QUARTA FEIRA DE CINZAS
Iniciamos, hoje, o tempo litúrgico da Quaresma, ou seja, começa o ciclo pascal da Igreja. O centro é o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor: quarenta dias de preparação e cinquenta dias de celebração da Páscoa de Jesus Cristo e da presença do seu Espírito na Igreja e no mundo. É o tempo forte da comunidade cristã. O itinerário de Jesus até à morte e ressurreição não é só motivo de contemplação. Ele é a Cabeça da Igreja, Ele convida a humanidade a segui-Lo, a morrer e a ressuscitar com Ele. Ele é o Primogénito de toda a criatura que, amando e dando-se, refez o caminho errado de Adão e abriu o caminho da vida para toda a humanidade, convidada a participar da sua Páscoa. Novamente, celebramos o mistério da vida nova que Deus concede em Jesus Cristo a todos os homens e mulheres. Num mundo tão cheio de indecisões, amarguras e superficialidades, acreditamos que podemos encontrar a verdadeira luz da vida na mensagem de Jesus, que cada um é chamado a acolher o Espírito do Evangelho, a participar da Páscoa de Jesus, a encontrar nele a vida e a esperança.
Na Quaresma, a Igreja, “no combate contra o espírito do mal” (Colecta), propõe-nos duas perspectivas. A primeira é sobre o caminho de Jesus com o relato das tentações no primeiro domingo. A segunda é sobre o nosso caminho. A Quaresma é um convite a reflectir sobre a distância que existe entre o caminho de Jesus, fiel, humilde, amoroso, generoso até à morte e a nossa vida. É um convite a reconhecer o nosso pecado e não só a “indicar” os pecados dos outros (estamos tão habituados!), ou seja, a reconhecer que somos egoístas, indiferentes, interesseiros, sensuais, agarrados às coisas materiais, pouco dispostos ao diálogo e ao perdão. A Quaresma é um convite ao arrependimento e à conversão ao Deus do Amor e do Perdão que se manifesta em Jesus Cristo. “Este é o tempo favorável” para a reconciliação (2ª leitura).
Para este tempo litúrgico, a Igreja indica-nos três gestos tradicionais: a oração, o jejum e a esmola. São os sinais da conversão nos três âmbitos da nossa vida. A oração, momento íntimo de comunhão com Deus, para escutar a sua Palavra e para lhe mostrar a nossa confiança e acolhimento, apesar de vivermos num mundo que ignora a oração e esquece-se de Deus. O jejum, esforço de mortificação pessoal na comida, nas despesas, na exibição de riqueza, nos sentidos e nas paixões. A esmola, sinal da generosidade para com o próximo, especialmente para com os mais necessitados. Mas não podemos esquecer o que diz o evangelho: “Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles”. O que é importante é ter um coração aberto e sincero. É necessário “rasgar os corações e não os vestidos” (1ª leitura), reorientar continuamente a nossa vida para Deus, eliminando sempre a tentação do protagonismo.
Nesta quarta-feira, a imposição das cinzas é o sinal que caracteriza este dia. A cinza simboliza todo o programa quaresmal da Igreja. É o reconhecimento do nosso pecado e da nossa fraqueza: “Lembra-te que és pó da terra”. É o sinal do nosso arrependimento e do nosso caminho de conversão: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. O rito pode ter dois momentos: primeiro, o sacerdote impõe as cinzas, dizendo: “Lembra-te…; depois, cada um beija o Evangeliário apresentado por um acólito que diz: “Arrependei-vos…”
É importante que a igreja e o estilo da celebração ajudem a criar o “clima” e o ambiente próprio da Quaresma: ausência de flores, cânticos adequados, silêncio, omissão do Gloria e do Aleluia que só serão entoados na Vigília Pascal; pode colocar-se em destaque uma cruz e alguns cartazes com frases alusivas a este tempo.
“Alcançar o perdão dos pecados e uma vida nova, á imagem do vosso Filho ressuscitado “ (2ª bênção da cinza). Este é o programa. Toda a Quaresma será a contemplação do caminho de Jesus, será aceitar o convite de o percorrer com Ele, como aprendizagem da verdadeira vida.
