Baptizados em Cristo
No baptismo já está em gérmen não só toda a vida cristã que depois há-de florir e frutificar, mas toda a santidade e toda a graça de união mÃstica com Deus. E se fomos baptizados é para nos podermos sentar à mesa da Eucaristia, que é o centro, o cume, o ponto mais alto da vida cristã. Mas é bom perceber que o Baptismo de Jesus, que celebramos no dia 13 de Janeiro, não é o sacramento do baptismo que nós recebemos e que o Senhor deixou na Igreja. O d’Ele, administrado por João Baptista, era um puro ritual de penitência, de desejo de conversão, que Jesus recebe por humildade e por solidariedade connosco, sem necessitar dele. O nosso é um sacramento que produz graça e que é eficaz sinal de dom e de vida divina.
O nosso baptismo, vivido na fé da Igreja, é antes de mais um dom que nos perdoa os pecados cometidos e nos insere na vida divina. Com ele, somos tornados filhos de Deus Pai, irmãos de Jesus Cristo, templos do EspÃrito. No baptismo, inseridos na vida trinitária, participamos da famÃlia divina, somos membros vivos dessa comunhão trinitária. Por adopção, não por natureza, mas verdadeiros filhos de Deus e verdadeiros membros da famÃlia divina. E, com esta graça, temos o dom precioso de sermos templos do amor trinitário, pela acção vivificadora do EspÃrito Santo. Cada baptizado fica mergulhado, por Cristo e pelo dom da sua morte e ressurreição, na vida trinitária. E a Trindade vem habitar o nosso coração, o nosso ser, que se torna uma catedral da presença e da vida trinitária. Daqui deve nascer o encanto e o gozo interior de rezarmos à Trindade, de cultivarmos com cada Pessoa da Trindade uma verdadeira comunhão, uma amizade pessoal, uma vida de intimidade. Rezar à Trindade no seu conjunto, como FamÃlia, mas rezar a cada Pessoa, pois com cada uma, pelo dom inestimável do baptismo, temos uma relação que é necessário cultivar, fazer crescer, dimensionar cada vez mais. Esta oração nos conduzirá à união mais profunda com o amor uno e trino, e fará de nós pessoas possuÃdas por Deus e a viver com Ele uma comunhão mÃstica, em que a alma já não é alma, mas é Deus.
Por outro lado, o sacramento do baptismo nos faz pertencer à Igreja, entramos nela, pelo dom da unção sagrada do EspÃrito, somos membros vivos da Igreja, pedras vivas do Templo do Senhor. Cada baptizado é mais um membro do Corpo MÃstico, mais uma ovelha do rebanho do Senhor, mais uma vida inserida na comunhão eclesial. Todos os baptizados, católicos ou não, ficam nossos irmãos. Somos todos famÃlia santa, de ungidos pelo EspÃrito, e a vida do Ressuscitado está em nós para nos fazer Igreja santa de Deus. Por isso é importante o compromisso que pais e padrinhos tomam nesse dia memorável do baptismo, de continuar a educar na fé, para que se sigam, com a preparação devida, os outros sacramentos, o compromisso apostólico, a abertura ao serviço da Mãe Igreja, a solicitude pelo que na Igreja se faz, se vive, se quer edificar na fé. Um baptizado é um membro da Igreja mas deve tomar consciência que é também seu artÃfice, seu construtor. Pela palavra e pelo exemplo de vida, pela oração e pela acção apostólica, cada baptizado é doravante profeta, sacerdote e pastor, assume em si mesmo o trÃplice múnus, o trÃplice serviço que Jesus tem e partilha com cada um dos baptizados. É a riqueza do sacerdócio comum dos fiéis, que comporta a vocação universal à santidade.
Não podemos esquecer nunca que, para além de criaturas a quem Deus ama com amor infinito de Criador, de Deus Providente, somos, pelo dom do baptismo, filhos bem-amados do Pai. O Pai de Jesus Cristo torna-Se nosso Pai e diz nesse dia e em cada momento da vida: «Tu és meu filho, tu és minha filha, em ti coloco todo o meu amor». O Pai começa no baptismo uma relação, uma vida, uma comunhão com cada um de nós que se torna nosso tesouro e nossa pérola. Ser filho de Deus é a maior grandeza da nossa vida cristã, da nossa dignidade de baptizados. Acreditar, é acreditar que Deus é Pai, é «Abba-Paizinho», que nos ama com amor infinito, louco e apaixonado, repleto de ternura, de beleza, de carinho. Poder chamar-Lhe Pai e viver com Ele uma relação filial é a maior maravilha da nossa vocação cristã. E, como é bem fácil de entender, tornamo-nos irmãos de todos os baptizados. É a nossa suma nobreza. «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade». Reconhecer as implicações maravilhosas da nossa vocação de baptizados nos faz viver a vida, a oração, o compromisso apostólico de outra maneira. E o Pai que nos quis seus filhos no Filho, em Cristo Jesus, não deixará de vir em nosso auxÃlio com a sua paternal solicitude, sempre bondosa e misericordiosa. Cantemos a alegria da nossa vocação baptismal! Vivamos em sinfonia de amor o dom maravilhoso de sermos filhos de Deus. Não cessemos de cantar o nosso «aleluia» jubiloso e agradecido.
O baptismo não é magia, mas um acto sagrado, porque sacramento de vida divina, de comunhão trinitária. Daà a necessidade de um grande exame de consciência acerca da maneira como estamos vivendo o nosso baptismo e suas exigências e compromissos. Daà também o exame de consciência de pais e padrinhos de como estão a realizar o compromisso que fizeram no dia do baptismo de seus filhos e afilhados. Daà também a urgente e necessária preparação para celebrar o sacramento, pois é um acto solene e divino, como dom do amor trinitário. Daà também a nossa oração pelos milhões de homens e mulheres que ainda não são baptizados, para que um dia possam ter essa graça maravilhosa. Daà nascerá também o gosto de celebrar o aniversário do nosso baptismo como dia de verdadeira festa.
Dário Pedroso, s.j.
