezes, nas páginas dos jornais; outras, nas necessidades da Igreja ou da sociedade; outras, nos acontecimentos turbulentos do presente; outras, mais simplesmente, nas palavras de um amigo ou de um mestre... Ao ser chamado, o profeta recebe de Deus uma missão.

3. Estar marcado pelas experiências de solidão, angústia, sofrimento, crise, rejeição, incompreensão... Ser fiel à missão de Deus, mesmo quando, com essa atitude, o profeta se sente abandonado, rejeitado, incompreendido. No fundo, trata-se de arriscar a vida, na certeza da presença de Deus.

4. Estar desinstalado, num território concreto... como espaço de verificação e de rejeição da profecia anunciada. Ninguém é profeta na sua terra, é certo. Mas é na terra, no espaço concreto, na escola, no local de trabalho, na comunidade, na Igreja... que a profecia deve ser anunciada. Com coragem, com desassombro.

5. Viver no quotidiano da existência, na minha situação concreta, aqui e agora. Como ser profeta, aqui e agora, na minha situação, face aos problemas reais que me entram pelos olhos e interpelam o meu coração aberto ao Pai e ao próximo?

6. Anunciar as Boas Novas de sempre duma forma sempre nova. O conteúdo do anúncio profético é sempre o mesmo. Mas esta única Palavra de Deus deve ressoar duma forma sempre nova...

7. Assumir um modo novo e inédito de viver e anunciar o essencial. Anunciar um modo novo de viver o essencial. E o essencial é a fé, a esperança e a plenitude do amor, das quais os profetas foram testemunhas vulneráveis mas obstinados. O Espírito sopra onde quer e como quer, com liberdade imprevisível, não se deixando amarrar em esquemas exclusivos ou demasiado estreitos...

8. Escutar, aprender, receber, acolher... o Deus do povo e o povo de Deus.

9. Ser coerente entre a palavra anunciada e as opções pessoais. Quantos pretensos profetas gritam diante dos microfones, ditam sentenças nos jornais a torto e a direito, gesticulam nas praças e na televisão... mas não dão testemunho com a sua vida. Por isso, não mudam as coisas! Há incoerência entre pensamento e vida, entre ideal e prática.

10. Denunciar não apenas os pecados, mas as estruturas de pecado, promover e estimular novas estruturas de virtudes e valores.

11. Testemunhar entre o silêncio intenso-pleno e o silêncio despojado-vazio. Diante dos dramas recentes e actuais, diante das angústias e sofrimentos, diante dos vazios e da falta de esperança, o profeta dá testemunho, com o seu silêncio, do silêncio de Deus. Não é fácil, mas pode ser um silêncio fecundo que fala.

12. Lutar contra os novos ídolos de hoje: detectá-los, desmascará-los, denunciá-los...

13. Anunciar a fé e a justiça, assumir a esperança como raiz da profecia. Não se trata de duas coisas distintas: a fidelidade ao Deus vivo exige a defesa dos direitos do pobre. A mensagem profética, na sua capacidade de denúncia, integra-se e aperfeiçoa-se, especificando-se, na proposta de uma utopia, na “proposta de uma alternativa”, chamada esperança. Sem esperança não há profecia.

14. Profetizar no século XXI, viver pobre a profecia da gratuidade, da sobriedade, da essencialidade: sentir a alegria de dar, gratuitamente; experimentar a força do Amor criador de Deus; praticar diariamente uma vida simples, sóbria; ir profeticamente contra a corrente do domínio e do consumo; ser capaz de desmascarar as raízes do egoísmo e as suas consequências...

15. Profetizar no século XXI, viver obediente a profecia da multiculturalidade: descobrir a única vontade de Deus Pai; deixar os isolamentos, os nossos planos egoístas; procurar a vontade de Deus na vontade da comunidade; deixar de lado o escândalo da excomunhão mútua; comungar no mesmo Deus...

16. Profetizar no século XXI, viver casto a profecia da sexualidade redimida: testemunhar a redenção de Cristo na globalidade do nosso ser (inteligência, liberdade, fantasia, corpo, afectos, sentidos); ser profetas da libertação integral...

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #11 em: 15 de Junho de 2007, 17:18 »

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus - Ano C

SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
15 de Junho de 2007

Tema da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

A liturgia deste dia convida-nos a contemplar a bondade, a ternura e a misericórdia de Deus pelos homens – por todos os homens, sem excepção. Como imagem privilegiada para exprimir esta realidade, a Palavra de Deus utiliza a figura do Pastor: Deus é o Pastor que, com amor, cuida do seu rebanho.
A primeira leitura apresenta Deus como um “bom pastor” (contraposto aos líderes de Israel, os “maus pastores” que conduziram o Povo por caminhos de egoísmo e de morte), cuja preocupação fundamental é o bem-estar do seu rebanho; nesse contexto, o profeta anuncia a obra do Pastor/Deus: libertação do rebanho/Povo, o êxodo para a terra da liberdade, a condução do rebanho para “pastagens excelentes” e os cuidados amorosos que o Pastor dispensará a cada uma das suas ovelhas.
A segunda leitura lembra-nos que o amor de Deus se derrama continuamente sobre os homens. A prova cabal desse imenso amor é Jesus Cristo, o Filho que o Pai enviou ao nosso encontro para nos libertar do egoísmo e do pecado e que deu a própria vida para que o projecto de amor do Pai se concretizasse e atingisse a humanidade inteira.
O Evangelho retoma a imagem do Deus/Pastor, cujo amor se derrama, de forma especial, sobre as ovelhas feridas e perdidas do rebanho. Dessa forma, sugere-se que o Pastor/Deus não só não exclui ninguém da sua proposta de salvação – nem sequer aqueles que, pelas suas atitudes “politicamente incorrectas” são marginalizados pelos outros homens – mas até tem um “fraco” especial pelos excluídos: são precisamente esses os destinatários privilegiados do amor de Deus.


LEITURA I – Ez 34,11-16

Leitura da Profecia de Ezequiel

Eis o que diz o Senhor Deus:
«Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas
e hei-de encontrá-las.
Como o pastor que vigia o rebanho,
quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas,
assim Eu cuidarei das minhas ovelhas,
para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram
num dia de nevoeiro e de trevas.
Arrancá-las-ei de entre os povos
e as reunirei dos vários países,
para as reconduzir à sua própria terra.
Apascentá-las-ei nos montes de Israel,
nas ribeiras e em todos os lugares habitados do país.
Eu as apascentarei em boas pastagens
e terão as suas devesas nos altos montes de Israel.
Descansarão em férteis devesas
e encontrarão pasto suculento sobre as montanhas de Israel.
Eu apascentarei o meu rebanho,
Eu o farei repousar, diz o Senhor Deus.
Hei-de procurar a ovelha que anda perdida
e reconduzir a que anda tresmalhada.
Tratarei a que estiver ferida,
darei vigor à que andar enfraquecida
e velarei pela gorda e vigorosa.
Hei-de apascentar com justiça».

AMBIENTE

Ezequiel, o “profeta da esperança”, integrou essa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor enviou para a Babilónia. Foi na Babilónia que ele se sentiu chamado por Deus e foi entre os exilados que ele desenvolveu a sua missão profética (entre 592 e 571 a.C., aproximadamente).
Numa primeira fase (entre 592 e 586 a.C.), a mensagem que Ezequiel se propõe transmitir procura desfazer as falsas esperanças dos exilados (apostados em regressar rapidamente a Judá) e anuncia um novo castigo para Jerusalém: não somos nós que vamos regressar rapidamente à nossa terra – diz o profeta; os que estão em Jerusalém e que continuam a trilhar caminhos de pecado e de infidelidade a Jahwéh é que virão ao nosso encontro, no Exílio.
Numa segunda fase (entre 586 e 571 a.C.), a mensagem de Ezequiel vai ser, sobretudo, uma mensagem de salvação, destinada a consolar os exilados e a alimentar a esperança num futuro novo de felicidade e de paz.
O texto que nos é proposto pertence a esta segunda fase. Depois de denunciar a responsabilidade dos dirigentes da nação (os “maus pastores”) na catástrofe nacional (cf. Ez 34,1-10), o profeta anuncia uma nova fase da história, na qual o próprio Deus vai apascentar o seu Povo.
A ideia de apresentar Deus como um pastor que apascenta o seu Povo não é original: os sumérios, os babilónios e os egípcios aplicavam esta imagem quer aos deuses, quer aos homens; e em Israel, é uma imagem que, com frequência, se aplica a Deus (cf. Sal 23; 80; Jr 23,1-8).

MENSAGEM

O tema fundamental deste texto é, portanto, a apresentação de Deus como um “bom pastor”, que cuida com amor do rebanho que é o seu Povo.
O nosso texto começa por apresentar a iniciativa de Deus, que “em pessoa” vem ao encontro do Povo escravizado (vers. 11: “Eu próprio tomarei cuidado das minhas ovelhas”). Apesar do pecado do Povo, Deus não abandonou o seu rebanho: até no Exílio os membros do Povo continuam a ser, para Deus, “as minhas ovelhas”.
Qual é o objectivo de Deus ao vir ao encontro das suas ovelhas? É libertá-las da escravidão, reuni-las e conduzi-las de regresso à terra prometida (vers. 12-13b). Tudo isto é descrito segundo o esquema do êxodo: saída e entrada. Deus quer repetir a maravilhosa iniciativa libertadora do êxodo do Egipto, trazendo novamente o seu Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
Com a chegada dos exilados à terra da liberdade, estará terminada a acção de Deus? Não. Mesmo depois de as ovelhas terem reencontrado a sua terra, o pastor (Deus) continuará a dispensar-lhes os seus cuidados… As imagens utilizadas (vers. 13c-15) sublinham, por um lado, a abundância de vida, por outro lado, a tranquilidade e a paz que Deus Se propõe dar – em todos os momentos – ao seu “rebanho”.
A acção salvadora e amorosa de Deus concretizar-se-á, ainda, na solicitude com que Ele tratará as ovelhas perdidas, desgarradas, feridas, enfermas (vers. 16). Aí manifestar-se-á a “justiça” de Deus que é amor, solicitude, ternura, misericórdia para com os mais pobres, marginalizados e débeis.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

• Dizer que Deus é o “bom pastor” implica falar de um Deus com o coração cheio de amor, que em todos os instantes está presente nos caminhos da nossa história, luta ao nosso lado contra tudo o que oprime e escraviza, aponta horizontes de esperança àqueles que andam perdidos, cuida de todos aqueles que a vida magoou e feriu, oferece a todos a vida e a salvação. Neste dia do Coração de Jesus, somos convidados a contemplar o amor e a ternura do Pastor/Deus que se derramam sobre todos os homens e, de forma especial, sobre os pobres, os oprimidos, os excluídos.

• A imagem do “bom pastor” é posta, nesta leitura, em contraste com os “maus pastores” (os líderes), os quais, procurando apenas “apascentar-se a si próprios”, conduziram o Povo e a nação por caminhos de egoísmo e de morte… Convida-nos a não colocar a nossa esperança e a nossa segurança em mãos humanas, pois só Deus é o “bom pastor” em quem podemos encontrar a vida em plenitude.

• Há aqui, também, um convite implícito a todos aqueles que têm responsabilidades na sociedade, na Igreja, na comunidade: que o serviço da autoridade seja exercido com solicitude e amor, não para nos servirmos a nós próprios, mas para servirmos os irmãos que Deus nos confiou. Que nos nossos gestos não haja egoísmo e prepotência, mas sim a presença efectiva e concreta do amor de Deus.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.



LEITURA II – Rom 5,5b-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
O amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Quando ainda éramos fracos,
Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado.
Dificilmente alguém morrerá por um justo;
por um homem bom,
talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
Mas Deus prova assim o seu amor para connosco:
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
E agora, que fomos justificados pelo seu sangue,
com muito maior razão
seremos por Ele salvos da ira divina.
Se, na verdade, quando éramos inimigos,
fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho,
com muito maior razão, depois de reconciliados,
seremos salvos pela sua vida.
Mais ainda: também nos gloriamos em Deus,
por Nosso Senhor Jesus Cristo,
por quem alcançámos agora a reconciliação.

AMBIENTE

Quando escreve aos Romanos, Paulo prepara-se para deixar Corinto e para regressar a Jerusalém, no termo da sua terceira viagem missionária (ano 57 ou 58). Ele sente que terminou a sua missão na Ásia e pretende, agora, dirigir o seu esforço missionário para Ocidente. Por outro lado, Paulo está preocupado com a ameaça que pesa sobre a Igreja: ela corre o risco de se dividir em duas comunidades, uma judeo-cristã, outra pagano-cristã… Mais do que para a comunidade de Roma, é uma carta para todas as comunidades cristãs, onde Paulo – em tom sereno e didáctico – expõe as questões fundamentais que o preocupam. Sublinhando a unidade da revelação, a unidade do Antigo Testamento e do Evangelho, as promessas feitas a Israel e o papel do antigo Povo de Deus na história da salvação, Paulo demonstra que judeus e pagãos, reconciliados por Cristo, têm lugar nessa comunidade fraterna que é a Igreja.
O texto que nos é proposto está incluído na parte dogmática da carta (cf. Rm 1,18-11,36), onde Paulo procura dizer que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente. Depois de esclarecer que ninguém tem méritos superiores aos outros, porque todos – judeus e pagãos – são pecadores (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo ensina que é a “justiça” de Deus que dá a vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,21-5,11).

MENSAGEM

O texto começa com uma referência ao amor de Deus, “derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo” (vers. 5). Aqui refere-se algo de essencial na nossa experiência religiosa: o cristão não é um “pobre coitado”, que se tornou escravo de fórmulas e de ritos e que vive prisioneiro de uma moral pré-histórica ou de uma hierarquia centralizadora; mas é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama… Nunca será demais insistir nesta evidência: Deus ama-nos. É essa a grande “boa notícia” que Paulo quer propor a todos os homens.
A prova desse amor é essa história incrível de Jesus de Nazaré, o Filho, a quem o Pai enviou ao mundo para “justificar” esses homens mergulhados numa história de egoísmo e de pecado e para os reconciliar definitivamente consigo. Paulo convida-nos a reparar nesse facto espantoso: Deus, o Pai, não passou a amar-nos quando nos convertemos; amou-nos desde sempre e, por isso, enviou o Filho ao nosso encontro “quando éramos ainda pecadores” (vers. Cool. É claro que agora, salvos pelo sangue de Jesus, inseridos numa dinâmica de vida nova, temos ainda mais razões para esperar que Deus nos ame e continue a derramar sobre nós a sua vida (vers. 9-10). Esta é a raiz da nossa esperança.
Que significa dizer que fomos “justificados” e “reconciliados” com Deus pelo sangue de Jesus (vers. 9-11)Interrogação Significa que o Pai exigiu a morte do Filho em nosso lugar, a fim de nos poder perdoar as nossas faltas? Não. Significa que o Pai tinha um projecto de vida e de salvação para nós e que enviou o Filho ao nosso encontro para nos apresentar esse projecto… A morte do Filho foi o resultado do confronto do projecto libertador do Pai com o ódio, o egoísmo, a opressão que dominavam o mundo… Mas, se esse projecto foi cumprido – apesar das resistências – até ao dom da vida do Filho, isso demonstra a imensidão do amor de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Já o dissemos, mas não é demais repeti-lo: o cristão não é um “pobre coitado” nem um “pobre idealista” que, com os olhos no céu, luta contra moinhos de vento, condenado ao fracasso e à irrisão; o cristão é alguém que tem consciência do amor de Deus e que, com o coração cheio de alegria e de esperança, sente a necessidade de testemunhar aos homens – com palavras e com gestos – esse amor. Sentimos, verdadeiramente, que a nossa vocação é o encontro com o Deus/amor e o testemunho, diante dos homens, desse amor libertador?

• A consciência do amor de Deus dá-nos a coragem de enfrentar o mundo e de, no seguimento de Jesus, fazer da vida um dom de amor. O cristão não teme o confronto com a injustiça, com a perseguição, com a morte: tudo isso é secundário, perante o Deus que nos ama e que nos desafia a amar sem medida. Enfrente quem enfrentar, o que importa ao crente é ser, no mundo, um sinal vivo do amor de Deus.

• “O Padre Dehon espera que os seus religiosos sejam profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo” – dizem as Constituições dos Sacerdotes do Coração de Jesus. Procuram estes – e todos aqueles que comungam desta atitude evangélica – ser coerentes com este programa? A nossa vida de encontro com quem nos cruzamos todos os dias, nos caminhos deste mundo, é testemunho e sinal vivo desse amor de Deus que nos enche o coração?



ALELUIA – Mt 11,291b

Aleluia. Aleluia.

Tomai o meu jugo sobre vós, diz o senhor,
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração.

Ou: (Jo 10,14)

Eu sou o bom pastor, diz o Senhor:
conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me.



EVANGELHO – Lc 15,3-7

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos fariseus e aos escribas a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas
e tenha perdido uma delas,
não deixa as outras noventa e nove no deserto,
para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?
Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros
e, ao chegar a casa,
chama os amigos e vizinhos e diz-lhes:
‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’.
Eu vos digo:
Assim haverá mais alegria no Céu
por um só pecador que se arrependa,
do que por noventa e nove justos,
que não precisam de arrependimento».

AMBIENTE

A história que, hoje, Lucas nos conta deve ser colocada no contexto do “caminho para Jerusalém”, quer dizer, nessa caminhada “espiritual”, durante a qual Jesus prepara os discípulos para serem, após a sua partida para o Pai, as testemunhas do “Reino” no meio dos homens. Em várias lições, Jesus revela aos discípulos o ser do Pai e apresenta-lhes os valores fundamentais do “Reino”; na lição de hoje, Jesus apresenta uma catequese que revela o amor e a misericórdia do Pai.
Todo o capítulo 15 é dedicado a mostrar a força do amor de Deus. Em três parábolas, Jesus desenvolve o tema da busca e do encontro do que estava perdido, para mostrar o amor e a solicitude de Deus para com todos, nomeadamente para com os pecadores e os marginais. Trata-se de um tema muito caro ao evangelista Lucas.
A “parábola da ovelha perdida” aqui apresentada aparece também em Mateus (cf. Mt 18,12-14); mas, enquanto que em Mateus ela é aplicada à responsabilidade dos chefes da Igreja no que diz respeito aos “pequenos” das suas comunidades, em Lucas a parábola serve para ilustrar a misericórdia de Deus e o seu cuidado para com os pecadores: não há dúvida que o sentido de Lucas deve estar muito mais próximo do sentido original com que Jesus contou esta história.
Para percebermos cabalmente o que está aqui em causa, é importante termos em conta o “enquadramento” em que a parábola nos aparece. Tudo começa com uma observação dos escribas e fariseus que, vendo como os publicanos e pecadores se aproximavam de Jesus para O ouvir, comentaram: “este homem acolhe os pecadores e come com eles”. Para os fariseus, era absolutamente escandaloso manter contactos com um pecador notório. Na época, um cobrador de impostos não podia fazer parte da comunidade farisaica; não podia ser juiz, nem prestar testemunho em tribunal sendo, para efeitos judiciais, equiparado ao escravo; estava também privado de certos direitos cívicos, políticos e religiosos… Jesus vai demonstrar, àqueles que o criticam, que a lógica dos fariseus (criadora de exclusão e de marginalidade) está em oposição à lógica de Deus.

MENSAGEM

A parábola do pastor que abandona noventa e nove ovelhas no deserto para ir à procura de uma que se perdeu e que, chegado a casa, convoca os amigos e vizinhos para celebrar o achamento da ovelha perdida, é uma parábola estranha, se olharmos para ela com critérios de coerência e de lógica. Faz sentido abandonar noventa e nove ovelhas por causa de uma? E faz sentido esse espalhafato diante dos amigos e dos vizinhos, por causa de um facto tão banal para um pastor como é o reencontrar uma ovelha que se extraviou do grupo? Ora, são precisamente nesses exageros e nessas reacções desproporcionadas que transparece a mensagem essencial da parábola.
Os relatos evangélicos põem, com frequência, Jesus em contacto com gente reprovável, apontada a dedo pela sociedade, como os cobradores de impostos e as mulheres de má vida. É impossível que os discípulos tenham inventado isto: ninguém da comunidade cristã primitiva estaria interessado em atribuir a Jesus um comportamento “politicamente incorrecto”, se isso não correspondesse à realidade histórica. Não há dúvida: Jesus deu-se com gente duvidosa, com pessoas a quem os “justos” preferiam evitar, com pessoas que eram anatematizadas e marginalizadas por causa dos seus comportamentos escandalosos, atentatórios da moral pública. Certamente não foram os discípulos a inventar para Jesus o injurioso apelativo de “comilão e bêbedo, amigo de publicanos e de pecadores (Mt 11,19; cf. 15,1-2). Porque é que Jesus se dava com essas pessoas?
Porque, na perspectiva de Lucas, Jesus é o amor de Deus que se faz pessoa e que vem ao encontro dos homens – de todos os homens – para os libertar da sua miséria e para lhes apresentar essa realidade de vida nova que é o projecto do “Reino”. A solicitude de Jesus para com os pecadores mostra-lhes que Deus os ama, que Deus não os rejeita, que Deus os convida a fazer parte da sua família e a integrar a comunidade do “Reino”. É que o projecto de salvação de Deus não é um condomínio fechado, com seguranças fardados para evitar a entrada de indesejáveis; mas é uma proposta universal, onde todos os homens e mulheres têm lugar, porque todos – maus e bons – são filhos queridos e amados do Pai/Deus. A lógica de Deus é sempre dominada pelo amor.
A “parábola da ovelha perdida” pretende, precisamente, dar conta desta realidade. A atitude desproporcionada de “deixar as noventa e nove ovelhas no deserto para ir ao encontro da que estava perdida” sublinha a imensa preocupação de Deus por cada homem que se afasta da comunidade da salvação e o “inqualificável” amor de Deus por todos os homens que necessitam de libertação. O “pôr a ovelha aos ombros” significa o cuidado e a solicitude de Deus, que trata com amor e com cuidados de Pai os filhos feridos e magoados; a alegria desmesurada do “pastor” significa a felicidade imensa de Deus sempre que o homem reentra no caminho da felicidade e da vida plena.
Jesus anuncia, aqui, a salvação de Deus oferecida aos pecadores, não porque estes se tornaram dignos dela mediante as suas boas obras, mas porque o próprio Deus Se solidariza com os excluídos e marginalizados e lhes oferece a salvação. Encontrámos aqui o cumprimento da profecia de Ezequiel que nos foi apresentada na primeira leitura: Deus vai assumir-se (através de Jesus) como o Bom Pastor, que cuidará com amor de todas as ovelhas e, de forma especial, das desencaminhadas e perdidas.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

• Antes de mais, o que está em causa na leitura que nos é proposta é a apresentação do imenso amor de Deus. Deus ama de forma desmesurada cada mulher e cada homem. É esta a primeira coisa que nos deve “tocar” ao celebrarmos o Coração de Jesus. Interiorizamos suficientemente esta certeza, deixamos que ela marque a nossa vida e condicione as nossas opções?

• O amor de Deus dirige-se, de forma especial, aos pequenos, aos marginalizados, aos necessitados de salvação. Os pobres e débeis que encontramos nas ruas das nossas cidades ou à porta das igrejas das nossas paróquias encontram nos “profetas do amor” a solicitude maternal e paternal de Deus? Apesar do imenso trabalho, do cansaço, do “stress”, dos problemas que nos incomodam, somos capazes de “perder” tempo com os pequenos, de ter disponibilidade para acolher e escutar, de “gastar” um sorriso com esses excluídos, oprimidos, sofredores, que encontramos todos os dias e para os quais temos a responsabilidade de tornar real o amor de Deus?

• Tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo significa lutar objectivamente contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento… Inquieto-me, realmente, frente a tudo aquilo que desfeia o mundo? Pactuo (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou esforço-me activamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus?

• As nossas comunidades são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos e confrades, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?



LEITURA PARA MEDITAÇÃO:
in Construir a civilização do amor. Espiritualidade dehoniana para os tempos actuais. Col. Estudos Dehonianos 1, Lisboa 2007, 27-29.

“Meus caríssimos filhos! Deixo-vos o mais maravilhoso de todos os tesouros: o Coração de Jesus!”
Com estas palavras, o Padre João Leão Dehon inicia o testamento espiritual que legou aos Sacerdotes do Coração de Jesus e a todos os que querem centrar a sua vida no Coração de Jesus.
A Igreja mergulha as suas raízes em Cristo, no seu Coração, no Amor que transforma os corações e as sociedades. A Igreja deve lutar pela partilha, pelo amor, pelas condições justas de trabalho, pela habitação para todos… A Igreja aponta para o reino do Coração de Jesus que deve começar nos indivíduos, penetrar nas famílias e envolver toda a sociedade.
“É necessário que o culto do Coração de Jesus, começado na vida mística nas almas, desça e penetre na vida social dos povos. Ele trará o soberano remédio para os males cruéis do nosso mundo moral” (Padre Dehon, Obras Sociais I, 3).
O Coração de Jesus foi a força interior que moveu continuamente o Padre Dehon. Como homem de Igreja no seu tempo, contribuiu para que o Coração de Jesus reinasse nas almas e nas sociedades. Sonhou com isso, lutou por esse projecto, tentou que ele se tornasse realidade. Fê-lo pela contemplação, pelo silêncio interior, pela intensa vida contemplativa. Fê-lo também pela acção apostólica, pela luta social.
Aponta o Coração de Jesus como caminho do homem, como caminho da Igreja, como caminho da sociedade.
O Padre Dehon torna-se arauto do reino do Coração de Jesus, como resposta às interrogações do coração humano. Conversão pessoal e justiça social: os alicerces do reino assentam na prática destas dimensões.
Bebendo da fonte que é o Coração de Jesus, o Padre Dehon pratica a contemplação na acção e a acção na contemplação. Só assim faz sentido o ser e o agir da Igreja, na atenção constante ao homem. Como diz um dos seus discípulos hoje:
“O que faltava era arregaçar as mangas. O problema da sua Igreja não eram ideias ou directivas; era fé na pessoa humana e coragem de mudar o que devia ser mudado... Era preciso mergulhar na política para mudar a Sociedade, mas antes disso era urgente tornar o coração humano semelhante ao de Jesus!” (Padre Zezinho, Por causa de um certo reino, 26).
O amor de Deus vivo torna-se presente no amor do Coração de Cristo: o Coração de Jesus como aquele que nos chama e nos congrega em Igreja. Nas palavras iluminadas do Padre Dehon:
“O Coração de Jesus é o sol que nos ilumina através da sua Igreja, esta Igreja que Jesus concebeu na atenção do seu Coração por nós, que ele adquiriu e fundou pelo sangue do seu Coração. O Coração de Jesus aparece no seio da Igreja como o astro que tudo ilumina, tudo anima e tudo vivifica” (Padre Dehon, Obras Espirituais I, 504).
A Igreja é gerada no Coração de Jesus, a Igreja procura espalhar o reino do Coração de Jesus nas almas e na sociedade, a Igreja luta pela promoção dos valores do Reino, como a vida, a dignidade, o bem, a verdade, a justiça, o amor, a paz…, a Igreja constrói a civilização do Amor!
O Padre Dehon não é único nesta luta, é certo. Mas, no seu tempo, a grande novidade da sua proposta está na insistência, sem cessar e sem se cansar, da reflexão e das acções tendentes a construir o reino do Coração de Jesus na sociedade. Está convicto da fidelidade ao Coração de Jesus, como autêntico profeta que tem a coragem de ir contra a corrente. Isto num mundo que se regulava quase exclusivamente (tal como hoje!) pelas leis da economia e da finança. O Padre Dehon anuncia o caminho radical do Evangelho e do Coração de Jesus:
“Só o Coração de Jesus pode dar à terra a caridade perdida. Só ele reconquistará o coração das massas, o coração dos operários, o coração da juventude. Esta nova conquista dos corações começou manifestamente com o Sagrado Coração” (Padre Dehon, Obras Sociais I, 5).
O Venerável Padre Dehon termina o seu testamento espiritual, escrito em 1914, com uma oração centrada no Coração de Jesus:
“Ofereço uma vez mais e consagro a minha vida e a minha morte ao Sagrado Coração de Jesus, por seu amor e segundo todas as suas intenções. Tudo por vosso amor, ó Coração de Jesus!”

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #12 em: 15 de Junho de 2007, 17:28 »

XXI Domingo do Tempo Comum - Ano C

11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
17 de Junho de 2007

Tema do 11º Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.
A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.
Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.


LEITURA I – 2 Sm 12,7-10.13

Leitura do Segundo Livro de Samuel

Naqueles dias,
disse Nata a David:
«Assim fala o Senhor, Deus de Israel:
Ungi-te como rei de Israel
e livrei-te das mãos de Saul.
Entreguei-te a casa do teu senhor
e pus-te nos braços as suas mulheres.
Dei-te a casa de Israel e de Judá
e, se isto não é suficiente, dar-te-ei muito mais.
Como ousaste desprezar a palavra do Senhor,
fazendo o que é mal a seus olhos?
Mataste à espada Urias, o hitita;
tomaste como esposa a sua mulher,
depois de o teres feito passar à espada pelos amonitas.
Agora a espada nunca mais se afastará da tua casa,
porque Me desprezaste
e tomaste a mulher de Urias, o hitita,
para fazeres dela tua esposa».
Então David disse a Natã:
«Pequei contra o Senhor».
Natã respondeu-lhe:
«O Senhor perdoou o teu pecado:
Não morrerás».

AMBIENTE

O “Livro de Samuel” (dividido em duas partes) é um livro que nos apresenta os primórdios da monarquia, em Israel. Não é, contudo, um livro escrito por políticos, por historiadores ou por sociólogos; é um livro escrito por teólogos, empenhados em fazer catequese e em ler a história passada à luz da fé. Não lhes interessa demasiado que a sua perspectiva seja uma leitura rigidamente objectiva dos acontecimentos; interessa-lhes, sobretudo, que a sua leitura ajude os crentes a tirar conclusões acerca de Deus e da forma de Deus actuar.
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de tradições sobre o reinado de David (cf. 2 Sam 7-20). Depois de descrever o pecado de David (que cometeu adultério com Betsabé e mandou que o marido desta – Urias, soldado do exército de David – fosse colocado num lugar arriscado, no combate contra os amonitas, a fim de que corresse riscos e morresse – cf. 2 Sm 11,1-27), o autor deuteronomista apresenta – pela voz do profeta Nathan – a reacção de Deus diante do pecado do rei. Estamos em Jerusalém – nesta altura, capital do Israel unificado – nos primeiros anos do séc. X a.C.

MENSAGEM

Deus poderá pactuar com esta atitude egoísta e prepotente do rei? De forma nenhuma. Pela boca do profeta Nathan, o autor deuteronomista anuncia que Deus não fica indiferente diante da injustiça cometida e que pede contas ao agressor. Daí os castigos anunciados contra David e a sua casa.
O autor deuteronomista escreve muitos anos depois destes acontecimentos. Ele conhecia uma série de desgraças que, entretanto, se tinham abatido sobre a família de David (morte violenta de três filhos de David: Amon – cf. 2 Sm 13,23-39; Absalão – cf. 2 Sm 18,9-15; e Adonias – cf. 1 Re 2,24-25). Naturalmente, não foram castigos de Deus, mas acontecimentos históricos normais, típicos de uma época violenta, em que a luta pelo poder terminava, tantas vezes, em tragédias pessoais e familiares; mas esses acontecimentos foram lidos pelo teólogo como sinais claros de que Jahwéh não estava disposto a pactuar com as injustiças e as arbitrariedades cometidas pelo rei. A mensagem do nosso “catequista” é evidente: Deus não deixa passar em claro a atitude daqueles que se aproveitam do poder para fins egoístas e desfazem a vida dos irmãos.
A última palavra do texto é, no entanto, de esperança. Confrontado com o seu crime, David reconhece, com humildade, o seu comportamento errado e pede perdão; e Deus acaba por perdoar a sua falta. Desta forma, o deuteronomista resume a lógica de Deus, que condena o pecado, mas que não abandona o pecador. Assim, o nosso catequista está a enviar uma mensagem aos homens do seu tempo: apesar das nossas falhas, a misericórdia de Deus não nos abandona e dá-nos sempre a hipótese de recomeçar.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes linhas:

• A reflexão fundamental que este texto nos apresenta é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. É esta a nossa “lógica” quando alguém nos magoa ou ofende?

• O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Que sentido é que isto faz? Nós cristãos, filhos de um Deus que não suporta o egoísmo e a injustiça, podemos pactuar com estas situações? Podemos, tranquilamente, votar naqueles que cometem injustiças gritantes?

• A atitude de David, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de David convida-nos a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas acções erradas; convida-nos, também, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o “pecado” desapareça das nossas vidas.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 31 (32)

Refrão: Perdoai, Senhor,
minha culpa e meu pecado.

Feliz daquele a quem foi perdoada a culpa
e absolvido o pecado.
Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade
e em cujo espírito não há engano.

Confessei-vos o meu pecado
e não escondi a minha culpa.
Disse: Vou confessar ao Senhor a minha falta
e logo me perdoastes a culpa do pecado.

Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos,
fazei que à minha volta só haja hinos de vitória.
Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor,
exultai vós todos os que sois rectos de coração.



LEITURA II – Gal 2,16.19-21

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Sabemos que o homem não é justificado pelas obras da Lei,
mas pela fé em Jesus Cristo;
por isso acreditámos em Cristo Jesus,
para sermos justificados pela fé em Cristo
e não pelas obras da Lei,
porque pelas obras da Lei ninguém é justificado.
De facto, por meio da Lei, morri para a Lei,
a fim de viver para Deus.
Com Cristo estou crucificado.
Já não sou eu que vivo,
é Cristo que vive em mim.
Se ainda vivo dependente de uma natureza carnal,
vivo animado pela fé no Filho de Deus,
que me amou e Se entregou por mim.
Não quero tornar inútil a graça de Deus,
porque, se a justificação viesse por meio da Lei,
então Cristo teria morrido em vão.

AMBIENTE

As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.
Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.
É neste ambiente que Paulo escreve aos gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.
Depois de analisar a situação (cf. Gal 1,6-10), de dizer que tem um mandato de Cristo para anunciar o Evangelho aos pagãos (cf. Gal 1,11-24) e de se defender da acusação de pregar um evangelho próprio, diferente do pregado pelos outros apóstolos (cf. Gal 2,1-10), Paulo vai anunciar o “seu” Evangelho (que é o Evangelho da Igreja, o mesmo que é anunciado pelos outros apóstolos): não é a Lei e as obras que salvam, mas a fé.

MENSAGEM

Neste texto que nos é proposto, Paulo apresenta uma espécie de síntese daquilo que ele considera o autêntico Evangelho.
Na primeira parte (vers. 16), Paulo sustenta que a salvação vem, única e exclusivamente, por Cristo. É por Cristo que somos “justificados” e não pelas obras da Lei. “Justificação” é, aqui, sinónimo de “salvação”. Significa que a “justiça de Deus” (que não é a estrita aplicação das leis, como no tribunal, mas é a fidelidade de Deus aos compromissos que Ele assumiu para com o seu Povo, no sentido de salvá-lo) derrama gratuitamente sobre o homem o amor e a misericórdia, mesmo quando o homem pecador não merece. Ora, Deus “salva” o homem pecador, não por ele cumprir a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus (“crer” significa aderir a Ele, segui-l’O).
Na segunda parte (vers. 19-21), a reflexão de Paulo gira à volta da acção de Cristo e da acção da Lei, no sentido de “salvar” o homem. A Lei salva? Não. Ao crucificar Jesus, a Lei demonstrou que não gerava vida, mas morte; desqualificou-se, assim, e demonstrou a sua falência no sentido de conduzir à vida plena o homem que estava sob a sua jurisdição. Depois de ser responsável pela morte de Cristo, a Lei não terá qualquer legitimidade para se impor e já não será vista por ninguém como geradora de vida.
Cristo, por seu lado, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte.
Quanto a si, Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo.
Conclusão: a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se à volta dos seguintes elementos:

• O texto põe em relevo, em primeiro lugar, a atitude de Deus para com o homem. O nosso Deus não é o Deus que aplica rigorosamente as leis (nesse caso o homem pecador não teria acesso à salvação), mas é o Deus que, de forma gratuita, “justifica” o homem. O acesso à vida em plenitude não é uma conquista humana, mas um dom gratuito, que brota da bondade de Deus. De Deus não podemos exigir nada, mesmo que nos tenhamos “portado bem” e cumprido as regras: de Deus, podemos apenas esperar a graça da salvação como dom gratuito e incondicional. Isto retira-nos qualquer legitimidade para assumir atitudes de arrogância e auto-suficiência, quer em relação a Deus, quer em relação aos nossos irmãos.

• É preciso ter consciência de que “Cristo basta”. Muitas vezes a nossa caminhada religiosa alicerça-se em aspectos folclóricos, que são absolutizados e considerados essenciais. Inventamos comportamentos “religiosamente correctos” e procuramos impô-los, discutimos leis, magoamos as pessoas por causa de preceitos legais, marginalizamos e catalogamos por causa dos princípios de um código legal e esquecemos que Cristo é o único essencial. A comunidade cristã deixa de ser verdadeiramente a comunidade dos que aderem a Cristo. Que sentido é que isto faz, à luz da catequese de Paulo?

• Paulo chama, ainda, a atenção para a nossa identificação com Cristo. O cristão é aquele que se identifica com Cristo no seu amor e na sua entrega e que, nesse caminho, encontra a verdadeira vida, a vida em plenitude. É esse o caminho que eu procuro seguir? A minha vida desenrola-se de tal forma que eu posso dizer – como Paulo – “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”? A vida de Cristo circula em mim e aparece, aos olhos dos meus irmãos, nos meus gestos, nas minhas palavras, no meu amor?



ALELUIA – 1 Jo 4,10b

Aleluia. Aleluia.

Deus amou-nos e enviou o seu Filho
como vítima de expiação pelos nossos pecados.



EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
um fariseu convidou Jesus para comer com ele.
Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa.
Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade –
ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu,
trouxe um vaso de alabastro com perfume;
pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito,
banhava-Lhe os pés com as lágrimas
e enxugava-lhos com os cabelos,
beijava-os e ungia-os com o perfume.
Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo:
«Se este homem fosse profeta,
saberia que a mulher que O toca é uma pecadora».
Jesus tomou a palavra e disse-lhe:
«Simão, tenho uma coisa a dizer-te».
Ele respondeu: «Fala, Mestre».
Jesus continuou:
«Certo credor tinha dois devedores:
um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta.
Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos.
Qual deles ficará mais seu amigo?»
Respondeu Simão:
«Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou».
Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem».
E voltando-Se para a mulher, disse a Simão:
«Vês esta mulher?
Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés;
mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas
e enxugou-os com os cabelos.
Não Me deste o ósculo;
mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés.
Não Me derramaste óleo na cabeça;
mas ela ungiu-Me os pés com perfume.
Por isso te digo:
São-lhe perdoados os seus muitos pecados,
porque muito amou;
mas aquele a quem pouco se perdoa,
pouco ama».
Depois disse à mulher:
«Os teus pecados estão perdoados».
Então os convivas começaram a dizer entre si:
«Quem é este homem, que até perdoa os pecados?»
Mas Jesus disse à mulher:
«A tua fé te salvou. Vai em paz».
Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias,
a pregar e a anunciar a boa nova do reino de Deus.
Acompanhavam-n’O os Doze,
bem como algumas mulheres que tinham sido curadas
de espíritos malignos e de enfermidades.
Eram Maria, chamada Madalena,
de quem tinham saído sete demónios,
Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes,
Susana e muitas outras,
que serviam Jesus com os seus bens.

AMBIENTE

O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do Lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus aparece a concretizar o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc 4,16-30). Este episódio põe em evidência um tema caro a Lucas: a misericórdia de Jesus frente àqueles que necessitam de libertação. O episódio anterior terminou com uma descrição de Jesus como amigo dos pecadores (cf. Lc 7,34); agora, este princípio vai ser ilustrado com um facto real.
O episódio situa-nos no ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão (o “banquete” é, neste contexto, o espaço da familiaridade, da irmandade, onde os laços entre as pessoas se estabelecem e se consolidam). Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até aceitam sentar-se à mesa com Ele (cf. Lc 11,37;14,1) e preveni-l’O em relação à ameaça de Herodes (cf. Lc 13,31). Lucas está, no que diz respeito a esta questão, bem mais perto da realidade histórica do que Marcos e, sobretudo, do que Mateus (que, influenciado pelas polémicas da Igreja primitiva com os fariseus, apresenta sistematicamente os fariseus como adversários de Jesus).

MENSAGEM

A perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores.
A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.
A acção da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.
A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reacção de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.
O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

• Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

• A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente correctos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?

• A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

• Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?

• Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.



ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 11º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.
A força dos textos deste domingo merece que nos preparemos desde o início da celebração para bem os acolher. Podemos realçar a palavra do salmo, mesmo antes do início do cântico de entrada: “perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado”. A fim de nos colocarmos em atitude de ser perdoados, um tempo de silêncio permitirá tomar consciência disso antes de serem proclamadas as primeira palavras da saudação inicial: “a graça de Nosso Senhor…” O rito penitencial pode ser introduzido pelas palavras do salmo: “Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade
e em cujo espírito não há engano”.

3. BILHETE DE EVANGELHO.
O fariseu que recebe Jesus à mesa pára o seu olhar sobre o que se vê: uma pecadora introduziu-se na sua casa, para ele ela não é senão uma pecadora. Quanto a Jesus, lança o seu olhar sobre a mulher procurando ver, através do seu comportamento, tudo o que se passa no seu coração: se ela chora, é porque é infeliz e lamenta o seu passado; se ela molha com as suas lágrimas e limpa com os seus cabelos os pés de Jesus, se ela os beija e sobre eles derrama perfume precioso, é para manifestar o seu grande amor. Não é preciso mais nada para Jesus: Ele perdoa, não porque ela pecou muito, mas porque amou muito, mesmo se ela amou mal; sobretudo, é a sua fé que a salva. Ela faz a experiência do Amor louco de Deus que perdoa, experiência que o fariseu ainda não fez. Porque o fariseu e os convidados se ficam pelas aparências, encerram a mulher no passado. Porque Jesus olha para além das aparências, abre-se à mulher um futuro diferente, ela parte em paz.

4. À ESCUTA DA PALAVRA.
Espantoso encontro na casa de Simão! O fariseu queria, sem dúvida, ver de mais perto este jovem rabino que dizia vir da parte de Deus. Falava bem, irradiava bondade. Porém… Tudo se desmorona! Eis que Jesus se presta a uma cena no mínimo chocante, mesmo escabrosa. Esta mulher que se aproxima d’Ele é conhecida por ser da má vida, uma pecadora. Os seus gestos, ambíguos, dizem o que ela é. Mas o escândalo vem, sobretudo, da falta de reacção de Jesus. Simão pensava ter convidado um homem de Deus. E eis que está diante dele um homem como todos os outros, talvez mesmo um futuro “cliente” da mulher. Se ao menos Jesus tivesse retirado os seus pés, se tivesse protestado, colocado a mulher no seu devido lugar! Mas não! Segundo a Lei, deixar-se tocar por uma mulher impura tornava-o cúmplice do seu pecado. O paradoxo é grande! Cremos que Jesus é o Filho de Deus feito homem, totalmente santo, sem qualquer pecado. Também para nós, a cena é incompreensível: de um lado, a pureza, a presença mesmo do Deus três vezes santo, o fogo ardente do seu amor; do outro, a impureza, o pecado, a água suja das nossas misérias. Como vai terminar este encontro? Jesus vai cumprir uma divina alquimia. Jesus dá a esta mulher um amor que transfigura os seus gestos ambíguos. Faz deste encontro uma ocasião para manifestar a maneira de agir de Deus para com os pecadores. Jesus não aprova o seu pecado. Mas acolhe esta mulher tal como ela é. Aceita o que ela é capaz de lhe dar. Se Ele a tivesse afastado, tê-la-ia encerrado no seu pecado. Deixando-a fazer, quer fazer-lhe compreender que não quer tomá-la para Si, como os outros homens que ela encontrava. Dá-lhe um amor que ela nunca tinha recebido, um amor gratuito, para a fazer nascer ela própria. Ele transforma a água suja dos seus pecados em fonte purificadora, transfigurada pelo fogo do amor divino. Porque a pecadora recebeu um perdão infinito e gratuito, pôde, por sua vez, mostrar um grande amor, e nascer para a vida. É isso que Jesus nos convida a viver quando vamos até Ele!

5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I para a Reconciliação, que nos permite dizer a imensidão do perdão de Deus por toda a humanidade.

6. PALAVRA PARA O CAMINHO…
A página do Evangelho deste domingo pode facilmente dar lugar a uma partilha. Porque não aproveitar para visitar uma pessoa um pouco isolada no seu sofrimento, e propor-lhe para falar à volta deste Evangelho? Isso poderia ajudá-la a se sentir amada e a “ir em paz”.

7. VIVER AS ATITUDES DO CORAÇÃO DE JESUS.
Estamos no mês do Coração de Jesus, cuja Solenidade celebrámos na passada sexta-feira. Podemos acolher a Palavra deste domingo sob essa luz, tentando descobrir as atitudes bem presentes no Coração de Jesus: pensar nas atitudes que recebemos do Coração de Jesus, tão presentes na liturgia da Palavra deste domingo: Amor, Misericórdia, Perdão, Bondade… (cada um pode continuar a lista); rezar essas atitudes em ambiente de adoração e vivê-las sempre com empenho, em particular ao longo deste mês. Só assim estamos a construir o Reino do Coração de Jesus nas pessoas e na sociedade, como propunha o Padre João Leão Dehon. Um Reino bem diferente de tantos reinos que nos querem impor neste mundo! Ser profeta da civilização do amor acontece na medida em que a existência está fundada no Coração de Jesus Cristo, contemplado e amado, na Eucaristia, celebrada e adorada, na Palavra, escutada e anunciada. Ser profeta da civilização do amor acontece na medida em que se testemunha e anuncia o Amor de Deus, construindo o Reino do Amor de Deus no coração dos homens e mulheres do nosso tempo: um reino de justiça e paz, de amor e misericórdia, de perdão e compaixão, de verdade e liberdade, de respeito e promoção dos direitos humanos. Mãos à obra! Bom mês do Coração de Jesus!

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #13 em: 21 de Junho de 2007, 14:05 »

Solenidade de S. João Baptista

ANO C
12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
SOLENIDADE DE S. JOÃO BAPTISTA
24 de Junho de 2007

Tema da Solenidade de S. João Baptista

Nesta solenidade, a Palavra de Deus apresenta-nos a figura profética de João Baptista. Escolhido por Deus para ser profeta, ainda antes de nascer, ele é um “dom de Deus” ao seu Povo. Sublinhando a importância de João na história da salvação, a liturgia não deixa, contudo, de mostrar que João não é “a salvação”; ele veio, apenas, dirigir o olhar dos homens para Cristo e preparar o coração dos homens para acolher “a salvação” que estava para chegar.
A primeira leitura apresenta-nos uma misteriosa figura profética, eleita por Deus desde o seio materno, a fim de ser a “luz das nações” e levar a Palavra ao coração e à vida de todos os homens. Impressiona especialmente a centralidade que Deus assume na vida do profeta: toda a missão profética brota de Deus e sustenta-se de Deus.
Na segunda leitura, Paulo fala aos judeus de Antioquia do profeta João. Na perspectiva de Paulo, a missão de João consistiu em convidar os homens a uma mudança de vida e de mentalidade, numa espécie de primeiro passo para acolher o “Reino” que Jesus veio, depois, propor. Paulo deixa claro que João não é o Messias libertador, mas sim aquele que vem preparar o coração dos homens para acolher o Messias.
O Evangelho relata o nascimento de João. Na perspectiva de Lucas, os acontecimentos ligados ao seu nascimento mostram como o profeta João é um “dom de Deus”. Começa, nessa altura, a tornar-se claro para todos que Deus está por detrás da existência de João, e que a sua missão é ser um sinal de Deus no meio dos homens.


LEITURA I – Is 49,1-6

Leitura do Livro de Isaías

Terras de Além-Mar, escutai-me;
povos de longe, prestai atenção.
O Senhor chamou-me desde o ventre materno,
disse o meu nome desde o seio de minha mãe.
Fez da minha boca uma espada afiada,
abrigou-me à sombra da sua mão.
Tornou-me semelhante a uma seta aguçada,
guardou-me na sua aljava.
E disse-me:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E eu dizia:
«Cansei-me inutilmente, em vão
e por nada gastei as minhas forças».
Mas o meu direito está no Senhor
e a minha recompensa está no meu Deus.
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob
e reconduzir os sobreviventes de Israel.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Farei de ti a luz das nações,
para que a minha salvação
chegue até aos confins da terra».

AMBIENTE

No livro do Deutero-Isaías (um profeta que exerce o seu ministério na fase final do exílio, em meados do séc. VI a.C.), encontramos quatro poemas de autor desconhecido, que nos apresentam uma misteriosa figura de um “servo” de Jahwéh. Trata-se de uma figura não identificada, que pode ser uma figura individual (como Jeremias, ou o próprio Deutero-Isaías) ou uma figura colectiva (representando, por exemplo, todos os profetas enviados por Deus ao seu Povo, ou o próprio Povo de Deus). De qualquer forma, os textos apresentam esta misteriosa figura profética como alguém a quem Deus chamou a testemunhar a Palavra. A missão desse “servo” tem carácter universal e realiza-se no sofrimento e no abandono à Palavra e aos projectos de Deus; mas o sofrimento desse “servo” não é em vão, e tem um significado expiatório e redentor. Do sofrimento que acompanha a missão do “servo”, resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do “servo”, recompensá-lo-á pela doação da vida, elevá-lo-á à vista de todos e fá-lo-á triunfar diante dos seus detractores e adversários. Embora se discuta a delimitação exacta dos quatro cânticos do “servo de Jahwéh”, podemos aceitar que os textos em questão são Is 42,1-9, 49,1-13, 50,4-11 e 52,13-53,12.
O texto que hoje nos é proposto é parte do segundo cântico do “servo de Jahwéh”. É, portanto, essa figura misteriosa de “servo” de Deus, chamado à missão profética que aqui nos é apresentada.

MENSAGEM

O nosso texto apresenta-nos o relato da vocação do “servo de Jahwéh”. Como acontece noutros relatos de vocação, o “servo” manifesta a convicção de que foi chamado por Deus desde “o seio materno” (vers. 1). Dessa forma, sugere-se que a vocação profética só pode ser entendida à luz da iniciativa divina que, desde o início da existência, “agarra” o homem e o destina para uma missão no mundo. A missão profética não é, portanto, uma iniciativa do homem ou o resultado dos méritos do homem, mas é algo que tem origem em Deus e que só se entende e faz sentido à luz de Deus. Esta certeza é o ponto de partida de toda a acção profética.
A missão a que o profeta é chamado por Deus tem a ver com a Palavra (vers. 2). O profeta é o homem a quem Deus elegeu, a fim de que a sua Palavra chegue aos outros homens; através dele, Deus dirige-nos as suas propostas e propõe aos homens um caminho que os leva a viver em relação com Deus. Essa Palavra de Deus que sai da boca do profeta não é palavra humana, mas Palavra de Deus; é por isso que o profeta diz que Deus tornou a sua boca como “uma espada afiada”, ou uma “uma seta penetrante”. É possível que as imagens utilizadas aludam à força da Palavra de Deus, que penetra nos corações e que não pode ser detida.
Na concretização da missão, o profeta experimentou a perseguição, a incompreensão, o fracasso (“foi em vão que me fatiguei, inutilmente gastei as minhas forças” – vers. 4ab). Significa isso que o profeta “andou a perder tempo” e que lamenta o seu empenhamento? Não; ele está consciente de que não perdeu nada, porque Deus não deixou de o proteger e de lhe dar a paga merecida (“o meu direito está nas mãos do Senhor, a minha recompensa está depositada no meu Deus” – vers. 4cd). Repare-se como o que é decisivo para o profeta é o ter cumprido, com fidelidade, a missão que Deus lhe confiou e a consciência de que Deus não o abandonou: se o profeta age em nome de Deus e tem o apoio de Deus, tudo o resto é secundário.
Qual foi a missão que foi confiada ao profeta? Fundamentalmente, reconduzir Jacob a Jahwéh, reunir Israel a Deus (vers. 5). Provavelmente, faz-se aqui alusão à missão confiada aos vários profetas que Deus enviou ao seu Povo, que procuraram – às vezes inutilmente – reconduzir o Povo de Deus à órbita da aliança.
No entanto, a missão alarga-se e universaliza-se (vers. 6), agora que Israel se movimenta num cenário internacional (nesta fase, o Povo de Deus está exilado numa terra estrangeira). O que Deus vai realizar em favor de Israel será um acontecimento universal, visível para todas as nações. Da acção salvadora de Deus, brotará uma luz que iluminará todos os povos, que os fará descobrir Deus e aderir a Jahwéh.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

• A ideia fundamental que brota deste texto é a certeza de que é Deus quem está por detrás de toda a experiência profética… É Deus quem elege o profeta e quem lhe destina uma missão, desde o seio materno; é Deus quem coloca a sua Palavra na boca do profeta; é Deus quem protege o profeta e quem o recompensa… Seria impensável falarmos em profecia, sem falarmos de Deus. Tenho consciência desta centralidade de Deus na minha vida?

• A profecia não é uma realidade reservada a pessoas especiais, mas é uma missão que brota do meu compromisso baptismal. Tenho consciência de que sou chamado a ser profeta – isto é, de que sou chamado a ser Palavra viva de Deus?

• Apesar do sofrimento, das perseguições, dos fracassos, a missão do profeta é ser “luz das nações”, para que a salvação de Deus “chegue aos confins da terra”. O meu programa de vida é, verdadeiramente, ser uma luz que ilumina o mundo e que dá esperança aos homens? Os pobres, os marginalizados, os excluídos, os humildes, os explorados, os injustiçados encontram em mim o testemunho da salvação de Deus que os liberta e que os salva?

• Para que a Palavra proclamada seja Palavra de Deus, é necessário que eu viva uma relação de comunhão e de intimidade com Deus: só nesse diálogo serei impregnado da vida de Deus, me aperceberei dos projectos de Deus e poderei anunciá-los aos homens. Vivo nesta relação próxima, dialogante, com Deus? Aquilo que transmito e proclamo são Palavras de Deus, ou são as minhas palavras, os meus esquemas, os meus interesses pessoais?



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 138

Refrão: Eu Vos dou graças, Senhor,
porque maravilhosamente me criastes.

Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser:
sabeis quando me sento e quando me levanto.
De longe penetrais o meu pensamento:
Vós me vedes quando caminho e quando descanso,
Vós observais todos os meus passos.

Vós formastes as entranhas do meu corpo
e me criastes no seio de minha mãe.
Eu Vos dou graças
por me terdes feito tão maravilhosamente:
admiráveis são as vossas obras.

Vós conhecíeis já a minha alma
e nada do meu ser Vos era oculto,
quando secretamente era formado,
modelado nas profundidades da terra.



LEITURA II – Actos 13,22-26

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Paulo falou deste modo:
«Deus concedeu aos filhos de Israel David como rei,
de quem deu este testemunho:
‘Encontrei David, filho de Jessé,
homem segundo o meu coração,
que fará sempre a minha vontade’.
Da sua descendência, como prometera,
Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel.
João tinha proclamado, antes da sua vinda,
um baptismo de penitência a todo o povo de Israel.
Prestes a terminar a sua carreira, João dizia:
‘Eu não sou quem julgais;
mas depois de mim, vai chegar Alguém,
a quem eu não sou digno
de desatar as sandálias dos seus pés’.
Irmãos, descendentes de Abraão
e todos vós que temeis a Deus:
a nós é que foi dirigida esta palavra de salvação».

AMBIENTE

No ano 46, Paulo e Barnabé deixaram a comunidade cristã de Antioquia da Síria e partiram por mar para anunciar Jesus no mundo helénico. Depois de terem passado em Chipre, desembarcaram em Perge, na costa meridional da Ásia Menor. Depois, dirigiram-se por terra para as cidades do interior e chegaram a Antioquia da Pisídia. Num sábado, “entraram na sinagoga da cidade” (Act 13,14), a fim de participar na liturgia sinagogal. Convidado a falar, pelos chefes da sinagoga, Paulo aproveitou para anunciar Jesus à comunidade judaica aí reunida (cf. Act 13,16-41). O texto que nos é proposto como segunda leitura é um pequeno excerto do discurso que, nesse contexto, Paulo pronunciou.
Trata-se do primeiro discurso posto por Lucas na boca de Paulo; contém alguns dos temas que estarão presentes de agora em diante, na sua pregação aos pagãos.

MENSAGEM

O discurso posto por Lucas na boca de Paulo consta, sobretudo, de reflexões sobre o Antigo Testamento. Faz uma rápida síntese da “história da salvação”, indicando alguns dos seus fios condutores, para mostrar que tudo converge para Jesus e que tudo culmina em Jesus.
É neste contexto que nos aparece a referência a João Baptista. Ele é apresentado como aquele que veio preparar a vinda de Jesus, propondo um baptismo de conversão (a expressão grega “baptisma metanoías” faz alusão a uma transformação radical das mentalidades, a fim de que a proposta do “Reino” trazida por Jesus possa encontrar acolhimento no coração e na vida de todos os homens) a todo o povo de Israel (vers. 24). João Baptista não é o Messias esperado, mas o profeta que anuncia aquele que virá a seguir e ao qual o próprio João não se sente sequer digno de “desatar as sandálias” (vers. 25). A expressão denuncia essa consciência que o profeta tem de ser apenas um simples e frágil instrumento de Deus.
Repare-se, ainda, como João se esforça por não apontar para si mesmo, mas para Cristo. A missão do profeta não é dirigir o olhar do mundo na sua própria direcção, mas sim o orientar o coração dos homens para o essencial, para Deus.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão do texto pode fazer-se a partir das seguintes indicações:

• O profeta é alguém chamado a testemunhar Deus no meio dos homens, mesmo quando os homens preferem ignorar Deus e edificar a sua vida à margem de Deus. João Baptista, o profeta, assumiu plenamente a missão de testemunhar Deus: convocou os homens para o encontro com o Deus incarnado, convidou os homens a despirem o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, a violência, a ganância, e a preparar o coração para acolher a proposta de salvação que Deus veio fazer, em Jesus. Este programa não perdeu actualidade: o apelo à conversão, à revolução das mentalidades e das atitudes e o convite a acolher a libertação que Deus nos oferece continuam a fazer sentido e a ser o núcleo essencial do anúncio profético. É este o meu programa?

• O profeta é um instrumento simples, limitado e frágil, através de quem Deus age no mundo. Isto revela, por um lado, que Deus se manifesta na simplicidade e na fraqueza e que é aí que devemos procurá-l’O (Ele nunca está no poder, na riqueza, na força, na prepotência, na imposição); isto revela, por outro lado, que o profeta não tem de que se orgulhar ou envaidecer: não são as suas qualidades que são determinantes, mas sim a acção de Deus.

• O “caminho profético” não passa por concentrar em si próprio a atenção das multidões, exibir-se e receber a adoração das pessoas, ser admirado e aclamado, conseguir sucesso e aparecer nas revistas sociais, promover a imagem e tratar por tu os que mandam no mundo, exibir brilhantes qualidades e criar clubes de fãs. O profeta é o “servo” de Deus, que se esconde atrás do cenário enquanto aponta os focos para Deus e cuja função é fazer incidir em Deus os olhos dos homens… Não é o profeta que deve aparecer; mas, nele, é Deus que os homens devem encontrar.



ALELUIA – cf Lc 1,76

Aleluia. Aleluia.

Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo,
irás à frente do Senhor a preparar os seus caminhos.



EVANGELHO – Lc 1,57-66.80

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho.
Os seus vizinhos e parentes souberam
que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício
e congratularam-se com ela.
Oito dias depois,
vieram circuncidar o menino
e deram-lhe o nome do pai, Zacarias.
Mas a mãe interveio e disse:
«Não, Ele vai chamar-se João».
Disseram-lhe:
«Não há ninguém da tua família que tenha esse nome».
Perguntaram então ao pai, por meio de sinais,
como queria que o menino se chamasse.
O pai pediu uma tábua e escreveu:
«O seu nome é João».
Todos ficaram admirados.
Imediatamente se lhe abriu a boca
e se lhe soltou a língua e começou a falar,
bendizendo a Deus.
Todos os vizinhos se encheram de temor
e por toda a região montanhosa da Judeia
se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar
guardavam-nos em seu coração e diziam:
«Quem virá a ser este menino?»
Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo
e o seu espírito fortalecia-se.
E foi habitar no deserto
até ao dia em que se manifestou a Israel.

AMBIENTE

O “Evangelho da Infância”, na versão de Lucas, põe em paralelo as figuras de João e de Jesus (ao anúncio do nascimento de João – cf. Lc 1,5-25 – corresponde o anúncio do nascimento de Jesus – cf. Lc 1,26-38; à história do nascimento de João – cf. Lc 1,57-80 – corresponde a história do nascimento de Jesus – cf. Lc 2,1-21). Este paralelismo serve para iluminar a relação existente entre os dois – uma relação que a reflexão eclesial foi aprofundando e ampliando desde as tradições mais antigas.
Na época em que Lucas escreve, as comunidades cristãs conhecem os discípulos de João, cuja actividade proselitista chegou à Ásia Menor (cf. Act 18,24-19,7). Provavelmente, havia quem confundia João com o Messias… Neste contexto, a comunidade lucana quis deixar claro o papel relevante de João na economia da salvação mas, ao mesmo tempo, afirmar a subordinação de João a Jesus… A superioridade de Jesus em relação a João está, aliás, bem patente na diferença entre o relato do anúncio do nascimento de João e o relato do anúncio do nascimento de Jesus; está também patente no encontro de Maria com Isabel, em que a própria mãe de João proclama Maria como a mãe do seu Senhor, reconhecendo a inferioridade do seu filho em relação a Jesus (cf. Lc 1,39-45); está, ainda, patente no relevo dado pelo evangelista ao relato do nascimento de Jesus (que é longo, rico de pormenores e está carregado de teologia) em detrimento do relato do nascimento de João (que é contado em poucas linhas, sem grande riqueza de detalhes).

MENSAGEM

O relato começa com a descrição do quadro de alegria que acolheu o nascimento do filho de Zacarias e de Isabel (vers. 57-58). A alegria – um dos elementos característicos da teologia de Lucas – significa que chegaram os tempos novos, os tempos do cumprimento das promessas de Deus, o tempo da misericórdia de Deus.
Por alturas da circuncisão (no oitavo dia depois do nascimento, data legal da circuncisão, segundo Gn 17,12 e Lv 12,3), põe-se a questão do nome que irá ser dado ao menino (no Antigo Testamento, o nome é dado à nascença – cf. Gn 4,1; 21,3; 25,25-26; mas aqui aparece o costume helenista, assumido pelo judaísmo mais recente). Os vizinhos e parentes dão como adquirido que o menino se chamará como o pai. No entanto, Isabel e Zacarias escolhem um outro nome: João (sugerido pelo anjo, aquando do anúncio do nascimento do menino – cf. Lc 1,13). O nome significa literalmente “o Senhor concede graça”: o menino é um “dom de Deus” e o primeiro sinal da graça que Deus vai derramar sobre os homens, através do Messias que está para chegar. Por outro lado, o acordo da mãe e do pai sobre um nome que não era familiar aparece como divinamente inspirado.
Diante do nascimento de João, Lucas nota o espanto e o temor de todos os presentes. O espanto (vers. 63) é a reacção habitual das multidões diante dos milagres (cf. Lc 8,25.56; 9,43; 11,14; Act 3,10) e de outras manifestações divinas (cf. Lc 24,12.41; Act 2,7); o “temor” (vers. 65) define a atitude normal do homem diante do mistério, do transcendente, do divino (Lucas fará referência ao “temor” diante das revelações – cf. Lc 2,9; 9,34 – dos milagres – cf. Lc 5,26; 7,16; 8,25.37; 24,5.37 – e de outras intervenções divinas – cf. Act 5,5.11; 19,17).
O quadro completa-se com a indicação de que, “de facto, a mão do Senhor estava com ele” (vers. 66). A expressão inspira-se no Antigo Testamento, onde serve para exprimir a protecção de Deus sobre os seus fiéis (cf. Sal 80,18; 139,5) e a sua acção sobre os profetas (cf. 1 Re 18,46; 2 Re 3,15; Ez 1,3; 3,14.22; 8,1). Aqui, significa que João tem a protecção de Deus e que Deus age nele. Tudo isto define um quadro de intervenção e de presença de Deus, mostrando que toda a existência de João se compreende à luz da iniciativa divina.
No final da leitura (vers. 80a), apresenta-se uma fórmula usada para resumir a infância de certas figuras que desempenharam papéis de referência na história do Povo de Deus (Sansão – cf. Jz 13,24-25; Samuel – cf. 1 Sm 2,26). Há também uma referência à ida de João para o deserto (vers. 80b); deserto é o lugar onde Israel fez a sua experiência de encontro com o Deus libertador, onde sentiu de forma especial o amor de Deus e onde o Povo assumiu o compromisso da aliança: é essa experiência que João vai fazer, para depois a apresentar ao seu Povo. Além disso, a referência ao deserto prepara a próxima aparição de João no Evangelho, cerca de trinta anos depois (cf. Lc 3,1-3).
No relato transparece, de forma especial, a centralidade de Deus em todo o processo. João é um “dom de Deus”, vem com uma missão de Deus e é um sinal da presença de Deus no meio do seu Povo.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes linhas:

• A história de João fala-nos, em primeiro lugar, de um Deus que ama os homens e que tem para lhes oferecer um projecto de salvação e de vida plena; é por isso que Ele inventa formas humanas de vir ao encontro dos homens, de lhes fazer chegar a sua Palavra e as suas propostas, de os questionar e interpelar com a Palavra profética… Ao celebrar esta solenidade, estamos a celebrar o Deus/amor, que se revela na figura do profeta João. Eu tenho sido sempre, para os meus irmãos, um “dom de Deus”, um sinal vivo e profético do Deus que os ama e que lhes oferece a salvação? Os “vizinhos e parentes” encontram em mim a manifestação de Deus?

• No relato do nascimento de João, transparece a centralidade de Deus na vida do profeta, desde o seio materno. O profeta é um homem de Deus, cuja vida tem origem em Deus, cuja vocação só faz sentido à luz de Deus, cujo alimento é o próprio Deus, cujas palavras são palavras de Deus. Tenho consciência de que Deus tem de estar no centro da minha vida e que a minha vocação profética só faz sentido se eu aceitar viver numa ligação “umbilical” com Deus?

• Embora os textos de hoje não refiram essa dimensão, convém, nesta solenidade, reflectir acerca da forma como João Baptista viveu a sua missão profética. São particularmente questionantes o seu despojamento, a sua radicalidade, a sua entrega total à missão, a coragem com que ele enfrentou os poderosos, a sua capacidade de dar a vida para defender a verdade. Estas características fazem parte do “caminho profético”.

• No relato de Lucas, fica bem expressa a diferença entre João e Jesus… João não é a salvação; ele veio, apenas, dar testemunho da chegada iminente da salvação. O profeta precisa de ter consciência do seu papel e do seu lugar: ele não é “a luz”; a sua missão não é levar os homens a aderir à sua pessoa, mas à pessoa de Jesus. O profeta deve ter cuidado para não usurpar, nunca, o lugar de Deus.



ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA A SOLENIDADE DE S. JOÃO BAPTISTA
(em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 12º Domingo do Tempo Comum, este ano Solenidade de S. João Baptista, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.
Para participar na Eucaristia e dizer “presente” à convocação do Senhor, pode-se, no início da celebração convidar os membros da assembleia a saudar quem está ao lado, dizendo o próprio nome. Além disso, o Evangelho proporciona-se a que seja dialogado…

3. BILHETE DE EVANGELHO.
Zacarias tinha posto em dúvida a palavra do mensageiro de Deus; esta dúvida tornou-o mudo. Porque não acolheu a mensagem de Deus, não podia anunciar qualquer mensagem. Ora, eis que Isabel, sua esposa, dá ao mundo um filho a quem dá o nome de João, mas cabe ao pai dar um nome ao seu filho. Zacarias, animado pelo Espírito de Deus, não opôs qualquer resistência, escreve o nome de João. Então, porque fez a vontade de Deus, torna-se um homem livre, livre de falar, livre de bendizer a Deus. Seríamos tentados a dizer: desde os seus oito dias, pela sua presença, aquele que será o último profeta da Antiga Aliança e o primeiro a mostrar o Messias, oferece a Deus a ocasião de manifestar a sua obra criadora e libertadora. A mão do Senhor estava com ele. Então, compreende-se a interrogação da multidão: «Quem virá a ser este menino?» A resposta será dada trinta anos mais tarde: ele será o percursor, aquele que precede o Messias que deve vir.

4. À ESCUTA DA PALAVRA.
«Quem virá a ser este menino?» João Baptista será o único ser humano, com a Virgem Maria e Jesus, naturalmente, de quem a Igreja celebra o nascimento terrestre. Para todos os outros santos, ela faz memória do seu “nascimento para o céu”, isto é, da sua morte. Porquê um tal privilégio para o Baptista? Porque recebeu o Espírito Santo desde o seu nascimento, quando Maria, a “cheia de graça”, veio visitar a sua prima Isabel. Ele é o maior dos profetas de Israel, porque reconheceu e designou o Messias. Isso aconteceu em toda a sua vida. Até ao fim, permanecerá fiel à sua missão de porta-voz de Deus e a sua morte será miserável. Poderia ser tentado a tomar-se por Messias. Aceitando a sua missão, João Baptista nada reivindicou para si. Viveu numa total humildade, sabendo fazer a verdade sobre si mesmo. Pôde, então, viver no amor que tem a sua fonte em Deus. Amigo do esposo, de Jesus, reconheceu que Jesus era maior do que ele. Tornou-se, assim, para nós, um exemplo na nossa caminhada de seguimento de Jesus, para que deixemos, nós também, Jesus crescer em nós. Que isso seja também a nossa alegria.

5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se rezar a Oração Eucarística II para as Assembleias com Crianças, que permite recordar todo o amor do Pai e responder-lhe.

6. PALAVRA PARA O CAMINHO…
“Quem será esta criança?” Cada um é único… Cada recém-nascido é uma nova criatura de Deus… Cada um recebe de Deus uma missão… Pensámos nisso no momento de um nascimento? A liturgia deste dia recorda-nos que cada um é escolhido por Deus para a missão que lhe é confiada. Digamos-lhe qual é a nossa e procuremos fazer o ponto da situação, no plano espiritual, para um recomeçar de novo…

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Trofa
Administrador(a)
*******

Karma: 879
Offline Offline

Sexo: Masculino
Mensagens: 10024


Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.


WWW
« Responder #14 em: 27 de Junho de 2007, 17:57 »

13º Domingo do Tempo Comum - Ano C

ANO C
13º DOMINGO DO TEMPO COMUM
1 de Julho de 2007

Tema do 13º Domingo do Tempo Comum
A liturgia de hoje sugere que Deus conta connosco para intervir no mundo, para transformar e salvar o mundo; e convida-nos a responder a esse chamamento com disponibilidade e com radicalidade, no dom total de nós mesmos às exigências do “Reino”.
A primeira leitura apresenta-nos um Deus que, para actuar no mundo e na história, pede a ajuda dos homens; Eliseu (discípulo de Elias) é o homem que escuta o chamamento de Deus, corta radicalmente com o passado e parte generosamente ao encontro dos projectos que Deus tem para ele.
O Evangelho apresenta o “caminho do discípulo” como um caminho de exigência, de radicalidade, de entrega total e irrevogável ao “Reino”. Sugere, também, que esse “caminho” deve ser percorrido no amor e na entrega, mas sem fanatismos nem fundamentalismos, no respeito absoluto pelas opções dos outros.
A segunda leitura diz ao “discípulo” que o caminho do amor, da entrega, do dom da vida, é um caminho de libertação. Responder ao chamamento de Cristo, identificar-se com Ele e aceitar dar-se por amor, é nascer para a vida nova da liberdade.


LEITURA I – 1 Re 19,16b.19-21

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

Naqueles dias,
disse o Senhor a Elias:
«Ungirás Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meola,
como profeta em teu lugar».
Elias pôs-se a caminho
e encontrou Eliseu, filho de Safat,
que andava a lavrar com doze juntas de bois
e guiava a décima segunda.
Elias passou junto dele e lançou sobre ele a sua capa.
Então Eliseu abandonou os bois,
correu atrás de Elias e disse-lhe:
«Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe;
depois irei contigo».
Elias respondeu:
«Vai e volta,
porque eu já fiz o que devia».
Eliseu afastou-se,
tomou uma junta de bois e matou-a;
com a madeira do arado assou a carne,
que deu a comer à sua gente.
Depois levantou-se e seguiu Elias,
ficando ao seu serviço.

AMBIENTE

Esta passagem do primeiro Livro dos Reis leva-nos até ao séc. IX a.C. Estamos na época dos dois reinos divididos.
Os profetas Elias e Eliseu, aqui referenciados, exerceram o seu ministério profético no reino do norte (Israel), no tempo dos reis Acab e Ocozias (Elias), Jorão e Jehú (Eliseu). É uma época de grande desnorte, em termos religiosos: a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros assumem na cultura religiosa de Israel.
Uma grande parte do ministério de Elias desenrola-se durante o reinado de Acab (874-853 a.C.). O rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Astarte e prostra-se diante das estátuas desses deuses. Estamos diante de uma tentativa de abrir Israel ao intercâmbio com outras culturas; mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. Nessa época, Elias torna-se o grande campeão da fé jahwista (cf. 1 Re 18 – o episódio do “duelo” religioso entre Elias e os profetas de Baal, no monte Carmelo), defendendo a Lei em todas as suas vertentes (inclusive na vertente social – cf. 1 Re 21 – o célebre episódio da vinha de Nabot), contra uma classe dirigente que subvertia a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.
A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé jahwista será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A leitura que nos é proposta apresenta-nos, precisamente, o chamamento de Eliseu.

MENSAGEM

O texto propõe-nos uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem.
O quadro inicial da nossa leitura situa-nos no Horeb, a montanha da revelação de Deus ao seu Povo (cf. 1 Re 19,8). Porquê no Horeb? Porque aí, no lugar onde começou a Aliança, Deus vai definir os instrumentos do restabelecimento da Aliança: Elias é convidado a ungir Eliseu como profeta; ele será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Jahwéh e à Aliança. Trata-se da única vez que o Antigo Testamento refere a “unção” de um profeta.
Após a apresentação inicial, o autor deuteronomista desenha o quadro do chamamento de Eliseu. Ele está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e o convida a ser profeta: o profeta não é alguém que, repentinamente, cai do céu e invade de forma anormal o mundo dos homens; também não é alguém que se torna profeta porque não serve para outra coisa; mas é sempre um homem normal, com uma vida normal, a quem Deus chama, indo ao seu encontro e falando-lhe na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio.
Elias lança sobre Eliseu o seu “manto”. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objectos pertencentes a uma pessoa representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder: dessa forma, Elias comunica a Eliseu o seu poder e o seu espírito proféticos (cf. 2 Re 2,13-14; 4,29-31; Lc 8,44; Act 19,12).
Temos, depois, a resposta de Eliseu ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias: imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço.
O gesto de Eliseu significa, provavelmente, o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão, a ruptura com a própria família e a entrega total à missão profética. Exprime a radicalidade da sua entrega ao serviço de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, para a reflexão, os seguintes dados:

• A história da salvação não é a história de um Deus que intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora; mas é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espectáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou. Aceitamos este desafio?

• O relato da “vocação” de Eliseu não é o relato de uma situação excepcional, que só acontece a alguns privilegiados, eleitos entre todos por Deus para uma missão no mundo; mas é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã. Estou atento aos apelos de Deus? Tenho disponibilidade, generosidade e entusiasmo para me empenhar nas tarefas a que Ele me chama?

• O chamamento de Deus chega a Eliseu através da acção de Elias… É preciso ter em conta que, muitas vezes, o desafio de Deus nos chega através da palavra ou da interpelação de um irmão; e que, muitas vezes, é preciso contar com o apoio de alguém para discernir o caminho e ser capaz de enfrentar os desafios da vocação.

• Finalmente, somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria dar-se, radicalmente, ao projecto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.



SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão: O Senhor é a minha herança.

Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.
Diga ao Senhor: «Vós sois o meu Deus».
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena na vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.



LEITURA II – Gal 5,1.13-18

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.
Por isso vos digo:
Deixai-vos conduzir pelo Espírito
e não satisfareis os desejos da carne.
Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito
e o Espírito desejos contrários aos da carne.
São dois princípios antagónicos
e por isso não fazeis o que quereis.
Mas se vos deixais guiar pelo Espírito,
não estais sujeitos à Lei de Moisés.

AMBIENTE

Continuamos a ler a Carta aos Gálatas. Já sabemos qual é o problema fundamental aí abordado: os Gálatas estão a ser perturbados por esses “judaízantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis.
O texto que nos é proposto aparece na parte final da Carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gal 5,1-6,10).

MENSAGEM

As palavras de Paulo são um convite veemente à liberdade. Logo no início deste texto (vers. 1), ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição – libertar para a liberdade – é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém voltar a cair no jugo da escravidão (mais à frente – vers. 2-4 – ele identifica essa escravidão com a Lei e com a circuncisão).
Os vers. 13-18 explicam em que consiste a liberdade para o cristão. Trata-se da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Trata-se de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não.
Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vers. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros.
Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo (vers. 16).
Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo – cf. Gal 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, mais à frente, as obras daquele que é livre e vive no Espírito – cf. Gal 5,22-23).

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:

• Os homens do nosso tempo têm em grande apreço esse valor chamado “liberdade”; no entanto têm, frequentemente, uma perspectiva demasiado egoísta deste valor fundamental. Quando a “liberdade” se define a partir do “eu”, identifica-se com “libertinagem”: é a capacidade de “eu” fazer o que quero; é a capacidade de “eu” poder escolher; é a capacidade de “eu” poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me impeça… Esta liberdade não gera, tantas vezes, egoísmo, isolamento, orgulho, auto-suficiência e, portanto, escravidão?

• Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?

• Falar de uma comunidade (cristã ou religiosa) formada por pessoas livres em Cristo implica falar de uma comunidade voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de pessoas livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de escravos, presos aos seus interesse pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e prepotência?



ALELUIA – 1 Sam 3,9; Jo 6,68c

Aleluia. Aleluia.

Falai, Senhor, que o vosso servo escuta.
Vós tendes palavras de vida eterna.



EVANGELHO – Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

AMBIENTE

Aqui começa, precisamente, a segunda parte do Evangelho segundo Lucas. Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia (1ª parte); mas, a partir de 9,51, Lucas põe Jesus a caminhar decididamente para Jerusalém. A “caminhada” que Jesus aqui inicia com os discípulos é mais teológica do que geográfica: não se trata tanto de fazer um diário da viagem ou de fazer a lista dos lugares por onde Jesus vai passar até chegar a Jerusalém; trata-se, sobretudo, de apresentar um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do “Reino” e os vai presenteando com a plenitude da revelação de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz: ela vai trazer a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e nela vai irromper a salvação definitiva. Os discípulos são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus… Lucas propõe aqui à sua comunidade o itinerário que os autênticos crentes devem percorrer.

MENSAGEM

Lucas começa por apresentar as “exigências” do “caminho”. O nosso texto apresenta, nitidamente, duas partes, dois desenvolvimentos.
Na primeira parte (vers. 51-56), o cenário de fundo situa-nos no contexto da hostilidade entre judeus e samaritanos. Trata-se de um dado histórico: a dificuldade de convivência entre os dois grupos era tradicional; os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel procuravam evitar a passagem pela Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a fim de evitar “maus encontros”.
A primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” vai para a atitude que os discípulos devem assumir face ao “ódio” do mundo. Que fazer quando o mundo tem uma atitude de rejeição face à proposta de Jesus? Tiago e João pretendem uma resposta agressiva, “musculada”, que retribua na mesma moeda, face à hostilidade manifestada pelos samaritanos (a referência ao “fogo do céu” leva-nos ao castigo que Elias infligiu aos seus adversários – cf. 2 Re 1,10-12); mas Jesus avisa-os que o seu “caminho” não passa nem passará nunca pela imposição da força, pela resposta violenta, pela prepotência (no seu horizonte próximo continua a estar apenas a cruz e a entrega da vida por amor: é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão). Isto é algo que os discípulos nunca devem esquecer, se estão interessados em percorrer o “caminho” de Jesus.
Na segunda parte (vers. 57-62), Lucas apresenta – através do diálogo entre Jesus e três candidatos a discípulos – algumas das condições para percorrer, com Jesus, esse “caminho” que leva a Jerusalém, isto é, que leva ao acontecer pleno da salvação. Que condições são essas?
O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material.
O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se desses deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância (o dever de sepultar os pais é um dever fundamental no judaísmo), impedem uma resposta imediata e radical ao Reino.
O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da própria família, se for necessário), para fazer do Reino a sua prioridade fundamental: nada – nem a própria família – deve adiar e demorar o compromisso com o Reino.
Não podemos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Ele mandou cuidar dos pais (cf. Mt 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1 Cor 9,5)… O que estes ensinamentos pretendem dizer é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo aquilo que possa ser um obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

• A nós, discípulos de Jesus, é proposto que o sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências. Aceitamos ser discípulos, isto é, embarcar com Jesus no “caminho de Jerusalém”?

• Jesus recusa, liminarmente, responder à oposição e à hostilidade do mundo com qualquer atitude de violência, de agressividade, de vingança. No entanto, a Igreja de Jesus, na sua caminhada histórica, tem trilhado caminhos de violência, de fanatismo, de intolerância (as cruzadas, as conversões à força, os julgamentos da “santa” Inquisição, as exigências que criam em tantas consciências escravidão e sofrimento…). Diante disto, resta-nos reconhecer que, infelizmente, nem sempre vivemos na fidelidade aos caminhos de Jesus e pedir desculpa aos nossos irmãos pela nossa falta de amor. É preciso, também, continuar a anunciar o Evangelho com fidelidade, com firmeza e com coragem, mas no respeito absoluto por aqueles que querem seguir outros caminhos e fazer outras opções.

• O “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus… O que é que, na nossa vida quotidiana, ainda nos impede de concretizar um compromisso total com o “Reino” e com esse caminho do dom da vida e do amor total?


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 13º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. VALORIZAR AS PROCISSÕES DA CELEBRAÇÃO.
O “Segue-Me” que Cristo nos dirige no Evangelho pode ser realçado particularmente nas procissões da Eucaristia:
- procissão de entrada: seguir atrás de Cristo, salvador dos homens;
- procissão do Evangeliário no momento da aclamação do Evangelho: seguir atrás de Cristo, Palavra de Vida;
- procissão de ofertório: seguir atrás de Cristo, sacerdote eterno na sua oblação ao Pai;
- procissão de comunhão: é Cristo que nos convida a comungar o seu Corpo e o seu Sangue;
- procissão de saída: é Cristo que nos envia para o mundo.
Cada comunidade procurará encontrar os meios mais adequados para valorizar as procissões na Eucaristia, tantas vezes esquecidas ou mal preparadas, como expressão simbólica e profunda do nosso seguimento de Cristo.

3. O SALMO.
O Salmo de hoje é um dos mais belos e mais profundos. Seria útil que toda a assembleia tivesse o texto fotocopiado, para ser acompanhado no momento próprio da sua proclamação. Depois da comunhão, pode ser retomado: em acção de graças, toda a assembleia pode ler lentamente as quatro estrofes.

4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus de bondade, de luz, de vida e de alegria, como Elias e Eliseu, vale a pena agarrarmo-nos a Ti sem olhar para trás. Nós Te damos graças pelos teus apelos.
Nós Te pedimos pelos nossos irmãos e irmãs indecisos, que duvidam e hesitam em dar o passo, nas múltiplas solicitações da existência.

No final da segunda leitura:
Pai, nós Te damos graças pela libertação realizada pelo teu Filho, que nos purifica das forças do mal, e pelo dom do teu Espírito, que nos purifica do egoísmo.
Escutando o teu Filho Jesus, colocamo-nos sob a acção do Espírito Santo, para que nos penetre com a sua luz e nos indique o caminho.

No final do Evangelho:
Deus fiel, bendito sejas pela paciência que o teu Filho Jesus nos revela: não lanças o fogo do céu sobre os indiferentes e os duros de coração, porque não queres a morte do pecador, mas que ele viva.
Nós Te pedimos: liberta-nos do peso das nossas culpabilidades, purifica-nos dos erros cometidos, para que possamos seguir o teu Filho com um coração leve e puro.

5. BILHETE DE EVANGELHO.
Quando Lucas menciona que Jesus tomou com coragem o caminho de Jerusalém, apresenta Cristo plenamente livre e decidido em ir até ao fim da sua missão, com o risco de aí viver a sua Paixão. É, pois, um Cristo a caminho que reencontram os seus discípulos e, nesta caminhada como em todas as outras, há obstáculos de toda a espécie. Encontra a recusa dos Samaritanos, mas Jesus passa e respeita a liberdade das pessoas que encontra. Ao contrário de Tiago e João que queriam empregar o método da força… E depois, quando alguém caminha dá também vontade de seguir os seus passos. Somente Cristo em marcha sabe aonde vai, avança com passo decidido. Então, quem quiser segui-l’O não pode ter hesitações nem restrições. Para Ele, o tempo urge, tem a ver com a salvação da humanidade, com a vontade do Pai. Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a colocarmo-nos a caminho atrás d’Ele. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “combati o bom combate, acabei a minha carreira, guardei a fé”.

6. À ESCUTA DA PALAVRA.
Frases fortes, às vezes revoltantes, as do Evangelho de hoje. É impossível pararmos em cada uma delas. Retenhamos a última afirmação de Jesus: “Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus”. Mas olhar para trás pode ser útil, mesmo necessário. Parar para fazer o ponto da situação, fazer o balanço, saber onde se está, reconhecer os erros cometidos mas também os progressos realizados, para poder recomeçar melhor. É também dar graças pelas amizades, pelas experiências enriquecedoras. E tirar lições positivas dos fracassos. Tudo isso é bom e Jesus não pode condenar ou proibir isso. Mas há outra maneira de olhar para trás. É querer voltar para trás, manter em si uma vã nostalgia. Quando dizemos, por exemplo: “antigamente, é que era bom, era melhor que agora!”. Lamentamos o tempo em que, pensamos nós, havia o respeito dos verdadeiros valores, onde havia referências seguras, que pensávamos imutáveis. Lembramo-nos das igrejas cheias, das missas em latim. “Nessa altura, sim, havia fé!”, dizemos. Enquanto que hoje, só há dinheiro, violência, sexo, divórcios, droga! E suspiramos: “No meu tempo, não era assim!” Ora, esquecemos simplesmente que o “meu tempo” é o tempo que me é dado hoje. Não é mais ontem, não é ainda amanhã, é hoje. Mais ainda, quando acreditamos que Jesus ressuscitou, referimo-nos a um acontecimento que se passou há dois mil anos. E pensamos, por vezes, que para nos juntarmos a Jesus, é preciso voltar atrás. Isso é um grande erro. Pela sua ressurreição, Jesus saiu do nosso tempo, tornou-Se o contemporâneo de cada momento do tempo. Jesus conhece-me, encontra-me, dá-me a sua presença hoje, em cada instante da minha vida. Jesus pede-me para não voltar atrás, porque me diz: “É agora que te amo, é agora que quero encontrar-te, estar contigo”. Se aceito isso, então sou “feito para o Reino!”

7. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Em ligação com o Evangelho, pode-se escolher a Oração Eucarística II, sublinhando a expressão “Tu nos escolheste para servir em tua presença”.

8. PALAVRA PARA O CAMINHO…
Apelo e convite a amar. Apelo: um convite presente em todas as leituras deste domingo. Apelo que recebe um acolhimento favorável, mas com resistências quanto à resposta. Sim, mas… Vamos aceitar o apelo de Jesus a segui-l’O, vamos renovar o convite a segui-l’O no amor. Em cada momento, ao longo da semana que se segue…

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS


Grupo Dinamizador:

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.ptwww.ecclesia.pt/dehonianos
Registado

Ajude o Portal de São Romão, contribuindo todos os dias com o seu voto.

Páginas: [1] 2 3 4   Ir para o topo
  Imprimir  
 
Ir para:  


Powered by MySQL Powered by PHP Powered by SMF 1.1.9 | SMF © 2005, Simple Machines LLC XHTML 1.0 válido! CSS válido!