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Autor Tópico: Símbolos e atitudes da Quaresma  (Lida 1788 vezes)
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Xuxu
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« em: 29 de Março de 2005, 15:54 »


Símbolos e atitudes da Quaresma
 

 
 

Os quarenta dias


A organização quaresmal é um tempo simbólico que tem as suas raízes no Antigo e no Novo Testamento.

No Deuteronómio aparece uma interpretação dos quarenta anos como um tempo de prova a que Deus submete o povo (Dt 2, 7; 8, 2-4). São os dias do crescimento da fé, segundo o Salmo 94, 10.

Para os Actos dos Apóstolos, o número quarenta continua a ser sim-bólico. São Lucas divide a vida de Moisés em três períodos de qua-renta anos (Act 7, 23 e 7, 30); faz refe-rência aos quarenta anos de reinado de Saul (Act 13, 21) e aos quarenta dias da Ascensão (Act 1,3).

Estes quarenta dias poderiam, então, considerar-se o “hoje” de que fala a Carta aos Hebreus ao referir-se ao Salmo 94, como esse «tempo propício» para escutar a voz de Deus e não endurecer o coração. De facto, a nossa relação com Deus necessita não só de um “espaço” adequado (o deserto como lugar de silêncio), mas também de um “tempo” oportuno e concreto, “suficiente” para escutar, na consciência, a sua voz de Pai que ao mesmo tempo corrige e consola.

 

As cinzas

 
O símbolo das cinzas encontra-se já nas primeiras páginas da Bíblia, onde se conta que «Deus fez o homem do pó da terra» (Gn 2, 7). É isso o que quer dizer o nome de Adão, a quem se recorda que é precisamente esse o seu fim: «até que voltes à terra donde foste tirado» (Gn 3,19).

Isto leva-nos a assumir uma atitude de humildade: «os homens são pó e cinza» (Sl 17, 32); «todos expiram e voltam ao pó» (Sl 104, 29). Por isso, a cinza significa também o sofrimento, o luto, o arrependimento. No Livro de Job (42, 6) é explicitamente sinal de dor e penitência.

O actual costume de impor as cinzas aos fiéis no início da Quaresma não é muito antigo. Nos primeiros séculos, este gesto apontava o caminho quaresmal dos “penitentes”; isto é, o grupo de pecadores que queriam receber a reconciliação em Quinta-feira Santa, às portas da Páscoa. Vestidos com o hábito penitencial e com a cinza que eles próprios colocavam na fronte, apresentavam-se perante a comunidade e manifestavam a sua conversão.

No século XI, desaparecida a instituição dos penitentes como grupo, constatou-se que o rito da cinza era adequado para todos. Começou, então, a “impor-se” a todos os cristãos: a comunidade reconhecia-se pecadora e mostrava  disposição para a conversão quaresmal.

Na última reforma litúrgica reorganizou-se o rito, dando-lhe um carácter mais ex-pressivo e peda-gógico. Já não se realiza no princípio da celebração ou independente dela, mas após as leituras bíblicas e a homilia. Assim, a Palavra de Deus, que nesse dia nos convida à conversão, é que dá conteúdo e sentido ao gesto. E de tal modo que se a imposição das cinzas se fizer fora da Eucaristia – por exemplo, nas comunidades sem padre – tem de fazer-se sempre no contexto da escuta da Palavra.

 

O deserto

Geograficamente falando, o deserto é um lugar despovoado, árido, inabitado.

E o lugar do jejum, considerado como desprendimento e solidão interior e exterior, para levar à união com Deus.

Para a Bíblia, o deserto é também um tempo de oração intensa. É o lugar do sofrimento purificador e da reflexão, se bem que seja também uma graça que se pode recusar.

O jejum de Moisés contrasta com a atitude do povo, revoltado face aos quarenta anos de peregrinação a caminho da Terra Prometida. Os quarenta dias de Moisés são a reconstrução de um caminho de fidelidade que o povo não soube percorrer, tal como os de Cristo o são perante a prova que o Espírito Santo permitia ao tentador (Mt 4,1).

O deserto é a geografia concreta, o espaço e o tempo da união com Deus. Por isso, Oseias (2, 16-17) apresenta-o como lugar propício para captar a sua mensagem espiritual, tal como a Igreja o faz aos seus filhos na Quaresma.

Na nossa vida quotidiana recusamos frequentemente estes espaços de silêncio e de solidão, porque temos medo do encontro connosco e com Deus, descobrindo quão longe estamos dos seus projectos a nosso respeito. É por isso que o “deserto” exige a coragem dos humildes, que não têm medo de recomeçar...

 

A Oração

 

A oração ajuda-nos a estar mais perto de Deus e a mudar o que nas nossas vidas precisa de ser mudado.

É na oração que nos encontramos com o amor de Deus e com a amorosa existência da sua vontade. Para que ela seja frutuosa, devemos evitar a hipocrisia. Ou seja: devemos evitar o espectáculo, a ostentação da piedade (que deixaria de ser piedosa...), em prejuízo da atitude interior.

Devemos também evitar a dissipação, as distracções – preparando o lugar e o tempo da oração, de modo que se facilite a presença de Deus.

Devemos, por fim, evitar perdermo-nos em muitas palavras. Quer isto dizer que rezar bem não é repetir muitas orações sabidas de cor... É, sobretudo, deixar que Deus fale. É escutá-l’O..., para que, à luz da sua vontade, avaliemos os nossos desejos, intenções e necessidades.

 

Jejum e abstinência
 


Juntamente com o deserto e a oração, o jejum aparece como um dos meios privilegiados do tempo penitencial, revisão de vida e busca sincera de Deus: «...Voltai-vos para mim de todo o coração, com jejum, lágrimas e lamentações. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes e voltai-‑vos para o Senhor, vosso Deus» (Joel 2, 12-18); «Este é o jejum que me agrada, oráculo do Senhor: soltar as cadeias injustas, desatar os laços do jugo, dar liberdade aos oprimidos; repartir o pão com o esfomeado e acolher os sem abrigo, vestir os nus...» (Is 58, 6-9).

À luz destas palavras, compreendemos porque é que, com o tempo, o jejum como abstenção de comida deu lugar ao jejum como símbolo e expressão de tudo aquilo que nos impede de realizar em nós o projecto de Deus, convidando-nos a transformá-lo em gesto de soli-dariedade efectiva com os que passam fome, trabalhando pela eliminação de toda a injustiça na vida pessoal e social, e pela libertação de toda a opressão, exploração e corrupção.

Era naturalmente mais fácil limitarmo-nos cumprir com o jejum de alimentos proposto pele Igreja... Mas precisamos de descobrir esses outros jejuns como meio adequado para muda: o que mais nos custa. E até pode ser que seja por exemplo, falar menos, renunciar a gasto; supérfluos, perder menos tempo diante do televisor e trabalhar mais pelo bem comum...

Na disciplina tradicional da Igreja, o jejum fazia-se limitando a alimentação diária a uma refeição, embora não se excluísse a possibilidade de tomar alimentos ligeiros às horas das outras refeições.

Hoje, embora convenha manter esta forma de jejuar, os fiéis podem cumprir o preceito do jejum privando-se de uma quantidade ou qualidade de alimentos ou bebidas, de modo que sintam verdadeira privação ou penitência.

A abstinência consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre. Na disciplina tradicional da Igreja era abstenção de carne. Hoje pode continuar a cumprir-se deste modo, particularmente nas sextas-feiras da Quaresma. Mas poderá ser substituída pela privação de outros alimentos e bebidas, sobretudo se mais requintados e dispendiosos ou da especial preferência de cada um.

O importante é, pois, que haja verdadeiro sacrifício, renúncia ao luxo e ao esbanjamento. Se não houver privação sacrificada não poderá falar-se de uma abstinência com real carácter penitencial.

 

A caridade


 
Entre as distintas práticas quaresmais que a Igreja nos propõe ocupa lugar especial a caridade.

Assim no-lo recorda São Leão Magno, quando afirma: «estes dias quaresmais convidam-nos vivamente ao exercício da caridade; se desejamos chegar à Páscoa santificados, devemos manifestar um especialíssimo interesse na aquisição desta virtude, que contém em si todas as outras e apaga os pecados».

Devemos praticar a caridade especialmente com os que estão mais perto de nós, no nosso espaço familiar ou profissional; ou seja: o próximo mais próximo – entendendo por próximo todo aquele que se encontra em dificuldade.

Só assim construiremos o outro bem mais precioso e efectivo: a coerência da vida cristã.

 

A esmola

 
A esmola é fruto da misericórdia. Todo o nosso caminho na direcção de Cristo implica caminhar na direcção dos irmãos, especialmente dos mais necessitados.

Se, de facto, é verdade que nenhum homem é uma ilha e que ninguém pode ser feliz sozinho, é porventura mais verdade que nenhum cristão o pode ser isoladamente. Porque o cristão verdadeiro é aquele que abre a mão para repartir, estende a mão para ajudar e oferece a mão para servir.

A esmola de que aqui falamos, a esmola que Deus quer:

– tem de ser fruto do amor, significar uma real partilha e não apenas o gesto banal de dar o que sobra;

– tem de ser humilde, como se efectivamente pedíssemos desculpa ao pobre pelo pão que lhe oferecemos;

– tem de ser libertadora, pois deve ajudar o pobre a não precisar rio nosso auxílio;

– tem de ter olhos límpidos, que levem a ver Cristo no pobre que assistimos.

 

Suplemento do Diário do Minho

Fevereiro de 2004

 
 
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